Os Salmos: a natureza glorifica e lamenta sem palavras – Uma releitura ecoteológica para o encantamento a partir dos Salmos 8; 19; 96; 148 e 150.

Entre os muitos tesouros da espiritualidade humana, poucos são tão belos quanto a maneira pela qual os Salmos bíblicos se referem e contemplam a natureza. Neles, a criação não aparece apenas como cenário da ação humana ou como conjunto de recursos colocados à disposição da humanidade. Os céus, os mares, as montanhas, as árvores, os animais e até os ventos possuem uma voz própria diante de Deus. Toda a criação participa do louvor ao Criador, toda Criação sofre e lamenta diante da falta de harmonia e das ações humanas predatórias.

Ao relermos os Salmos pela lente da ecoespiritualidade, somos convidados(as) a recuperar algo que talvez tenhamos perdido: a capacidade de nos encantar com o mundo e de reconhecer que não estamos sozinhos na adoração. Existe uma liturgia muito mais antiga do que qualquer templo humano. Antes de existirem igrejas, sinagogas, catedrais, reuniões nos montes e nos espaços dedicados a toda espécie de culto e rituais religiosos, o universo já celebrava o Criador.

O Salmo 8 nasce justamente desse assombro: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o ser humano para que dele te lembres?” (Sl 8.3-4).

O salmista ergue os olhos para o céu noturno e experimenta aquilo que hoje chamaríamos de encantamento cósmico. Diante da imensidão do universo, ele não encontra motivos para arrogância, mas para humildade. A contemplação da natureza não o torna mais importante; ao contrário, recorda-lhe sua pequenez. Talvez este seja um dos primeiros ensinamentos da ecoespiritualidade: somos parte da criação, não seus proprietários. Somos criaturas entre criaturas.

O Salmo 19 amplia essa percepção: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; contudo, por toda a terra se faz ouvir a sua voz” (Sl 19.1-4).

A natureza prega sem palavras. As estrelas não fazem sermões. As árvores não escrevem tratados. Os rios, as ondas do mar, o barulho da água do riacho correndo entre pedras e cachoeiras, o vento, o uirapuru, o sabiá, a seriema, o coaxar dos sapos, o bufar das baleias, o regougar do chacal, o cantar do galo, etc… não escreveram livros. E, ainda assim, anunciam continuamente a grandeza do Criador.

Há uma sabedoria silenciosa inscrita na criação. Quem aprende a escutar o vento entre as folhas, o canto dos pássaros ao amanhecer, o ritmo das ondas ou o murmúrio de um riacho descobre que Deus também fala através dessas linguagens.

O Salmo 96 convida a criação inteira para uma celebração universal: “Alegrem-se os céus e exulte a terra; ruja o mar e a sua plenitude. Folgue o campo e tudo o que nele há; regozijem-se todas as árvores do bosque” (Sl 96.11-12).

A imagem é do texto bíblico é extraordinária: as árvores cantam, os campos festejam, o mar exulta. A criação inteira participa da liturgia cósmica. Não se trata apenas de uma figura poética. O salmista expressa uma profunda convicção teológica: toda criatura existe para glorificar aquele que lhe deu a vida.

Essa mesma visão alcança seu ponto culminante no Salmo 148: “Louvem o nome do Senhor os céus e a terra, os monstros marinhos e todos os abismos, o fogo e a saraiva, a neve e o nevoeiro, os montes e todas as colinas, as árvores frutíferas e todos os cedros, os animais selvagens e os domésticos, os répteis e as aves que voam” (Sl 148.5-10).

Aqui encontramos uma das mais belas imagens de toda a Bíblia. O universo aparece como um imenso coral. O sol canta, a lua canta, as estrelas cantam, as montanhas cantam, as árvores cantam, os animais cantam. Os seres humanos cantam. Cada criatura acrescenta sua voz única à grande sinfonia da vida.

A humanidade não é a maestrina e a solista da criação. Somos apenas uma voz entre muitas vozes. Somos participantes de um coral muito mais antigo do que nós e infinitamente maior do que qualquer civilização.

O Salmo 150 conclui essa grande celebração afirmando: “Todo ser que respira louve ao Senhor!” (Sl 150.6). A palavra hebraica utilizada aqui remete ao sopro da vida, ao fôlego que anima todas as criaturas. Tudo o que respira pertence a essa comunidade universal do louvor. Toda vida é sagrada porque toda vida participa do dom divino da existência.

