Geni Núñez é uma escritora, psicóloga, pesquisadora e ativista indígena do povo Guarani, reconhecida por sua atuação nas áreas de psicologia, pensamento decolonial, direitos indígenas e estudos sobre afetos e relações sociais. Ela pertence ao povo Guarani e utiliza o nome indígena Djatchy (também grafado Djatxî em algumas publicações e registros), que significa “estrela” na língua guarani. Atualmente, desenvolve pesquisa de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), dedicando-se ao diálogo entre saberes indígenas e conhecimentos acadêmicos. Sua formação inclui graduação em Psicologia, mestrado em Psicologia Social e doutorado em Ciências Humanas, todos pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Também integra a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) e a Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia (CFP).
A cosmologia guarani compreende o universo como uma realidade sagrada, viva e interligada, na qual seres humanos, animais, plantas, rios, montanhas e espíritos compartilham uma mesma origem e estão unidos por relações de reciprocidade. Não há uma separação rígida entre o mundo natural e o espiritual; toda a criação possui valor próprio e participa de uma ordem estabelecida pelas divindades. Viver bem (teko porã) significa manter o equilíbrio entre as pessoas, a comunidade, a natureza e o mundo espiritual, respeitando os ensinamentos dos ancestrais.
O pensamento de Geni Núñez parte de uma constatação provocadora: talvez a maior obra da colonização não tenha sido apenas a ocupação de territórios ou a destruição de florestas, mas a colonização do próprio imaginário. Aprendemos a enxergar o mundo por meio de categorias que passaram a parecer naturais — humano e animal, civilizado e selvagem, progresso e atraso, nós e eles — sem perceber que essas divisões foram construídas historicamente para justificar relações de dominação.
Para Geni, a ideia moderna de “humano” nunca foi uma simples descrição biológica. Ao estudar as cartas jesuíticas e a história da colonização, ela conclui que “humano” tornou-se uma categoria política e moral. Era considerado humano aquele que se enquadrava no modelo europeu, cristão, branco e civilizado. Quem vivia de outra maneira era frequentemente descrito como selvagem, bárbaro, animal ou primitivo. Assim, o conceito de humanidade passou a funcionar como um mecanismo de exclusão. Dialogando com Ailton Krenak, ela afirma que existe uma espécie de “clube VIP da humanidade”, ao qual apenas alguns têm acesso, enquanto muitos povos foram colocados à margem daquilo que se convencionou chamar de civilização.
Essa crítica também aparece quando Geni recupera a reflexão de Frantz Fanon sobre o “vocabulário zoológico” do colonialismo. Durante séculos, povos indígenas, africanos e outros grupos considerados inferiores foram comparados a animais como forma de justificar sua submissão. Ao mesmo tempo, permanece em nossa linguagem cotidiana a ideia de que alguém cruel “agiu como um animal”, como se a violência fosse própria dos bichos e não dos seres humanos. Geni inverte essa lógica com ironia e profundidade: enquanto guerras, genocídios e destruição ambiental são produzidos por seres humanos, continuamos atribuindo aos animais aquilo que é resultado de nossas próprias escolhas.
Essa inversão aparece de maneira marcante em seu poema: “Por um mundo mais humano, dizem”. Diante da devastação das florestas, da violência e das guerras, ela pergunta por que continuamos tratando “humanidade” como sinônimo de bondade. Em seguida, ressignifica a palavra “selvagem”. Aquilo que historicamente foi utilizado para ofender povos originários transforma-se em motivo de orgulho. Ser “selvagem”, em sua proposta, significa reconhecer a diversidade da vida, abandonar a pretensão de superioridade humana e reaprender a viver como parte da Terra.
Essa mudança de perspectiva nasce da cosmologia guarani. Na língua guarani, observa Geni, não existe uma palavra equivalente ao conceito moderno de “humano”. Existem palavras para pessoa, gente e parentesco, mas a identidade não é construída pela separação em relação aos demais seres. O ser humano faz parte de uma ampla rede de relações que inclui rios, árvores, animais, espíritos, ancestrais e toda a comunidade da vida. A natureza deixa de ser um objeto de exploração para tornar-se uma comunidade de existência compartilhada.
É nesse contexto que surge um de seus conceitos mais conhecidos: o reflorestamento do imaginário. Se a colonização desmatou não apenas as florestas, mas também nossas formas de sentir, pensar e sonhar, torna-se necessário reflorestar a imaginação humana. Isso significa recuperar outras narrativas, outras memórias e outras formas de compreender o amor, a comunidade, a espiritualidade, a democracia, o desenvolvimento e o próprio progresso. Não se trata de negar toda a tradição ocidental, mas de reconhecer que ela não é a única maneira possível de habitar o mundo.
Em outra imagem muito expressiva, Geni afirma que existe um “cimento” que cobre não apenas as cidades, mas também o pensamento, os afetos e a maneira como nos relacionamos. Esse cimento representa a rigidez das estruturas coloniais que uniformizam os desejos e reduzem nossa capacidade de imaginar outros modos de vida. Por isso ela afirma: “Antes emocionada que anestesiada vivo”. A anestesia é a perda da capacidade de sentir, de se indignar e de se deixar transformar. A poesia, a arte e a filosofia aparecem como rachaduras nesse concreto, permitindo que novas formas de existência possam florescer.
Dessa maneira, sua reflexão conduz a uma ecoespiritualidade profundamente relacional. A Terra deixa de ser um recurso econômico e passa a ser compreendida como uma casa comum habitada por múltiplos sujeitos. A floresta não existe para servir aos seres humanos; os seres humanos pertencem à floresta e dependem dela. Cuidar do planeta não é apenas uma questão ambiental, mas também espiritual, ética e política.
No fundo, a provocação de Geni Núñez é simples e radical. Talvez a humanidade não precise tornar-se “mais humana” segundo o ideal de civilização que produziu colonialismo, racismo, guerras e destruição ambiental. Talvez precise tornar-se menos arrogante, menos centrada em si mesma e mais capaz de reconhecer que compartilha a existência com inúmeros outros seres. Reflorestar o imaginário significa exatamente isso: abandonar a ilusão de que somos os donos da Terra para redescobrir que somos apenas uma de suas muitas formas de vida. Somente quando reaprendermos a conviver com a diversidade — humana e não humana — será possível sonhar e construir outros mundos possíveis.
