As cosmogonias dos povos originários da Índia diferem das tradições do hinduísmo clássico e pertencem aos numerosos povos tribais, conhecidos no país como Adivasi (“habitantes originários”). Esses povos representam mais de 700 grupos étnicos, distribuídos principalmente pelas regiões central, oriental e nordeste da Índia. Embora sejam muito diversos, suas cosmogonias compartilham uma profunda integração entre espiritualidade, natureza, ancestralidade e vida comunitária. A seguir estão algumas das principais:
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1. Cosmogonia Gond
Os Gond, um dos maiores povos indígenas da Índia, compreendem o universo como uma grande rede viva, sustentada por forças espirituais presentes em árvores, rios, montanhas, animais e ancestrais. Muitas narrativas atribuem a criação do mundo ao deus criador Bada Deo (ou Baradeo), associado à luz, ao céu e à ordem cósmica. A famosa Árvore da Vida da arte gond simboliza a conexão entre o mundo espiritual, a natureza e os seres humanos, expressando a unidade de toda a criação.
2. Cosmogonia Santal (Santhal)
Os Santal, presentes principalmente nos estados de Jharkhand, Odisha e Bengala Ocidental, narram que o universo foi criado por Thakur Jiu, o Criador Supremo. Em uma das versões mais conhecidas, o mundo inicialmente era coberto pelas águas. Com a ajuda de aves e outros animais, surgiu a terra firme, onde posteriormente foram criados os primeiros seres humanos. Os espíritos da natureza (bonga) habitam florestas, rios e montanhas e participam continuamente da vida da comunidade.
3. Cosmogonia Oraon (Kurukh)
Os Oraon afirmam que o Criador deu origem ao céu, à terra, às águas, às plantas e aos animais antes da criação da humanidade. Os ancestrais permanecem espiritualmente presentes, protegendo a comunidade. A agricultura, as estações do ano e os ciclos naturais são considerados expressões da ordem estabelecida pelo Criador, sendo celebrados em festas como Sarhul, dedicada às árvores e ao florescimento da floresta.
4. Cosmogonia Warli
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Os Warli, do estado de Maharashtra, representam sua cosmologia por meio das famosas pinturas geométricas em paredes de barro. A criação está intimamente ligada à fertilidade da terra, aos ciclos agrícolas e à deusa-mãe Palaghata, que simboliza a vida e a fecundidade. As figuras humanas aparecem sempre integradas aos animais, às plantas e às forças naturais, sem qualquer hierarquia entre elas.
5. Cosmogonia Khasi
Os Khasi, do estado de Meghalaya, preservam uma tradição segundo a qual originalmente existia uma ligação direta entre céu e terra, permitindo a convivência entre humanos e divindades. Essa conexão foi rompida em consequência do comportamento humano, mas permanece viva por meio dos rituais e do respeito às florestas sagradas, consideradas morada dos espíritos protetores.
6. Cosmogonia Mizo
Entre os Mizo, do nordeste da Índia, existem narrativas segundo as quais os primeiros seres humanos emergiram do interior da terra ou de uma grande rocha, vivendo posteriormente em estreita relação com os espíritos da natureza. A vida harmoniosa depende da observância das normas transmitidas pelos ancestrais e do respeito aos seres espirituais.
7. Cosmogonia Naga
Os diversos povos Naga preservam mitos variados sobre a origem da humanidade. Em algumas tradições, os primeiros seres humanos nasceram de pedras, árvores ou cavernas sagradas. As montanhas, as florestas e os rios são vistos como espaços habitados por espíritos ancestrais, razão pela qual muitos locais naturais permanecem protegidos por tabus religiosos.
Elementos comuns
Apesar da diversidade, as cosmogonias adivasi compartilham diversos princípios:
- a natureza é viva e sagrada;
- árvores, montanhas, rios e animais possuem espírito e dignidade própria;
- os ancestrais permanecem presentes na vida da comunidade;
- os rituais garantem o equilíbrio entre o mundo humano e o espiritual;
- a terra não pertence às pessoas; as pessoas pertencem à terra;
- a vida comunitária é mais importante do que o individualismo;
- a agricultura e os ciclos naturais são compreendidos como expressões da ordem cósmica.
Essas cosmovisões têm despertado crescente interesse na antropologia, na ecologia e na ecoespiritualidade contemporâneas por oferecerem uma compreensão profundamente relacional da existência. Autores como Verrier Elwin, Ramachandra Guha e Chinmayee Nanda destacam que as tradições espirituais dos povos adivasi constituem importantes referências para a ética ambiental, ao compreenderem a floresta como uma comunidade de vida e não como um conjunto de recursos econômicos. Essa visão inspirou reflexões contemporâneas sobre justiça ecológica, conservação da biodiversidade e diálogo entre espiritualidade, cultura e meio ambiente.