Spiritualità verde: Un approccio filosofico all’ecoteologia (Espiritualidade Verde: Uma abordagem filosófica da ecoteologia) de Luca Montanari, com organização de Giovanni Coviello e ilustrações de Giulia Matteazzi e Roberto Meneguzzo, é uma das mais recentes contribuições europeias ao diálogo entre filosofia, teologia e ecologia. Publicada pela Editoriale Elas em 2026, a obra propõe uma reflexão sistemática sobre os fundamentos filosóficos da ecoteologia, procurando responder aos desafios colocados pela crise ecológica contemporânea. Em vez de limitar-se a discutir questões ambientais sob uma perspectiva ética ou pastoral, Montanari investiga as bases epistemológicas, ontológicas e espirituais da relação entre Deus, ser humano e natureza.
O livro parte do diagnóstico de que a humanidade vive uma crise ambiental sem precedentes, cuja origem não é apenas econômica ou tecnológica, mas também filosófica e espiritual. A degradação dos ecossistemas, as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade revelam uma compreensão fragmentada da realidade, que separou humanidade e natureza, razão e espiritualidade, ciência e religião. Nesse contexto, a ecoteologia aparece como uma possibilidade de reconstrução do pensamento cristão, articulando reflexão filosófica, tradição teológica e compromisso ecológico.
Ao longo da obra, Montanari propõe que a ecoteologia seja compreendida não apenas como um novo ramo da teologia, mas como um horizonte interpretativo capaz de renovar a maneira como se pensa Deus, a criação e a própria condição humana no Antropoceno. O autor procura demonstrar que a espiritualidade ecológica nasce da redescoberta da Terra como realidade sagrada e da responsabilidade ética do ser humano diante da comunidade da vida.
Outro aspecto relevante da obra é seu diálogo interdisciplinar. O autor aproxima filosofia contemporânea, fenomenologia, hermenêutica, cosmologia, ética ambiental e tradição cristã, oferecendo uma leitura da ecoteologia que ultrapassa os limites confessionais e dialoga com diferentes áreas do conhecimento. O livro insere-se, assim, entre as obras que procuram construir uma espiritualidade capaz de responder aos desafios do Antropoceno sem abandonar o rigor filosófico.
Resumo geral da obra
A tese central do livro pode ser sintetizada na seguinte afirmação:
A crise ecológica exige uma nova compreensão filosófica e espiritual da relação entre Deus, humanidade e Terra.
Segundo Montanari, a crise ambiental revela uma crise mais profunda da própria visão de mundo moderna. A separação entre natureza e cultura, transcendência e imanência, razão e espiritualidade contribuiu para legitimar formas de exploração incompatíveis com a dignidade da criação.
A ecoteologia é apresentada como uma resposta a essa fragmentação. Ela procura integrar:
- filosofia;
- teologia;
- espiritualidade;
- ética ambiental;
- cosmologia;
- justiça social.
O livro entende que a fé cristã oferece recursos importantes para reconstruir uma visão relacional da realidade, na qual a Terra deixa de ser mero objeto de exploração e passa a ser reconhecida como espaço da presença divina e da responsabilidade humana.
Estrutura da obra
Segundo a apresentação editorial, o livro organiza-se em duas grandes partes.
Primeira parte – Os fundamentos filosóficos da ecoteologia
A primeira parte desenvolve os pressupostos teóricos da ecoteologia.
Montanari investiga questões fundamentais como:
- qual é o estatuto epistemológico da ecoteologia;
- como compreender a relação entre revelação e natureza;
- de que maneira transcendência e imanência podem ser articuladas;
- qual o lugar da ética diante da crise ecológica;
- como pensar Deus na época do Antropoceno.
Essa seção constitui o núcleo filosófico do livro, mostrando que a crise ambiental exige uma revisão profunda das categorias tradicionais da filosofia e da teologia.
Segunda parte – Grandes pensadores da ecoteologia
Na segunda parte, Montanari apresenta uma leitura crítica de alguns dos principais representantes da ecoteologia contemporânea.
Entre os autores estudados destacam-se:
- Thomas Berry;
- Pierre Teilhard de Chardin;
- Sallie McFague;
- Anne Primavesi;
- Matthew Fox.
Cada um desses autores representa uma maneira distinta de compreender a relação entre espiritualidade, criação, justiça social e responsabilidade ecológica.
