Pelo chão do Beco do Rato, a água podre vazava as intimidades dos moradores. O esgoto não aguentava mais. Nem ele, nem a vizinhança. De repente, vinha o grito já conhecido, lançado de uma janela para outra, de um barraco para o seguinte, como aviso de incêndio ou anúncio de temporal:
— Entupiu de novo!
Então, lá vão Marias para mais uma procissão doméstica do desentupimento.
Na década de 70, a cidade confortável já dormia ali ao lado. A cooperativa de água e esgoto existia apenas nos papéis carimbados do centro e nas promessas eleitoreiras. Mas quem resolvia o problema eram elas. Sempre elas.
Maria aparecia primeiro, já prendendo o vestido de poliamida entre as pernas ao se agachar. Izaid vinha logo atrás, trazendo os mais eficientes instrumentos para aquela guerra: a enxada, o vergalhão enferrujado, a pá e o saco de lixo que ficavam guardados na laje. Severina chegava com o balde d’água já afugentando os mininú curiosos. Outra Maria gritava da porta:
— Dá descarga aí pra ver se funcionou!
E uma terceira, escondida no fundo da casa, obedecia, acionando a descarga como quem participa de uma engrenagem invisível. A água transbordava. O cheiro subia ardido, misturado à gordura das cozinhas e ao sabão das roupas lavadas.
As mulheres lutavam contra o esgoto como quem enfrenta um inimigo antigo, íntimo e persistente.
Enfiavam o vergalhão. Cutucavam. Giravam. Forçavam o braço.
Claudia, por volta de seus oito anos, acompanhava a peleja da mãe e das vizinhas pela janela.
O esgoto resistia, mas cedia.
E então explodia o grito de vitória ecoando pelo beco:
— Aeeee!
Riam, mas porque era preciso e também o que restava. O riso é o último luxo do pobre antes do desespero.
Mas a vitória terminava quando a intimidade voltava a aparecer.
Dias depois:
— Entupiu de novo!
E tudo recomeçava.
Cláudia cresceu assistindo os perrengues do Beco do Rato. Seus filhos e netos também. Eles aprendiam a identificar desde cedo o cheiro do cano saturado. Já seus novos vizinhos herdavam não uma solução, mas o costume da improvisação. A cidade mudava, os automóveis ficavam mais modernos, surgiam túneis, viadutos, edifícios espelhados. E na favela, enterrado sob a viela do Beco do Rato e suas irmãs, o mesmo encanamento velho sufocado por décadas inteiras.
As gerações antigas foram partindo.
Primeiro Severina.
Depois Izaid.
E as Marias também.
Mas o problema ficou. Sempre fica.
Chega então o ano de 2026.
E o esgoto, agora mais desgastado que nunca, já não aceita remendo.
O Beco do Rato amanhece escavado. Homens da companhia aparecem com máquinas, capacetes e tubos novos. Os mininú cercam a obra como se fosse festa. Os cachorros latem para os rostos novos. Os moradores espiam desconfiados, até que alguém anuncia:
— Vão trocar!
Outro responde:
— Até que enfim!
Uma senhora observa a manilha recém-colocada e murmura quase emocionada:
— Agora vai ficar bom…
Há esperança no Beco do Rato. Pela primeira vez em muitos anos, o esgoto corre sem reclamar. A água desce ligeira. O mau cheiro recua.
Mas basta caminhar algumas vielas para perceber a tragédia maior: a melhoria parou ali.
Ali termina o tubo novo, termina também o interesse da cidade.
O restante da favela continua esperando. Continua convivendo com valas abertas, enchentes, lama, infiltração e doenças que nascem da ausência de água limpa e saneamento digno. Quando chove forte, a encosta ameaça descer. Quando o sol castiga, os bichos aparecem. E o povo segue improvisando sobrevivências onde deveria existir política pública.
A favela pede, há décadas, esgoto, drenagem, água encanada e que um direito deixe de ser tratado como privilégio.
Porque saneamento básico é dignidade; é saúde; é vida; é sobrevida.
E enquanto a cidade elegante discute o futuro, há lugares onde ainda se luta, todos os dias, contra o mesmo esgoto de mais cinquenta anos atrás, bem ali, na favela da Rocinha.
Ana Claúdia Araújo, 37 anos, jornalista, criada na Rocinha, onde viveu por 26 anos.