O ensaio Transposition (Transposição), de C. S. Lewis, que faz parte da coletânea The Weight of Glory (O Peso da Glória), procura responder a uma pergunta intrigante: como realidades espirituais mais elevadas podem ser experimentadas e expressas em um mundo material e limitado?
Como mencionei no texto anterior a esse, Lewis usa exemplos da música e dos sentidos para mostrar que uma realidade superior, ao ser traduzida para um plano inferior, necessariamente se manifesta de forma mais simples. Isso significa que a expressão visível ou material de algo não esgota sua profundidade.
Aplicando essa ideia à vida cristã, Lewis afirma que a ação de Deus frequentemente se manifesta através de meios comuns. A oração pode parecer apenas silêncio; o amor ao próximo, apenas um gesto cotidiano; a atuação do Espírito Santo, apenas um impulso para perdoar ou servir. No entanto, por trás dessas experiências aparentemente simples pode haver uma realidade espiritual muito maior do que conseguimos perceber.
Essa compreensão também nos ajuda a não medir a presença de Deus apenas por emoções intensas ou acontecimentos extraordinários. Uma experiência espiritual genuína pode vir acompanhada de alegria exuberante, mas também pode coexistir com lágrimas, dúvidas ou mesmo com a ausência de sentimentos marcantes. O fato de algo parecer comum ou silencioso não significa que Deus esteja ausente.
Isso me faz lembrar a famosa frase de Blaise Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.
Escrita no contexto dos Pensamentos (Pensées), uma obra em que Pascal refletia sobre a condição humana e defendia a fé cristã diante do racionalismo (não do uso da razão!) crescente de sua época, a frase não é um convite ao sentimentalismo ou ao abandono da inteligência. Pelo contrário, Pascal reconhecia o enorme valor da razão — afinal, era um brilhante matemático e cientista —, mas entendia que existem aspectos da realidade, como o amor, a beleza, a consciência moral e a experiência de Deus, que não podem ser reduzidos a demonstrações lógicas ou fórmulas matemáticas. O “coração”, para Pascal, refere-se a essa capacidade humana de conhecer e perceber verdades que ultrapassam o alcance da razão analítica.
A fé cristã, portanto, não prescinde da razão. Deus ao nos criar nos deu um cérebro que deve ser usado para o discernimento/reflexão e para produzir conhecimento, cultura, ciência, teologia, filosofia, literatura, poesia, coreografia, tecnologia, etc… Somos chamados inclusive a estudar, refletir, conhecer os contextos históricos e literários das Escrituras e usar com gratidão o dom da inteligência.
Tampouco a fé ignora os sentimentos e as emoções, pois não somos pedras nem “temos sangue de barata”, mas seres humanos criados por Deus dotados com afetos, emoções, sensibilidades, desejos, gostos.
Contudo, a fé não se confunde nem com a razão nem com as emoções. A fé é confiança em Deus e no genuíno Evangelho vivido e ensinado por Jesus (chamado no Novo Testamento de Logos/Verbo/Palavra revelada/revelador da Palavra/Palavra Encarnada), pois nele encontramos a revelação plena e perfeita de Deus. Esse Evangelho foi confiado aos discípulos e discípulas para ser vivido e anunciado a cada homem e mulher, em todo tempo e em todo lugar.
Assim, embora não devamos viver alienados, negligenciando os dons da razão e dos sentimentos, nossa confiança última está em Deus e em seu amor, mesmo quando isso implica questionar aquilo que pensamos saber ou aquilo que sentimos. Deus não age contra a razão, mas para além dela! De modo que, em momentos de enfermidade, sofrimento ou luto, nossos pensamentos e emoções podem nos levar a sentir que fomos esquecidos ou abandonados por Deus. Entretanto, se vivemos pela fé, a última palavra não pertence aos sentimentos nem a qualquer teologia ou pregação/teologia que contradiga o que nos foi revelado em Jesus. A última palavra pertence ao próprio Cristo, que nos assegura que o amor de Deus é contínuo, abundante, gratuito e imerecido. É essa promessa, e não nossas oscilações interiores, que sustenta a esperança cristã.
Há uma frase atribuída a Abraham Lincoln que diz: “Creio nas Escrituras (no genuíno Evangelho de Jesus!) até onde minha razão pode acompanhá-las; e, onde ela não pode, aceito-as pela fé.” Ou seja, quando a razão chega ao seu limite, a fé continua.
Anselmo de Cantuária formulou o lema “a fé busca compreensão”. Isto é, a fé não elimina a razão; ela a convida a investigar e compreender.
Agostinho de Hipona, o Santo Agostinho, expressou algo semelhante: “Creio para compreender, e compreendo para crer melhor.”
Entendo que a grande lição do texto Transposição, de C. S. Lewis seja que nem tudo o que é mais profundo e verdadeiro se apresenta de forma espetacular.
As maiores realidades da existência frequentemente se expressam através de meios simples e humildes. Por isso, a vida cristã não consiste em buscar experiências extraordinárias, mas em aprender a reconhecer a presença de Deus nas pequenas coisas e a confiar na sua fidelidade, mesmo quando nossos sentidos e nossa compreensão parecem insuficientes para percebê-la plenamente.
A fé não começa onde a razão termina; ela caminha com a razão e a ultrapassa sem contradizê-la. Aceitamos com gratidão tudo o que a razão pode nos ensinar, estudando, refletindo e buscando compreender as Escrituras em seus contextos históricos e literários. Mas, quando chegamos aos limites da razão, não abandonamos a fé; continuamos confiando em Deus, cuja verdade é maior do que nossa compreensão.
OBS: Ilustração feita pelo site GPT