Ao colocá-los em diálogo, Montanari procura demonstrar que a ecoteologia contemporânea constitui um campo plural, interdisciplinar e internacional, unido pela convicção de que o cuidado da Terra faz parte da vocação espiritual da humanidade.
Principais contribuições da obra
Entre as contribuições mais relevantes do livro destacam-se:
- propõe uma fundamentação filosófica da ecoteologia;
- integra filosofia, teologia e espiritualidade ecológica;
- interpreta a crise ambiental como crise antropológica e espiritual;
- dialoga com alguns dos principais ecoteólogos contemporâneos;
- amplia o conceito de espiritualidade para incluir a relação com toda a criação;
- propõe uma ética fundada na responsabilidade, na interdependência e na sacralidade da Terra;
- apresenta a ecoteologia como horizonte de renovação do pensamento cristão diante do Antropoceno.
Avaliação
Espiritualidade Verde apresenta-se como uma contribuição inovadora para a ecoteologia europeia contemporânea ao combinar rigor filosófico, sensibilidade espiritual e preocupação ecológica. Diferentemente de obras voltadas predominantemente para a exegese bíblica ou para a pastoral ambiental, Montanari concentra-se nos fundamentos conceituais da ecoteologia, perguntando como a filosofia e a teologia podem reinterpretar a condição humana em uma época marcada pela crise climática e pela degradação dos ecossistemas. Seu diálogo com pensadores como Thomas Berry, Teilhard de Chardin, Sallie McFague, Anne Primavesi e Matthew Fox amplia o horizonte da reflexão e oferece uma visão plural da espiritualidade ecológica. Embora seja uma obra de caráter mais filosófico do que pastoral, ela representa uma importante contribuição para o desenvolvimento da ecoteologia contemporânea e para a construção de uma ética do cuidado fundamentada na interdependência entre Deus, humanidade e toda a criação.
O livro reúne quatro colaboradores, mas eles desempenham funções diferentes. O autor intelectual da obra é Luca Montanari. Giovanni Coviello atua como organizador/editor científico (curatore) da edição, enquanto Giulia Matteazzi e Roberto Meneguzzo são responsáveis pelas ilustrações.
Luca Montanari (autor)
Luca Montanari é um filósofo italiano cuja produção acadêmica se concentra na interface entre filosofia da religião, hermenêutica, ética, fenomenologia e ecoteologia. Sua formação e pesquisa estão ligadas à Università per Stranieri di Perugia (Academia.edu), onde desenvolveu estudos de doutorado na área de Ciências Humanas.
Sua trajetória intelectual revela uma evolução bastante coerente:
- Inicialmente dedicou-se ao pensamento de Emmanuel Lévinas, especialmente às relações entre ética, alteridade e interpretação das Escrituras.
- Posteriormente ampliou suas pesquisas para a hermenêutica bíblica e o diálogo entre judaísmo, cristianismo e islamismo.
- Nos últimos anos passou a investigar a ecoteologia, relacionando filosofia, espiritualidade, ética ambiental e crise ecológica.
Essa evolução aparece claramente em seus livros:
- La decrescita come liberazione (2018), sobre decrescimento, antropologia e democracia;
- Sulla soglia tra due sapienze. Ebraismo e filosofia in Emmanuel Lévinas (2021), sobre filosofia judaica;
- La via etica del senso. Ermeneutiche del testo sacro nel pensiero contemporaneo (2023), dedicado à interpretação filosófica das Escrituras;
- Spiritualità verde. Un approccio filosofico all’ecoteologia (2026), no qual essas linhas de pesquisa convergem para uma reflexão ecoteológica.
Entre seus trabalhos acadêmicos recentes destaca-se ainda o artigo “Nuovi cieli e nuova terra. Prospettive cristiane sull’ecoteologia della salvezza” (2023), no qual dialoga com pensadoras como Sallie McFague e Elizabeth Johnson para discutir uma compreensão ecológica da salvação. Também apresentou pesquisas sobre Thomas Berry, Pierre Teilhard de Chardin e Matthew Fox, autores que aparecem posteriormente em Spiritualità verde.
Características de seu pensamento
Pelas obras já publicadas, é possível identificar alguns eixos permanentes:
- diálogo entre filosofia contemporânea e teologia;
- influência da fenomenologia e da hermenêutica;
- interesse pela ética da alteridade de Emmanuel Lévinas;
- crítica ao antropocentrismo moderno;
- valorização da criação como realidade relacional;
- aproximação entre espiritualidade, justiça social e ecologia;
- interesse por modelos de desenvolvimento sustentáveis, como a teoria do decrescimento.
