Ecoespiritualidade: um diálogo entre o pensamento de Geni Núñez e a tradição bíblica

Geni Núñez é uma escritora, psicóloga, pesquisadora e ativista indígena do povo Guarani, reconhecida por sua atuação nas áreas de psicologia, pensamento decolonial, direitos indígenas e estudos sobre afetos e relações sociais. Ela pertence ao povo Guarani e utiliza o nome indígena Djatchy (também grafado Djatxî em algumas publicações e registros), que significa “estrela” na língua guarani. Atualmente, desenvolve pesquisa de pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), dedicando-se ao diálogo entre saberes indígenas e conhecimentos acadêmicos.

A cosmologia guarani compreende o universo como uma realidade sagrada, viva e interligada, na qual seres humanos, animais, plantas, rios, montanhas e espíritos compartilham uma mesma origem e estão unidos por relações de reciprocidade. Não há uma separação rígida entre o mundo natural e o espiritual; toda a criação possui valor próprio e participa de uma ordem estabelecida pelas divindades. Viver bem (teko porã) significa manter o equilíbrio entre as pessoas, a comunidade, a natureza e o mundo espiritual, respeitando os ensinamentos dos ancestrais.

Segundo a tradição guarani, a origem do mundo está associada principalmente a Nhanderu Tenonde (ou Ñanderu Tenondé, “Nosso Primeiro Pai”), a divindade primordial que existia antes de todas as coisas. A partir de seu pensamento, de sua palavra e de seu sopro criador, ele deu origem aos demais seres divinos, ao céu, à terra, às águas, às florestas, aos animais e aos seres humanos. Em muitas narrativas, a criação acontece por meio da força da palavra sagrada (ayvu), que não apenas comunica, mas também cria a realidade. Por isso, a linguagem, o canto e a oração ocupam lugar central na espiritualidade guarani.

Outro elemento importante dessa cosmologia é a busca pela Yvy Marã e’ỹ, a Yvy Marã e’ỹ (“Terra sem Mal”). Ela não é apenas um lugar geográfico, mas um ideal espiritual e comunitário onde prevalecem a harmonia, a justiça, a abundância e a ausência de sofrimento. Historicamente, muitos grupos guarani empreenderam migrações inspiradas por essa esperança, compreendendo a caminhada como parte de sua relação com o Criador e da busca permanente por uma vida plena.

Nessa visão, os seres humanos não recebem o domínio absoluto sobre a natureza, mas a responsabilidade de cuidar dela. A floresta, os rios, os animais e todos os seres possuem dimensão espiritual e devem ser tratados com respeito. Assim, a cosmologia guarani apresenta uma compreensão profundamente relacional da criação, na qual a vida humana só floresce quando permanece em equilíbrio com toda a comunidade da vida, oferecendo uma contribuição importante para os atuais debates sobre ética ambiental, ecoespiritualidade e sustentabilidade.O pensamento de Geni Núñez provoca uma pergunta que também atravessa a tradição bíblica: o que significa, afinal, ser humano? A resposta parece simples, mas tanto a experiência dos povos originários quanto a narrativa das Escrituras mostram que a humanidade pode esquecer sua verdadeira vocação e transformar-se em instrumento de violência contra Deus, contra o próximo e contra a própria criação.

Geni afirma que a colonização inventou uma ideia de humanidade baseada na exclusão. O “humano” passou a ser identificado com o europeu, o cristão, o civilizado e o proprietário. Quem não se enquadrava nesse padrão era chamado de bárbaro, selvagem ou animal. Essa linguagem serviu para justificar conquistas, escravidão, genocídios e destruição de culturas inteiras. Ao recuperar a memória dos povos indígenas, ela procura desmontar essa lógica, mostrando que a palavra “humano” deixou de ser uma simples descrição da espécie para tornar-se um instrumento político de poder.

Curiosamente, o Antigo Testamento apresenta uma crítica semelhante a toda tentativa de absolutizar o poder humano. Em Gênesis, o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus, mas essa imagem não lhe confere autorização para explorar a criação de forma ilimitada. O primeiro mandato recebido por Adão é “cultivar e guardar o jardim” (Gênesis 2.15). A vocação humana é de cuidado, não de devastação. O jardim pertence a Deus; o ser humano é apenas seu administrador.

Ao longo da história de Israel, os profetas denunciaram repetidamente a arrogância dos impérios, dos reis e das elites religiosas. Para eles, a verdadeira humanidade não se media pelo poder militar nem pela riqueza, mas pela justiça, pela misericórdia e pela fidelidade à aliança com Deus. Os salmos celebram rios, montanhas, árvores e animais como participantes do louvor ao Criador, revelando uma espiritualidade em que toda a criação possui dignidade diante de Deus.

