Teologia Verde, de Trees van Montfoort, é uma das obras mais abrangentes e originais da ecoteologia contemporânea. Publicado originalmente em holandês em 2019 (premiado como melhor livro teológico na Holanda) e posteriormente traduzido para o inglês e o espanhol, o livro propõe uma profunda reconsideração da teologia cristã diante da crise ecológica global. A autora sustenta que a ecoteologia não deve ser compreendida como uma disciplina secundária da teologia, mas como uma renovação da própria teologia cristã, recolocando toda a criação — e não apenas Deus e os seres humanos — no centro da reflexão teológica.
Teóloga protestante holandesa, Trees van Montfoort escreve a partir de uma perspectiva ecumênica, dialogando com a tradição reformada, a teologia católica, a ortodoxia oriental, a teologia da libertação, a teologia ecofeminista e as ciências ambientais. Seu objetivo não é simplesmente acrescentar questões ambientais ao discurso cristão, mas reconstruir categorias fundamentais da teologia — criação, cristologia, antropologia, salvação e espiritualidade — à luz da crise ecológica e da sustentabilidade planetária.
Um dos grandes diferenciais da obra é seu caráter internacional. Van Montfoort coloca em diálogo autoras e autores de diferentes continentes e tradições eclesiais, mostrando que a ecoteologia constitui hoje um movimento global. A autora dedica especial atenção às contribuições da teologia ecofeminista, considerando que ela oferece instrumentos importantes para compreender as relações entre patriarcado, colonialismo, exploração econômica e destruição ambiental.
O livro possui cerca de 336 páginas e está organizado em cinco capítulos principais, além da introdução. Cada capítulo desenvolve um aspecto específico da reconstrução ecológica da teologia, conduzindo o leitor desde o diagnóstico da crise civilizatória até propostas concretas para uma espiritualidade, uma liturgia e uma prática cristã comprometidas com o cuidado da Terra.
Resumo geral da obra
A tese central do livro pode ser resumida na seguinte afirmação:
A crise ecológica exige não apenas novas práticas ambientais, mas uma nova forma de pensar Deus, o ser humano, a criação e a missão da Igreja.
Segundo Van Montfoort, a atual crise climática e ecológica não decorre apenas de problemas tecnológicos ou econômicos, mas de uma cosmovisão construída ao longo da modernidade ocidental. Essa visão separou humanidade e natureza, privilegiou o domínio sobre a criação e legitimou modelos de desenvolvimento incompatíveis com os limites do planeta.
A teologia pode contribuir decisivamente para superar essa crise ao oferecer uma visão relacional da realidade, na qual Deus, humanidade e criação permanecem profundamente interligados. A autora propõe abandonar uma compreensão excessivamente antropocêntrica do cristianismo e recuperar uma teologia da criação que reconheça o valor intrínseco de todos os seres vivos.
Ao longo da obra, ela articula quatro grandes perspectivas:
- ecologia;
- ecumenismo;
- ecofeminismo;
- sustentabilidade.
Essa integração conduz a uma compreensão renovada da missão cristã, da espiritualidade, da ética e da esperança escatológica.
Resumo capítulo por capítulo
Introdução
Na introdução, Van Montfoort apresenta o desafio colocado pela crise ecológica contemporânea e explica por que considera insuficientes as respostas tradicionais da teologia. Ela afirma que a ecoteologia não constitui um tema periférico, mas exige uma revisão profunda da maneira como o cristianismo compreende Deus, a criação e o lugar da humanidade no universo.
Capítulo 1 – Teologia e sustentabilidade
Este capítulo estabelece os fundamentos da obra.
A autora inicia descrevendo a gravidade da crise ecológica mundial, destacando:
- mudanças climáticas;
- perda da biodiversidade;
- esgotamento dos recursos naturais;
- desigualdade ambiental.
Entretanto, ela argumenta que esses problemas possuem raízes muito mais profundas do que normalmente se reconhece.
Segundo Van Montfoort, existe uma crise oculta, de natureza cultural e espiritual, produzida por determinadas cosmovisões.
Ela analisa criticamente diversos elementos que moldaram a cultura ocidental:
- antropocentrismo;
- racionalismo moderno;
- tecnocracia;
- economia de mercado;
- colonialismo;
- patriarcado;
- individualismo.
A autora demonstra que essas formas de pensar favoreceram uma compreensão da natureza como objeto de exploração.
Nesse contexto, a tarefa da teologia consiste em oferecer uma cosmovisão alternativa, fundamentada na interdependência da criação e na relação permanente entre Deus e o mundo.
Capítulo 2 – A cosmovisão diferente da Bíblia
Este é o núcleo bíblico da obra.
Van Montfoort procura mostrar que a Bíblia apresenta uma visão da realidade bastante diferente daquela construída pela modernidade.
Ela revisita diversos textos bíblicos sob uma perspectiva ecológica:
- Gênesis 1–2;
- o relato do dilúvio;
- os Salmos;
- Isaías;
- Jó;
- Provérbios;
- Romanos 8;
- os Evangelhos;
- Apocalipse.