A ecoespiritualidade encontra nesses textos uma poderosa fonte de inspiração. Contemplar a criação deixa de ser apenas um exercício estético e se torna uma experiência espiritual. Caminhar por uma floresta, observar o voo das aves, contemplar o mar ou admirar um céu estrelado pode transformar-se em oração.

O encantamento nasce quando percebemos que estamos cercados por sinais da presença e da gloria divinas.

Mas os Salmos também nos conduzem a uma pergunta incômoda: se a criação glorifica a Deus, o que acontece quando destruímos a criação? Como canta uma floresta devastada pelo fogo? Como louva um rio transformado em esgoto? Como glorifica o Criador uma espécie levada à extinção?

Essas perguntas tornam-se ainda mais urgente quando lembramos que a própria Bíblia reconhece o sofrimento da natureza. Os profetas denunciam uma terra que chora por causa da injustiça humana (Os 4.1-3; Jr 12.4), e o apóstolo Paulo afirma que “toda a criação geme e suporta angústias até agora” (Rm 8.22).

A criação continua cantando, mas também geme, louva e sofre, celebra e espera. Seu clamor se mistura ao seu cântico. Por isso, preservar a natureza não é apenas uma questão econômica ou ecológica. É também uma questão espiritual. Defender a vida é permitir que o coral da criação continue entoando seu louvor ao Criador.

Essa percepção encontra eco em muitas tradições ancestrais. Diversos povos indígenas das Américas compreendem rios, montanhas, florestas e animais como parentes e companheiros de existência. O vento, as águas e os pássaros são frequentemente percebidos como portadores de sabedoria e memória. Da mesma forma, muitas tradições africanas e afrodescendentes reconhecem a presença do sagrado nas árvores, nas fontes, nos rios, nas matas e nos ciclos da natureza. Embora utilizem linguagens diferentes, essas tradições compartilham com os Salmos a convicção de que a Terra não é um objeto morto, mas uma comunidade viva de relações.

Ao contemplarmos essa convergência de saberes, percebemos que a espiritualidade não começa apenas dentro dos templos. Ela também floresce à sombra das árvores, junto às águas, nos campos, nas montanhas e sob o céu estrelado.

Talvez seja exatamente isso que os Salmos desejam nos ensinar: o universo inteiro é um templo, um santuário do Senhor. A criação inteira, com suas vozes conhecidas e outras inaudíveis, é um coral. Cada criatura possui uma voz única diante de Deus, voz essa dada às criaturas pelo próprio Deus.

Assim, quando protegemos uma nascente, preservamos uma nota dessa grande canção. Quando cuidamos de uma floresta, preservamos um coro inteiro. Quando impedimos a extinção de uma espécie, preservamos uma voz insubstituível na liturgia/culto da vida que adora ao Criador. Quando preservamos o solo, rios, oceanos e florestas, quando preservamos a qualidade do ar, quando cuidamos de um jardim, quando não maltratamos os animais, quando não aprisionamos pássaros estamos glorificando ao Criador cuidando da sua Obra.

Ao relermos os Salmos 8, 19, 96, 148 e 150, descobrimos que a criação não existe apenas para ser utilizada. Ela existe para refletir a presença e a glória de Deus. E talvez o encantamento comece justamente quando aprendemos novamente a ver e escutar. Ver a vida acontecendo ao redor de nós no azul do céu, no escuro da noite, no brilho do sol e das estrelas, no arrebol, nos pássaros que voam, na planta que viceja, na planta que floresce, na árvore que frutifica. E no escutar o canto dos pássaros, o murmúrio das águas, o diálogo do vento com as folhas das copas das árvores, o silêncio das montanhas.

Mas também escutar o gemido da Terra ferida, o silêncio das espécies extintas, os pássaros engaiolados, os rios e mares entupidos de lixo, o céu sufocado de fumaça e CO2, das terras em processo de desertificação.

Pois quem aprende a ouvir essa música descobre que Deus há lamento sim, mas descobre também continua sendo louvado muito além das palavras humanas. E compreende que destruir a natureza é silenciar parte desse louvor, enquanto cuidar dela é unir nossa voz à eterna canção da vida

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