Dekila Chungyalpa e a Ecoespiritualidade: a interdependência entre espiritualidade, compaixão e cuidado da Terra

Dekila Chungyalpa é uma ambientalista, pesquisadora e líder no campo da relação entre religião, espiritualidade e conservação ambiental, reconhecida internacionalmente por seu trabalho na construção de pontes entre comunidades religiosas e movimentos de proteção da Terra. Nascida na região do Himalaia, em Sikkim, Índia, em uma família ligada ao budismo tibetano, sua trajetória foi marcada desde cedo pela percepção da profunda interdependência entre os seres humanos, os ecossistemas e todas as formas de vida. Atualmente dirige a Loka Initiative, vinculada à Universidade de Wisconsin–Madison, um programa voltado para capacitar líderes religiosos e comunidades de fé para atuarem diante das mudanças climáticas e das crises ecológicas. Antes disso, fundou e dirigiu o programa Sacred Earth, do World Wildlife Fund (WWF), entre 2009 e 2014, uma iniciativa pioneira de conservação baseada na parceria com tradições religiosas e espirituais de diferentes partes do mundo.

A contribuição de Chungyalpa para a ecoespiritualidade está fundamentada na compreensão de que a crise ecológica é também uma crise de percepção espiritual: a humanidade perdeu a consciência de sua profunda conexão com a comunidade da vida. Influenciada pelo budismo tibetano, especialmente pelos conceitos de interdependência, compaixão, impermanência e não separação entre os seres, ela afirma que a transformação ecológica exige não apenas mudanças políticas e tecnológicas, mas também uma mudança interior, capaz de despertar responsabilidade, cuidado e solidariedade. Para ela, as tradições religiosas possuem recursos éticos e espirituais essenciais para enfrentar a crise climática, pois oferecem narrativas de pertencimento, respeito e responsabilidade diante da Terra.

Entre seus escritos e contribuições destacam-se capítulos e artigos voltados para a relação entre espiritualidade, conservação e mudança climática. Participou da obra Ecology, Ethics, and Interdependence: The Dalai Lama in Conversation with Leading Thinkers on Climate Change (2013), organizada a partir de diálogos sobre ética ambiental e a responsabilidade humana diante do planeta. Também contribuiu para Generation Y, Spirituality, and Social Change (2014), refletindo sobre espiritualidade, juventude e transformação social. Em artigos mais recentes, aprofundou sua reflexão sobre resiliência ecológica e novas formas de compreender a relação humanidade-natureza, como em “A Framework for Deep Resilience in the Anthropocene”, publicado no Humanistic Management Journal em 2024, e “Mother Earth Kinship: Centering Indigenous worldviews to address the Anthropocene and rethink the ethics of human-to-nature connectedness”, publicado em Current Opinion in Psychology em 2025.

Um aspecto central de seu trabalho é a valorização dos conhecimentos indígenas e das tradições espirituais como fontes de sabedoria ecológica. Chungyalpa compreende que muitos povos tradicionais preservam uma visão relacional do mundo, na qual a natureza não é vista como um objeto externo a ser explorado, mas como uma comunidade viva da qual os seres humanos fazem parte. Essa perspectiva questiona a visão moderna de separação entre humanidade e natureza e propõe uma ética baseada no pertencimento, na reciprocidade e no cuidado.

Sua atuação também demonstra que a espiritualidade pode gerar mobilização concreta. Por meio da Loka Initiative, ela trabalha com diferentes comunidades religiosas, líderes espirituais e guardiões de tradições indígenas, criando redes de ação climática fundamentadas em valores religiosos. Seu objetivo não é substituir a ciência ou a política ambiental, mas mostrar que a transformação necessária para enfrentar a crise climática precisa envolver também valores, culturas e visões de mundo.

Assim, a ecoespiritualidade em Dekila Chungyalpa pode ser compreendida como um chamado à redescoberta da interdependência que sustenta toda a vida. A crise ambiental revela uma ruptura espiritual: quando os seres humanos se percebem separados da Terra, passam a explorá-la como objeto de consumo. Recuperar uma consciência ecológica significa reconhecer que cuidar da natureza é também cuidar de nós mesmos, pois a saúde do planeta e o bem-estar das comunidades humanas estão profundamente unidos.

A mensagem central de Chungyalpa é que a cura da Terra exige uma transformação da consciência humana: uma passagem da dominação para a relação, da exploração para a compaixão e da separação para a interdependência. A ecoespiritualidade, nesse sentido, não é apenas uma reflexão sobre a natureza, mas uma forma de reencontrar nosso lugar dentro da grande comunidade da vida.

A afirmação de que a cura da Terra exige uma transformação da consciência humana expressa uma das intuições centrais da ecoespiritualidade contemporânea: a crise ecológica não nasce apenas de tecnologias inadequadas ou de escolhas econômicas equivocadas, mas de uma visão de mundo marcada pela separação, pelo domínio e pela exploração. Durante séculos, uma parcela da humanidade passou a compreender a natureza como um objeto externo, um conjunto de recursos disponíveis para satisfazer desejos ilimitados, rompendo a percepção de pertencimento e reciprocidade com a comunidade da vida. A passagem da dominação para a relação significa reconhecer que a Terra não é uma propriedade humana, mas uma realidade viva da qual fazemos parte; a passagem da exploração para a compaixão implica substituir uma lógica de apropriação por uma ética do cuidado, da solidariedade e da responsabilidade com todos os seres; e a passagem da separação para a interdependência revela que a existência humana está profundamente conectada aos ciclos da natureza, aos demais seres vivos e às gerações futuras. Nesse horizonte, a ecoespiritualidade não se limita a defender a preservação ambiental, mas propõe uma verdadeira conversão interior e coletiva: uma nova maneira de habitar o mundo, percebendo a Terra como uma comunidade sagrada de vida, onde cuidar do planeta é também cuidar de nós mesmos e reconhecer nossa vocação de guardiões, parceiros e participantes da grande teia da criação.

Referências principais mencionadas no texto:

  • Ecology, Ethics, and Interdependence: The Dalai Lama in Conversation with Leading Thinkers on Climate Change (2013).
  • Generation Y, Spirituality, and Social Change (2014).
  • “At the Center of All Things is Interdependence” – Yale Forum on Religion and Ecology (2021).
  • “A Framework for Deep Resilience in the Anthropocene” – Humanistic Management Journal (2024).
  • “Mother Earth Kinship: Centering Indigenous worldviews to address the Anthropocene and rethink the ethics of human-to-nature connectedness” – Current Opinion in Psychology (2025).
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