O Ggeomeoksali e a Terra: quando a criação perde seu yang (força vital)

Entre as muitas criaturas sobrenaturais apresentadas na série coreana A Leste do Palácio, produzida e exibida nna Netiflix, uma das mais intrigantes é o Ggeomeoksali (lê-se “KKÔ-mók-sa-li”), uma criatura espiritual que sobrevive alimentando-se da energia vital dos vivos.

Na tradição oriental apresentada na série, essa energia chama-se yang. O yang é a força da vida: aquilo que mantém o corpo saudável, a mente desperta e a pessoa ligada ao mundo dos vivos.

Quando o Ggeomeoksali se aproxima, ele não mata imediatamente. Sua ação é silenciosa, pois vai retirando pouco a pouco o yang da vítima.

A pessoa continua de pé, continua respirando, mas perde o vigor, a resistência e a alegria de viver. Aos poucos, torna-se frágil e vulnerável.

Essa imagem oferece uma poderosa metáfora para pensarmos o mundo em que vivemos.

Se imaginarmos a Terra como um grande organismo vivo — uma ideia próxima da Hipótese de Gaia, desenvolvida por James Lovelock e Lynn Margulis —, podemos dizer que ela também possui um yang: sua capacidade de gerar e sustentar a vida.

O yang (vitalidade) do planeta Terra manifesta-se nas florestas, nos rios, nos oceanos, nos solos férteis, na biodiversidade, nas chuvas, no equilíbrio do clima e em todos os processos que tornam possível a existência de milhões de espécies, inclusive a nossa.

Quem seria, então, o Ggeomeoksali devorador da vitalidade da Terra nessa história?

Não seria um único governante, uma única empresa, uma única nação, uma única família ou um único indivíduo. O verdadeiro Ggeomeoksali é um modo de viver. É a lógica da ganância, do consumo ilimitado e da exploração sem limites da criação. É a ideia equivocada de que a Terra possui recursos inesgotáveis e existe apenas para ser explorada, consumida e descartada.

Como o Ggeomeoksali da série, essa lógica não destrói tudo de uma só vez. Ela vai drenando lentamente a energia vital do planeta.

Cada floresta e cada bioma destruídos retiram um pouco do yang da Terra. A atmosfera poluída, os rios contaminados e os solos degradados enfraquecem seu organismo. Cada espécie da fauna e da flora extinta — ou às portas da extinção — representa uma parte de sua riqueza que desaparece para sempre. Cada tonelada de carbono lançada na atmosfera altera o delicado equilíbrio climático. Cada área fértil transformada em concreto, lixão ou deserto reduz a capacidade da Terra de regenerar a vida.

A Terra continua existindo, mas vai perdendo sua força vital.

O planeta anda cada vez mais debilitado por tudo isso, mas ainda está vivo. Ainda pode recuperar sua energia vital e reencontrar sua saúde planetária, desde que lhe permitamos respirar, regenerar-se e florescer novamente.

Na filosofia oriental, o yang nunca existe sozinho. Ele precisa do yin, a força complementar que representa o descanso, a regeneração, o silêncio, a umidade, a noite e os ciclos de renovação. Yin e yang não são inimigos; são parceiros. A vida depende do equilíbrio entre ambos.

Podemos imaginar o yin da Terra como os processos pelos quais a própria criação recupera suas forças: o tempo de crescimento de uma floresta, o repouso do solo, o ciclo das águas, a regeneração dos ecossistemas, a lenta formação do húmus, a sucessão natural das espécies e todos os ritmos que permitem à natureza renovar aquilo que oferece.

O grande problema da civilização moderna é que ela retira continuamente o yang da Terra, mas impede que o yin cumpra sua função restauradora.

Muito além das necessidades reais, extraímos recursos em ritmo superior à capacidade de regeneração da natureza. Consumimos mais depressa do que os ecossistemas conseguem se recompor. Exigimos produção contínua de um planeta que foi criado para alternar trabalho e descanso.

Essa percepção encontra um surpreendente paralelo na Bíblia. Em Gênesis, Deus coloca o ser humano no jardim “para o cultivar e o guardar” (Gn 2.15). O domínio humano nunca foi licença para destruir, mas vocação para cuidar. Mais adiante, a própria Lei de Moisés determina o descanso da terra: o ano sabático e o jubileu lembram que até o solo pertence a Deus e necessita de períodos de recuperação. O descanso não é apenas para o ser humano; é também para a terra, para os animais e para toda a criação.

Quando ignoramos esses limites, transformamo-nos simbolicamente em Ggeomeoksalis, passando a viver ggeomeoksalimente: de maneira perdulária, gananciosa, abusiva e indiferente, alimentando-nos da energia vital do planeta sem permitir que ele recupere suas forças, sem construir uma economia verdadeiramente sustentável. Extraímos, consumimos, queimamos, poluímos e descartamos como se os recursos fossem infinitos. Assim, lenta e assustadoramente, a Terra continua viva, mas enfraquecida.

Talvez a grande pergunta ecológica do nosso tempo seja esta: estamos vivendo como jardineiros da criação ou como Ggeomeoksalis?

A série mostra que o Ggeomeoksali não percebe a gravidade de sua própria ação; ele apenas continua alimentando-se. Também nossa civilização, apesar das evidências produzidas pela ciência e dos inúmeros alertas vindos da pesquisa científica, das comunidades tradicionais, dos organismos internacionais e até do próprio mercado financeiro, continua tratando como normal um modelo de desenvolvimento que drena silenciosamente a vitalidade do planeta.

O apóstolo Paulo escreve que “toda a criação geme e suporta angústias até agora” (Rm 8.22). É uma imagem profundamente atual. A criação geme porque sua vitalidade está sendo exaurida. Ela continua viva, mas clama por restauração.

Se o Ggeomeoksali representa a ganância que consome a vida, a esperança está em recuperar nossa vocação original: cuidar da criação como dom de Deus, restaurando florestas, protegendo as águas, preservando a biodiversidade, reduzindo o desperdício, combatendo a mudança climática e a poluição dos oceanos — especialmente causada pelos plásticos e pelos esgotos não tratados — e aprendendo novamente que os ritmos do descanso da Terra não são apenas decisões ambientais, mas escolhas vitais e espirituais.

Talvez o maior exorcismo de nosso tempo não seja expulsar fantasmas, mas expulsar de nós mesmos o Ggeomeoksali da exploração insaciável.

Como adverte o livro do Apocalipse, Deus julgará aqueles que “destroem a terra” (Ap 11.18). A esperança cristã não é uma licença para explorar a criação até o esgotamento, mas um chamado para reconciliar-nos com ela.

Somente assim a Terra poderá recuperar seu yang, reencontrar o equilíbrio entre yin e yang e continuar sendo, para todas as criaturas, a grande casa da vida, nossa Casa Comum.

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