(Romanos 15.13b)
Observação: Este texto foi utilizado com minha participação no Encontro Internacional de Bispos do Movimento dos Focolares. Portanto, está sendo publicado na íntegra.
O tema da esperança no Ano do Jubileu
Os nossos encontros de Bispos (CENTRETTO) têm sido inspirados, à luz do importante tema da esperança, dentro da plataforma do Ano do Jubileu 2025, proclamado pelo Papa Francisco. Trata-se de uma oportunidade de renovação e acolhimento da graça de Deus na totalidade do povo de Deus.
Do mesmo modo, o Ano Jubilar renova a oportunidade de colocar no horizonte da vida a desafiadora palavra do Apóstolo Paulo:
“E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5.5).
O Papa Francisco, de saudosa memória, ao abrir o Ano Jubilar, exortou:
“O verdadeiro Jubileu não é fora; é dentro dos corações e das relações familiares e sociais.”
Reflexões que nos desafiam
Fomos agraciados com duas reflexões contagiantes.
O Bispo Emérito Áke Bonnier chamou a nossa atenção para o contexto marcado pela guerra, pela violência e pelo egoísmo que se multiplica. Nesse cenário de morte, ele transmite uma palavra renovadora:
“O Evangelho é a nossa esperança. Podemos ter esperança na paz e na reconciliação entre as nações, mas a esperança não pode depender de decisões políticas, pois essas podem mudar rapidamente[…] A nossa esperança está no Evangelho de Jesus Cristo, que nos mostra que a vida e o amor são mais fortes do que todas as forças de destruição, medo e ódio.”
Ainda nessa linha, o Bispo Pavel Černý nos convida a viver um estilo de vida de esperança dentro de um contexto de indiferença, medo, destruição, egocentrismo, populismo e colapsos sociais. Ele relembra a parábola do grão de mostarda contada por Jesus (Mateus 13.31–32) e destaca:
“Precisamos fortalecer a nossa fé em Jesus e renovar nossa esperança de que, pela graça de Deus, até as menores sementes que plantamos podem crescer e tornar-se uma árvore. Não há esperança maior do que crer que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos” (2 Coríntios 13.4a).
O que dizer em decorrência dessas duas maravilhosas e tocantes reflexões?
O encontro com a Teologia da Esperança
Quando iniciei meus estudos teológicos, no início da década de setenta, em um período de grande turbulência política no contexto latino-americano — marcado pelo regime autoritário e pela luta pela redemocratização — fui confrontado com a corrente teológica denominada Teologia da Esperança.
Como jovem estudante, encontrei nessa linha de pensamento bíblico e teológico referenciais importantes para o meu amadurecimento vocacional.
A Teologia da Esperança, encabeçada pelo teólogo reformado Jürgen Moltmann, nascido em Hamburgo, na Alemanha (8 de abril de 1926), foi fruto de uma experiência de agonia no campo de batalha. Foi prisioneiro de guerra, passando pela Holanda e Bélgica, depois pela Escócia e, posteriormente, pelo campo de concentração de Norton Camp, na Inglaterra, próximo a Mansfield. Seu retorno à Alemanha ocorreu em 1948.
Nesse contexto de aflição, foi confrontado com a graça de Deus, tendo como referência o clamor do salmista: “Ouve a minha prece, Senhor; escuta o meu grito de socorro; não sejas indiferente ao meu lamento” (Salmo 39.12).
O encontro com o Cristo crucificado
A trajetória de sofrimento de Moltmann foi decisiva quando leu o Evangelho de Marcos e se sentiu profundamente impactado por Jesus crucificado. Ele testemunha:
“Eu não encontrei Cristo. Ele é que me encontrou, lá naquele campo de prisioneiros de guerra escocês, no fosso escuro de minha alma. Jesus me procurou e me encontrou.”
Assim, sua teologia foi construída tendo como fundamento a morte de Jesus na cruz. Há uma identificação com o grito do Cristo crucificado:
“Meu Deus, por que me abandonaste?”