Diferentemente de muitos ecoteólogos, Montanari parte menos da exegese bíblica e mais da filosofia contemporânea para construir sua reflexão.
Embora ainda seja um autor pouco conhecido fora da Itália, Luca Montanari representa uma nova geração de pesquisadores que procuram construir uma ecoteologia de base filosófica. Enquanto muitos autores clássicos da área — como Leonardo Boff, Thomas Berry, Sallie McFague, Sandra L. Richter ou Afonso Murad — desenvolvem a ecoteologia principalmente a partir da teologia sistemática, da Bíblia ou da pastoral, Montanari procura fundamentá-la na filosofia contemporânea, especialmente na hermenêutica, na fenomenologia e na ética da alteridade.
Essa abordagem faz de Spiritualità verde uma obra particularmente relevante para pesquisadores interessados em investigar os fundamentos epistemológicos da ecoteologia e sua interlocução com o pensamento filosófico contemporâneo. Trata-se menos de um manual pastoral e mais de uma tentativa de responder, filosoficamente, à pergunta: como pensar Deus, o ser humano e a criação na época da crise ecológica global?
Os cinco autores mencionados na segunda parte do livro constituem algumas das principais referências da ecoteologia contemporânea, embora pertençam a tradições cristãs, contextos culturais e correntes teológicas bastante distintas. Em comum, todos procuram responder à crise ecológica a partir da fé cristã, mas cada um enfatiza aspectos específicos da relação entre Deus, criação e humanidade.
1. Thomas Berry (1914–2009)
Quem foi
Thomas Berry foi um sacerdote passionista, ou seja, um religioso pertencente à Congregação da Paixão de Jesus Cristo (Congregatio Passionis Jesu Christi – C.P.), uma ordem religiosa da Igreja Católica, e foi também historiador das religiões e filósofo cultural norte-americano. É considerado um dos fundadores da ecoteologia contemporânea e uma das maiores influências do movimento da espiritualidade ecológica.
Sua formação foi bastante interdisciplinar, envolvendo:
- História;
- Religiões comparadas;
- Cosmologia;
- Filosofia;
- Espiritualidade cristã.
Berry acreditava que a maior crise do nosso tempo não era econômica nem política, mas uma crise da forma como os seres humanos compreendem sua relação com o universo.
Ideias principais
Sua principal contribuição consiste em afirmar que estamos entrando numa nova época da humanidade, denominada por ele de Era Ecozoica.
Segundo Berry:
- a humanidade precisa abandonar a visão da Terra como objeto;
- o universo constitui uma comunidade de sujeitos, não uma coleção de objetos;
- toda criatura possui valor próprio;
- a espiritualidade deve nascer da contemplação do universo.
Ele afirmava:
“O universo é uma comunhão de sujeitos, não uma coleção de objetos.”
Obras mais importantes
- The Dream of the Earth (1988)
- The Universe Story (com Brian Swimme)
- The Great Work (1999)
Influência
Inspirou:
- ecoteologia;
- educação ambiental;
- espiritualidade ecológica;
- ecologia integral;
- movimentos ligados ao cuidado da Terra.
2. Pierre Teilhard de Chardin (1881–1955)
Quem foi
Jesuíta francês, cientista e paleontólogo.
Participou de importantes escavações arqueológicas e foi um dos pesquisadores ligados à descoberta do Homem de Pequim.
Seu grande esforço foi reconciliar:
- evolução biológica;
- ciência;
- cristianismo.
Na época, muitas de suas obras sofreram restrições e somente ganharam ampla divulgação após sua morte.
Ideias principais
Teilhard entende o universo como um processo contínuo de evolução.
A criação não terminou em Gênesis.
Ela continua acontecendo.
Cristo está presente conduzindo toda a evolução em direção ao chamado:
Ponto Ômega.
Nesse ponto final da história:
- toda criação será unificada em Cristo;
- matéria e espírito serão plenamente reconciliados;
- Deus realizará a plenitude do universo.
Sua cristologia é profundamente cósmica.
Cristo não salva apenas seres humanos.
Cristo conduz toda a criação.
Obras principais
- O Fenômeno Humano
- O Meio Divino
- O Futuro do Homem
Influência
Sua visão influenciou:
- ecoteologia;
- cosmologia cristã;
- espiritualidade ecológica;
- o pensamento de Thomas Berry.
