As principais cosmogonias dos povos árabes

Os povos árabes não constituem um conjunto de “povos originários” no mesmo sentido em que esse termo é empregado para povos indígenas das Américas, da Oceania ou de partes da África e da Ásia. “Árabe” designa principalmente uma identidade étnico-linguística e cultural, formada ao longo da história na Península Arábica e posteriormente expandida pelo Oriente Médio e Norte da África com a difusão da língua árabe e do Islã. Antes da islamização existiam dezenas de povos e tribos, cada qual com suas próprias tradições religiosas e narrativas sobre a origem do mundo.

Os povos árabes constituem um conjunto de povos unidos principalmente pela língua árabe, pela história compartilhada e por aspectos culturais comuns, e não por uma única origem étnica ou biológica. Atualmente, estima-se que existam entre 450 e 480 milhões de árabes distribuídos por 22 países, membros da Liga Árabe, além de milhões de integrantes da diáspora vivendo na Europa, nas Américas e em outras regiões.

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Onde surgiram?

A origem histórica dos árabes localiza-se na Península Arábica, especialmente nas regiões correspondentes à atual Arábia Saudita, Iêmen, Omã, Emirados Árabes Unidos e partes da Jordânia e do Iraque. Povos que falavam antigas línguas semíticas já habitavam essa região há mais de quatro mil anos.

Os primeiros árabes organizavam-se principalmente em tribos nômades (beduínos) e comunidades sedentárias que viviam em oásis e cidades comerciais. A economia baseava-se no pastoreio de camelos, ovelhas e cabras, no comércio de especiarias, incenso e mirra, além das rotas de caravanas que ligavam a África, a Ásia e o Mediterrâneo.

Quando surgiu a identidade árabe?

Embora povos árabes existissem muito antes, a identidade árabe consolidou-se especialmente entre os séculos VI e VIII d.C.

Dois acontecimentos foram decisivos:

  • o surgimento do Islã, no século VII, com a pregação de Maomé;
  • a rápida expansão dos califados árabes, que difundiram a língua árabe desde a Península Ibérica até a Ásia Central.

É importante distinguir árabe de muçulmano:

  • árabe refere-se a uma identidade linguística e cultural;
  • muçulmano é quem segue o Islã

A maioria dos árabes é muçulmana, mas existem milhões de árabes cristãos (católicos, ortodoxos e protestantes) e pequenas comunidades de outras religiões. Por outro lado, a maioria dos muçulmanos do mundo não é árabe: países como Indonésia, Paquistão, Bangladesh, Índia e Turquia possuem enormes populações muçulmanas que não são árabes.

Os árabes são um único povo?

Não. Os árabes constituem uma grande família de povos. Entre eles há diferenças marcantes de história, sotaques, culinária, música, vestimentas e tradições. Por exemplo:

  • os árabes do Magrebe (Marrocos, Argélia e Tunísia) diferem culturalmente dos árabes da Península Arábica;
  • os árabes do Levante (Síria, Líbano, Jordânia e Palestina) possuem tradições próprias;
  • os árabes do Egito desenvolveram uma identidade influenciada por sua longa história faraônica, greco-romana, copta e islâmica;
  • os povos do Golfo Pérsico preservam muitas características das antigas sociedades beduínas.

Como alguém é considerado árabe?

Hoje, a identidade árabe é definida principalmente por fatores culturais e linguísticos. Em geral, considera-se árabe quem:

  • tem o árabe como língua materna ou principal;
  • identifica-se com a cultura árabe;
  • compartilha uma herança histórica ligada ao mundo árabe.

A ascendência genética, por si só, não define essa identidade. Ao longo dos séculos, a expansão da língua árabe integrou povos de origens muito diversas — semitas, berberes, egípcios, arameus, núbios e outros — que passaram a fazer parte do mundo árabe.

As principais cosmogonias associadas aos povos árabes podem ser agrupadas em quatro grandes tradições: a árabe pré-islâmica, a islâmica, a sabeia (sul da Arábia) e a nabateia.