E ele afirma:
“Soube com certeza: está ali o único que me compreende. Comecei a compreender o Cristo atribulado porque sentia que era compreendido por Ele: o irmão divino na aflição, que leva comigo os cativos em seu caminho para a ressurreição. Redescobri o ânimo de viver. Fui tomado de uma grande
esperança.” (MOLTMANN, J. A Fonte de Vida, p. 12–13)
A teologia da cruz
Enquanto estudante, pastor e bispo, fui estimulado a compreender melhor a teologia da cruz de Cristo.
Em uma sociedade marcada por uma fé privatizada e pela busca de satisfação pessoal — muitas vezes centrada na chamada Teologia da Prosperidade — não há espaço para a cruz.
Moltmann mostra que a cruz conduz a comunidade de fé ao caminho da humanidade, da solidariedade e do acolhimento. Ela é condição essencial para seguir a Cristo (Mateus 16.24–28).
Não há ressurreição sem cruz. Na cruz está o fundamento da graça salvadora do Evangelho, o marco da esperança e a manifestação do amor de Deus em solidariedade com o sofrimento humano.
Viver a dinâmica da cruz é o ponto de partida para experimentar o poder transformador da ressurreição, aqui e no futuro. Sem cruz e ressurreição, não há esperança.
A dimensão escatológica
Outro conceito que trouxe luz ao meu caminhar pastoral foi a escatologia.
Para Moltmann, ela não é apenas o estudo dos acontecimentos futuros:
“O escatológico não é algo que se adiciona ao cristianismo; é o meio em que a fé cristã se move, aquilo que dá o tom a tudo que há nele, as cores da aurora de um novo dia esperado que tingem tudo que se existe. A fé cristã vive da ressurreição do Cristo crucificado e se estende em direção às promessas do retorno universal e glorioso de Cristo. A escatologia é paixão em dois sentidos: o do sofrimento e o de tendência apaixonada, que têm sua fonte no Messias. Por isso, não pode ser simplesmente parte da doutrina cristã; toda a pregação cristã tem uma orientação escatológica.” (Teologia da Esperança, p. 30)
Portanto, a esperança cristã é dinâmica, interage com o meio em que está e, ao mesmo tempo, é crítica da realidade (MOLTMANN, J. La crítica como deber, p. 21–23).
Esperança e missão da Igreja
A Teologia da Esperança constitui um desafio para a missão da Igreja: proclamar a cruz
e a ressurreição em uma sociedade portadora do vírus da desesperança.
Viver a esperança cristã traduz-se em uma atitude de esvaziamento, conforme o
exemplo de Jesus de Nazaré:
“Antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos seres humanos… tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Filipenses 2.7–8).
Somos chamados a ser profetas e profetisas da esperança.
Confiança no futuro
Dentro dessa perspectiva, recordo a letra de uma canção do Bispo Metodista argentino Federico Pagura, parceiro do Bispo Jorge Mario Bergoglio (posteriormente Papa Francisco), na cidade de Buenos Aires:
CONFIANÇA NO FUTURO
Porque ele entrou no mundo e em nossa história; porque quebrou o silêncio e a agonia; porque mostrou na terra a sua glória; porque foi luz em nossa noite fria; porque nasceu em pobre estrebaria; porque viveu semeando amor e vida; porque partiu os corações mais duros e levantou os tristes e abatidos.
Porque atacou corruptos e mercadores e denunciou maldade e hipocrisia; porque exaltou crianças e mulheres e condenou os orgulhosos; porque levou a cruz de nossas penas e provou o fel de nossos males; porque aceitou sofrer a nossa culpa e morrer por todos os humanos.
Porque uma aurora viu sua vitória sobre as mentiras, sobre a morte e o medo, já nada pode interromper sua história nem a chegada de seu Reino eterno.
Por isso é que hoje temos esperança. Por isso é que lutamos destemidos. Por isso olhamos hoje com confiança para o porvir dos povos oprimidos. Por isso é que hoje temos esperança.
Belo Horizonte, 15 de maio de 2025
Adriel de Souza Maia
Bispo emérito da Igreja Metodista