3. Sallie McFague (1933–2019)
Quem foi
Teóloga metodista canadense radicada nos Estados Unidos.
Professora da Vanderbilt Divinity School.
É considerada uma das maiores representantes da ecoteologia e da teologia feminista.
Ideias principais
Sua proposta mais conhecida é pensar:
o mundo como corpo de Deus.
Essa expressão não significa que Deus seja idêntico ao universo (panteísmo).
Ela procura afirmar que:
- Deus está intimamente presente na criação;
- toda criatura participa da vida divina;
- destruir a natureza equivale a ferir aquilo que manifesta Deus.
McFague critica:
- consumismo;
- capitalismo predatório;
- individualismo.
Propõe uma espiritualidade baseada em:
- simplicidade;
- justiça;
- cuidado;
- solidariedade.
Obras principais
- Models of God
- The Body of God
- Life Abundant
Influência
É uma das principais referências da:
- ecoteologia;
- ecofeminismo;
- teologia ecológica protestante.
4. Anne Primavesi (1932–2020)
Quem foi
Anne Primavesi (1932–2020) nasceu na Irlanda e desenvolveu grande parte de sua carreira na Inglaterra. Foi uma das pioneiras da ecoteologia na Europa, destacando-se por integrar teologia, filosofia e ciências ambientais em uma reflexão inovadora sobre a relação entre fé cristã e cuidado da criação. Sua principal contribuição para a questão ambiental foi superar a visão antropocêntrica tradicional, defendendo que o ser humano não ocupa uma posição de domínio absoluto sobre a natureza, mas integra uma única comunidade de vida, formada por todos os seres vivos e pelos ecossistemas. Inspirada pela hipótese Gaia e por uma leitura ecológica das Escrituras, Primavesi argumentou que a criação possui valor intrínseco diante de Deus e que a ética cristã deve incluir a responsabilidade pelo equilíbrio ecológico da Terra.
Em obras como Sacred Gaia e From Apocalypse to Genesis, ela mostrou que a crise ambiental é também uma crise espiritual e teológica, propondo uma compreensão da criação marcada pela interdependência, pela reciprocidade e pelo cuidado. Sua reflexão exerceu grande influência sobre a ecoteologia contemporânea ao demonstrar que a justiça ambiental e a fidelidade ao projeto criador de Deus são dimensões inseparáveis da missão cristã.
Foi uma das pioneiras da ecoteologia europeia.
Sua formação combina:
- filosofia;
- teologia;
- ciências ambientais.
Ideias principais
Primavesi critica profundamente a ideia de que o ser humano ocupa posição central na criação.
Ela prefere compreender:
- humanidade;
- animais;
- plantas;
- ecossistemas
como participantes de uma única comunidade de vida.
Sua leitura da Bíblia procura recuperar:
- a bondade da criação;
- a interdependência dos seres vivos;
- a responsabilidade ética diante da Terra.
Ela insiste que:
toda ética cristã precisa considerar também os ecossistemas.
Obras principais
- From Apocalypse to Genesis
- Sacred Gaia
- Gaia and Climate Change
Influência
Foi uma das primeiras teólogas a integrar:
- Hipótese Gaia;
- ética ambiental;
- teologia da criação.
5. Matthew Fox (1940– )
Quem é
Matthew Fox é um ex-frade dominicano norte-americano.
Durante muitos anos pertenceu à Ordem Dominicana, mas posteriormente foi desligado após conflitos com autoridades do Vaticano.
Hoje pertence à Igreja Episcopal.
É um dos autores mais conhecidos da chamada:
Espiritualidade da Criação (Creation Spirituality).
Ideias principais
Fox critica aquilo que chama de:
espiritualidade do pecado original.
Segundo ele, durante muitos séculos o cristianismo concentrou-se excessivamente:
- na culpa;
- no pecado;
- na condenação.
Ele propõe recuperar uma espiritualidade centrada:
- na beleza da criação;
- na criatividade;
- na alegria;
- na presença divina no universo.
Para Fox:
a criação é a primeira revelação de Deus.
Cristo é a expressão dessa criação em plenitude.
A espiritualidade deve nascer:
- da contemplação;
- da arte;
- da dança;
- da criatividade;
- do cuidado da Terra.
Obras principais
- Original Blessing (“Bênção Original”)
- Creation Spirituality
- The Coming of the Cosmic Christ
Influência
Sua obra influenciou:
- espiritualidade ecológica;
- ecofeminismo;
- movimentos contemplativos;
- educação ambiental cristã.