Essa visão aproxima-se da crítica de Geni à separação radical entre humanidade e natureza. Embora a Bíblia mantenha uma distinção entre o ser humano e os demais seres vivos, ela nunca apresenta a criação como um simples objeto de exploração. A terra descansa no ano sabático; os animais também participam do descanso do sábado; até os campos possuem direito ao repouso. A criação inteira pertence ao Senhor.

Ao questionar a ideia moderna de civilização, Geni também nos ajuda a reler a história bíblica. A narrativa de Babel mostra uma humanidade fascinada pelo próprio progresso, desejando construir uma cidade e uma torre que alcançassem o céu. O problema não é a técnica em si, mas a pretensão humana de ocupar o lugar de Deus. Da mesma forma, os grandes impérios denunciados pelos profetas — Egito, Assíria, Babilônia e Roma — representam sistemas que concentram poder, transformam pessoas em instrumentos e submetem a criação aos interesses da dominação.

No Novo Testamento, Jesus aprofunda essa crítica. Seu Reino nasce entre pobres, doentes, mulheres, estrangeiros, crianças e pecadores — justamente aqueles que os sistemas religiosos e políticos consideravam menos importantes. Enquanto o Império Romano definia quem tinha valor, Jesus reconhecia dignidade em todos. Ele rompe constantemente as fronteiras entre “nós” e “eles”, entre puros e impuros, entre centro e periferia.

Sua relação com a natureza também é significativa. Jesus ensina observando os lírios do campo, as aves do céu, a semente lançada na terra, a videira, os rebanhos, o vento e a chuva. A criação não aparece apenas como cenário das parábolas, mas como testemunha da sabedoria de Deus. O mundo natural torna-se linguagem da revelação.

O apóstolo Paulo amplia ainda mais essa visão ao afirmar que “toda a criação geme” aguardando a redenção (Romanos 8.19-23). A salvação não diz respeito apenas à alma humana; ela alcança toda a criação, ferida pelo pecado. O pecado, portanto, não rompe somente a comunhão entre Deus e os seres humanos, mas também a harmonia entre a humanidade e a Terra.

Nesse ponto, o diálogo com Geni Núñez torna-se particularmente fecundo. Seu conceito de reflorestamento do imaginário pode ser compreendido, em linguagem cristã, como um chamado à conversão da imaginação. Durante séculos, muitos cristãos absorveram visões de mundo marcadas pelo colonialismo, confundindo evangelização com europeização, missão com dominação cultural e progresso com destruição ambiental. Reflorestar o imaginário significa permitir que outras vozes revelem aspectos da criação que nossa tradição, muitas vezes, deixou de perceber.

Ao mesmo tempo, a fé cristã mantém um elemento próprio. Para Geni, a superação da lógica colonial passa pelo reencontro com cosmologias indígenas e por outras formas de relação com a Terra. Para o cristianismo, a reconciliação última de toda a criação acontece em Cristo. Ele é apresentado como aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas e por quem todas as coisas serão reconciliadas com Deus (Colossenses 1.15-20). Assim, cuidar da criação não é apenas uma responsabilidade ecológica; é participar da obra reconciliadora de Cristo.

A própria história da Igreja revela tensões profundas nesse tema. Houve momentos em que comunidades cristãs viveram grande simplicidade e respeito pela criação, como se vê em figuras como São Francisco de Assis. Mas também houve períodos em que a expansão do cristianismo caminhou junto com projetos coloniais, legitimando a conquista de territórios e a inferiorização de povos indígenas e africanos. Essa ambiguidade exige arrependimento, revisão histórica e renovação teológica.

Hoje, diante da crise climática, da devastação ambiental e do sofrimento de tantos povos, o diálogo entre a tradição cristã e os saberes indígenas torna-se uma oportunidade de conversão. Os povos originários recordam à Igreja que a Terra não é mercadoria; a Bíblia recorda que ela pertence ao Criador. Os povos indígenas ensinam a interdependência entre todos os seres; o Evangelho proclama que toda a criação será reconciliada em Cristo. Ambos denunciam a idolatria do poder, da riqueza e da dominação.

Talvez seja esse um dos grandes desafios da ecoespiritualidade cristã no século XXI: recuperar a vocação original do ser humano como cuidador da criação, abandonar toda pretensão de superioridade que destrói vidas e reflorestar não apenas nossas florestas, mas também nossa imaginação, nossos afetos e nossa maneira de habitar a Casa Comum. Somente uma humanidade reconciliada com Deus, com o próximo e com toda a criação poderá responder fielmente ao chamado divino de cultivar e guardar o jardim que lhe foi confiado.

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