A China abriga 56 grupos étnicos oficialmente reconhecidos, dos quais a maioria é composta pelo povo Han, enquanto os demais incluem dezenas de povos originários com tradições religiosas e cosmológicas próprias. Muitas dessas cosmogonias são anteriores ou paralelas ao confucionismo, ao taoismo e ao budismo, preservando elementos de animismo, xamanismo, culto aos ancestrais e profunda reverência pela natureza. Apesar da diversidade, elas compartilham a compreensão de que montanhas, rios, florestas, animais e seres humanos fazem parte de uma mesma ordem cósmica.
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1. Cosmogonia Naxi
Os Naxi, da província de Yunnan, preservam uma das tradições cosmológicas mais bem documentadas da China por meio da escrita pictográfica Dongba, única ainda em uso no mundo. Segundo seus mitos, o universo foi organizado por divindades criadoras que estabeleceram a separação entre céu e terra, a origem das montanhas, dos rios, dos animais e dos seres humanos. A natureza é considerada sagrada, e o equilíbrio entre humanos e espíritos é mantido por rituais conduzidos pelos sacerdotes Dongba.
2. Cosmogonia Miao (Hmong)
Os Miao (Hmong) narram que o mundo surgiu após um grande caos primordial, sendo organizado gradualmente por divindades e ancestrais culturais. Muitas versões descrevem um dilúvio do qual apenas alguns sobreviventes escaparam, tornando-se os ancestrais da humanidade. Árvores, aves, dragões e borboletas aparecem frequentemente como símbolos da criação. Em uma das narrativas mais conhecidas, a Mãe Borboleta é considerada ancestral de inúmeros seres vivos.
3. Cosmogonia Yi
Os Yi, do sudoeste chinês, preservam antigos poemas épicos que descrevem a formação do universo a partir de uma substância primordial que lentamente se diferencia em céu, terra, água e vida. O equilíbrio cósmico depende da relação harmoniosa entre humanos, ancestrais e forças naturais. O fogo possui papel central em sua espiritualidade, sendo celebrado anualmente no famoso Festival das Tochas.
4. Cosmogonia Tibetana (Bon)
Embora o Tibete possua hoje forte influência do budismo, a antiga religião Bon, preservada por diversos povos tibetanos, apresenta uma cosmologia própria. O universo é habitado por deuses, espíritos das montanhas, lagos, rios e florestas. As montanhas sagradas são consideradas morada de divindades protetoras, e os rituais procuram manter a harmonia entre o mundo humano e as forças espirituais da natureza.
5. Cosmogonia Dai
Os Dai, do sul da China, possuem narrativas segundo as quais o universo emerge das águas primordiais. Serpentes, dragões e aves participam da organização do mundo. A água simboliza fertilidade, purificação e continuidade da vida, razão pela qual ocupa lugar central em festas tradicionais como o Festival da Água.
6. Cosmogonia Qiang
Os Qiang, habitantes das montanhas de Sichuan, entendem que o céu, a terra e os seres humanos constituem uma única ordem sagrada. Montanhas elevadas são vistas como morada dos espíritos ancestrais, enquanto o carneiro branco simboliza proteção, fertilidade e ligação entre os mundos humano e espiritual.
7. Cosmogonia Oroqen e Evenki da China
Os Oroqen e os Evenki, povos da região nordeste da China, compartilham tradições xamânicas semelhantes às de grupos da Sibéria. A floresta é considerada um organismo vivo, habitado por espíritos protetores. Ursos, alces, renas e aves possuem importância espiritual, e a caça é regulada por princípios de respeito e reciprocidade.
Elementos comuns
Apesar de sua diversidade, essas cosmogonias apresentam características recorrentes:
- o universo nasce da diferenciação gradual entre céu e terra;
- montanhas, rios, florestas e animais possuem dimensão espiritual;
- ancestrais permanecem presentes na vida comunitária;
- o equilíbrio entre humanidade e natureza depende dos rituais;
- xamãs ou sacerdotes atuam como mediadores entre os mundos;
- a natureza é concebida como uma comunidade viva e sagrada, e não como objeto de exploração.
Essas tradições têm recebido crescente atenção nos estudos sobre religião comparada, antropologia e ecologia por revelarem formas de conhecimento profundamente ecológicas. Em vez de separar ser humano e natureza, compreendem toda a criação como uma rede de relações espirituais, na qual o bem-estar humano depende da preservação das florestas, das montanhas, dos rios e dos animais. Essa visão dialoga com a ecoespiritualidade contemporânea e com propostas de ética ambiental que valorizam a interdependência, o respeito aos ancestrais e o cuidado com toda a comunidade da vida.