Cuidar dos pobres é uma responsabilidade permanente

Na última quinta-feira, vi numa feira de rua em Copacabana um homem cercado de barracas que vendiam alimentos, pedindo socorro em nome de Jesus, pois estava com fome. Isso me fez pensar: “Por que numa sociedade capaz de produzir tanta riqueza, no 8º país mais rico do mundo, ainda há pessoas que não conseguem ter acesso ao necessário para viver?”

Então imediatamente me lembrei da frase dita por um famoso cristão católico chamado Helder Câmara: – “Quando dou comida aos pobres sou tratado como um homem santo, mas quando pergunto por que os pobres não têm comida, sou agressivamente taxado de comunista”.

As Sagradas Escrituras dizem que devemos alimentar os famintos, mas também nos ensinam a ter fome e sede de justiça. Isso nos lembra que a fé cristã não pode se limitar a aliviar as consequências da pobreza alimentando os pobres. É preciso combater a fome e a miséria e, para isso, precisamos perguntar “por que existem pobres, quais relações e estruturas produzem e reproduzem a desigualdade/miséria e o que pode ser feito para transformá-las?” Não basta consertar os “brinquedos com defeito”, mas consertar também a “máquina que os produz”.

Jesus diz: “os pobres, sempre os tendes convosco” (Mc 14.7), não para afirmar que a pobreza seja desejada por Deus ou que devamos aceitá-la passivamente, mas para lembrar que cuidar dos pobres é uma responsabilidade permanente. Como já ensinava Deuteronômio 15.11, a existência dos pobres deveria levar o povo a abrir a mão e cuidar do necessitado. Por isso, alimentar quem tem fome é urgente; perguntar por que alguém passa fome também é necessário. A justiça cristã procura fazer as duas coisas: cuidar de quem sofre e questionar aquilo que produz e perpetua o sofrimento.

O Brasil tem cerca de 8,51 milhões de km² de território e, na safra 2025/26, a Conab estima uma produção de aproximadamente 361,7 milhões de toneladas de grãos. Mesmo assim, em 2024, 23,2% dos domicílios brasileiros estavam em algum grau de insegurança alimentar (fome), e o déficit habitacional calculado pela Fundação João Pinheiro foi de aproximadamente 6,2 milhões de domicílios em 2022. Temos terra, temos capacidade de produção e produzimos enormes quantidades de alimentos e outros bens. Ainda assim, milhões de pessoas não conseguem ter acesso ao necessário para viver com dignidade.

Nós, cristãos, podemos e devemos criticar o comunismo histórico e as experiências de regimes autoritários sem, por isso, deixar de reconhecer que nosso país e nosso mundo podem ser mais justos. Desejar um país justo e que socorre e cuida de nossos compatriotas criando dignidade e cidadania plena para eles não é desejar ou flertar com “comunismo”, mas é um genuíno patriotismo, cristianismo e causa evangélica.

A pergunta final, nesse sentido, retoma perfeitamente a Dom Helder Câmara:- não basta perguntar como alimentar quem tem fome; é preciso perguntar por que, numa sociedade capaz de produzir tanta riqueza, ainda há pessoas que não conseguem ter acesso ao necessário para viver.

O Bicho

(Manuel Bandeira, Rio, 27 de dezembro de 1947)

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

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