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1. Cosmogonia árabe pré-islâmica

Antes do surgimento do Islã no século VII, a Península Arábica abrigava uma grande diversidade de crenças politeístas. Muitas tribos cultuavam divindades ligadas aos astros, às montanhas, aos oásis e às forças da natureza. Entre as divindades mais conhecidas estavam Hubal, Al-Lat, Al-Uzza e Manat.

Não existia uma única narrativa de criação compartilhada por todas as tribos. Em geral, o cosmos era entendido como uma ordem sustentada por divindades celestes e pelos ciclos do deserto, das chuvas e das estrelas. A observação do céu possuía enorme importância religiosa e prática para povos nômades.

2. Cosmogonia islâmica

A cosmogonia que mais profundamente marcou os povos árabes é a apresentada no Alcorão. Deus (Allah) cria os céus e a terra por sua palavra e vontade soberana. O universo é concebido como uma criação ordenada, boa e cheia de sinais (ayat) que revelam a sabedoria divina. Os seres humanos, criados a partir do barro, recebem a responsabilidade de atuar como khalifah (administradores ou vice-regentes) da criação, cuidando da Terra segundo a vontade de Deus.

Embora compartilhe diversos elementos com as narrativas bíblicas da criação, a cosmogonia islâmica enfatiza fortemente a unidade absoluta de Deus (tawhid) e a ordem harmoniosa do universo como manifestação permanente da ação divina.

3. Cosmogonia sabeia (Sul da Arábia)

Os antigos reinos do atual Iêmen — especialmente os Sabeus, Mineus, Qatabanitas e Hadramitas — desenvolveram religiões fortemente associadas aos astros, ao Sol, à Lua e aos sistemas de irrigação que sustentavam sua agricultura.

O deus lunar Almaqah ocupava posição central entre os sabeus, enquanto o Sol e Vênus também desempenhavam papéis importantes. A fertilidade da terra era compreendida como resultado da harmonia entre as divindades celestes e a ordem natural.

4. Cosmogonia nabateia

Os Nabateus, cujo principal centro foi a cidade de Petra, desenvolveram uma religião que combinava elementos árabes, aramaicos, gregos e mesopotâmicos. O principal deus era Dushara, frequentemente associado às montanhas e à fertilidade.

A paisagem rochosa era considerada sagrada, e muitas montanhas funcionavam como espaços de encontro entre o mundo humano e o divino.

Influências mesopotâmicas

Muitas ideias cosmológicas presentes entre antigos povos árabes receberam influência das grandes civilizações da Mesopotâmia. Narrativas de criação envolvendo águas primordiais, montanhas sagradas, jardins divinos e organização progressiva do cosmos circulavam entre assírios, babilônios, arameus e povos árabes por meio das intensas redes comerciais da Antiguidade.

Elementos comuns

Apesar de sua diversidade, essas tradições compartilham diversos aspectos:

  • o universo possui uma ordem sagrada;
  • o deserto, as montanhas e os oásis possuem profundo significado religioso;
  • os astros desempenham importante papel cosmológico;
  • a água simboliza vida, bênção e renovação;
  • a criação manifesta a presença ou a ação das divindades;
  • os seres humanos possuem responsabilidades para com a ordem criada.

Diferentemente de muitas cosmogonias indígenas das Américas ou da Sibéria, as tradições árabes antigas tendem a enfatizar menos o parentesco espiritual entre humanos, animais e plantas e mais a relação entre a humanidade e as divindades que governam o cosmos. Ainda assim, especialmente na tradição islâmica, desenvolveu-se uma forte compreensão de que a criação é um sinal da sabedoria divina e deve ser tratada com respeito. Essa visão tem servido de base para correntes contemporâneas da ecoespiritualidade islâmica, que compreendem o cuidado com a Terra como uma responsabilidade espiritual e ética decorrente da condição humana de guardiã da criação.

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