A autora destaca especialmente:
- o valor próprio da criação;
- a presença constante dos animais na narrativa bíblica;
- o descanso da terra nas leis do sábado;
- a esperança da nova criação.
Um aspecto particularmente original deste capítulo é sua leitura das relações entre Deus, os animais e toda a comunidade da vida. A aliança com Noé, por exemplo, é interpretada como uma aliança estabelecida não apenas com a humanidade, mas com todos os seres vivos.
Ao final, Van Montfoort conclui que a Bíblia oferece uma cosmovisão profundamente ecológica, baseada na interdependência e na fidelidade de Deus para com toda a criação.
Capítulo 3 – Questões da ecoteologia
Neste capítulo, a autora examina alguns dos principais debates da ecoteologia contemporânea.
Inicialmente analisa criticamente o conceito de mordomia da criação, bastante difundido nas igrejas protestantes.
Embora reconheça sua importância histórica, Van Montfoort considera que a linguagem da administração pode conservar uma relação hierárquica entre humanidade e natureza.
Em seguida, ela examina as diferentes resistências que surgiram tanto no protestantismo quanto no catolicismo em relação à ecoteologia.
A autora dedica atenção especial à encíclica Laudato si’, reconhecendo seu papel decisivo na renovação da teologia cristã sobre a criação.
Na parte final do capítulo, apresenta algumas questões fundamentais:
- O que significa “natureza”?
- O que significa “criação”?
- A humanidade ocupa posição central ou relacional?
- Deus está separado do mundo ou presente nele?
- Como compreender a salvação da criação?
Essas perguntas organizam grande parte do debate ecoteológico contemporâneo.
Capítulo 4 – Perspectivas da teologia ecofeminista ao redor do mundo
Este talvez seja o capítulo mais original do livro.
Van Montfoort apresenta quatro importantes teólogas que contribuíram para a renovação ecológica da teologia:
- Sallie McFague;
- Ivone Gebara;
- Catherine Keller;
- Elizabeth Theokritoff.
Cada uma delas oferece uma perspectiva distinta.
McFague interpreta o mundo como corpo de Deus.
Gebara desenvolve uma ecoteologia da libertação centrada na experiência cotidiana das mulheres pobres latino-americanas.
Keller utiliza categorias da filosofia pós-moderna para compreender criação, caos e criatividade.
Theokritoff recupera a espiritualidade cósmica da tradição ortodoxa.
Ao colocar essas autoras em diálogo, Van Montfoort demonstra que o ecofeminismo não constitui apenas uma crítica ao patriarcado, mas oferece novas maneiras de compreender Deus, a criação e a comunidade da vida.
Capítulo 5 – A colheita
O último capítulo sintetiza todo o percurso da obra.
Van Montfoort apresenta uma cristologia ecológica.
Cristo é compreendido como expressão da Sabedoria divina presente na criação e reconciliador de toda a realidade.
Também desenvolve uma antropologia renovada.
O ser humano deixa de ser visto como dominador da natureza para tornar-se discípulo que participa da comunidade da criação.
Na parte final, a autora propõe consequências práticas para a vida das igrejas:
- celebrações litúrgicas ligadas aos ciclos da natureza;
- valorização dos frutos da terra;
- oração ecológica;
- educação ambiental;
- espiritualidade comunitária;
- compromisso com a sustentabilidade.
A obra encerra afirmando que a teologia somente cumprirá plenamente sua missão quando contribuir para restaurar as relações entre Deus, humanidade e toda a criação.
Principais contribuições da obra
Entre as maiores contribuições de Teologia Verde destacam-se:
- propõe uma reconstrução ecológica da teologia cristã como um todo, e não apenas da doutrina da criação;
- integra perspectivas protestantes, católicas, ortodoxas e ecofeministas em uma abordagem verdadeiramente ecumênica;
- demonstra que a crise ecológica exige uma revisão das cosmovisões que sustentam o antropocentrismo moderno;
- oferece uma leitura ecológica abrangente da Bíblia, valorizando a criação como comunidade de vida;
- dialoga com importantes teólogas contemporâneas de diferentes contextos culturais;
- desenvolve uma cristologia, uma antropologia e uma espiritualidade comprometidas com a sustentabilidade;
- aproxima reflexão acadêmica, prática eclesial e compromisso ecológico.
Avaliação
Teologia Verde é uma das obras mais completas da ecoteologia contemporânea. Seu maior mérito consiste em demonstrar que a ecologia não representa apenas um novo tema para a teologia, mas um novo horizonte interpretativo para toda a fé cristã. Ao articular exegese bíblica, história da teologia, ecumenismo, ecofeminismo e ética ambiental, Trees van Montfoort oferece uma síntese madura e inovadora, capaz de dialogar com diferentes tradições cristãs e responder aos desafios da crise ecológica do século XXI. A obra destaca-se também por integrar perspectivas do Norte e do Sul globais, mostrando que o cuidado da criação exige uma teologia simultaneamente ecológica, ecumênica, social e profundamente comprometida com a justiça para toda a comunidade da vida.
