A reflexão sobre destino, acaso e contingência pode nos levar a uma pergunta ainda mais profunda: por que surgiu a vida? E, dentro dela, por que surgimos nós? Somos resultado de uma longa sucessão de acontecimentos, condições e processos que tornaram possível a nossa existência? Ou existe algum sentido maior para o fato de estarmos aqui?
Talvez antes mesmo dessas perguntas exista outra, ainda mais radical: por que existe alguma coisa em vez de simplesmente não existir nada?
Segundo o conhecimento científico atual, o Universo observável tem cerca de 13,8 bilhões de anos, e sua história remonta a um estado inicial extremamente quente e denso, associado ao que chamamos de Big Bang. Muito tempo depois, há aproximadamente 4,6 bilhões de anos, formou-se o Sol, e, ao seu redor, a Terra surgiu há cerca de 4,5 bilhões de anos. Na Terra, a presença de água líquida e de diversos elementos químicos criou condições para processos cada vez mais complexos. Muitos dos elementos mais pesados que encontramos hoje não se formaram no início do Universo, mas foram produzidos no interior das estrelas e espalhados pelo espaço quando elas morreram ou explodiram. Em certo sentido, somos feitos também desse “pó das estrelas”.
A partir de uma longa história de transformações químicas, a matéria passou a apresentar formas cada vez mais complexas de organização, até que, em algum momento ainda não completamente explicado pela ciência, surgiu a vida. A história da vida, segundo a ciência, envolve então uma longa sucessão de processos naturais, condições e acontecimentos contingentes, nos quais diferentes possibilidades se realizaram e outras não. Ao longo de bilhões de anos, a evolução biológica produziu a extraordinária diversidade dos seres vivos, entre eles nós mesmos.
Na fé judaica e cristã, a existência é compreendida também a partir da ação criadora de Deus. O relato de Gênesis apresenta Deus como aquele que cria o mundo e tudo o que nele existe e, ao formar o ser humano do pó da terra, sopra em suas narinas o seu ruah — palavra hebraica que pode significar vento, sopro, respiração ou espírito —, e o ser humano se torna um ser vivente (Gn 2.7). A imagem é profundamente significativa: o barro, matéria da terra, recebe o sopro da vida e se transforma em gente. O relato não pretende oferecer uma explicação científica da origem biológica do ser humano, mas expressar uma verdade teológica: a vida humana está relacionada com Deus, com a terra e com o próprio dom de viver.
Mas essa vida não é apresentada apenas como existência. Ela recebe também uma vocação. O ser humano é chamado a viver, desfrutar e cuidar da criação, a cultivar relações de amor, compaixão, solidariedade e comunhão e a construir uma vida compartilhada com outras pessoas. Na perspectiva cristã, essa vocação alcança sua expressão maior em Jesus, que chama ao amor a Deus, ao próximo e à vida em comunidade.
Assim, o ser humano, feito do pó da terra e vivificado pelo sopro de Deus, é chamado a viver uma vida plena, responsável e solidária, comprometida com a vida na Terra e aberta à comunhão com Deus — aquilo que podemos expressar, em linguagem atual, como uma espécie de plena cidadania do céu e da terra.
A ciência procura investigar como o Universo surgiu, como a Terra se formou, como a vida apareceu e como os seres vivos se desenvolveram. A filosofia pode perguntar pelo sentido da existência e pelos limites do nosso conhecimento. As religiões, por sua vez, procuram responder às grandes perguntas sobre origem, sentido, sofrimento, morte e transcendência, cada uma a partir de sua própria tradição. Explicar como algo aconteceu, porém, não significa necessariamente explicar por que existe.
Por isso, a origem da vida não precisa ser transformada em uma disputa entre ciência e religião. A ciência investiga processos naturais e procura compreender suas causas; a fé fala da criação, da relação com Deus e da vocação humana. A fé também não precisa ocupar as lacunas do conhecimento científico. O fato de ainda não sabermos explicar completamente como a vida surgiu não significa, por si só, uma prova científica da existência de Deus; da mesma forma, uma explicação científica dos processos naturais não elimina, por si só, a pergunta religiosa sobre o sentido da existência.
Talvez seja justamente aí que encontramos o limite de nossas certezas. Podemos conhecer causas, processos e circunstâncias sem conseguir descobrir uma finalidade última para tudo o que existe. Isso não torna a pergunta inútil. Ao contrário, reconhecer que nem tudo pode ser explicado é também uma forma de humildade diante do mistério da existência.
Talvez não tenhamos uma resposta definitiva para a pergunta sobre por que existe a vida. E talvez não seja necessário transformar o mistério em uma certeza. Podemos viver com a pergunta aberta, reconhecendo aquilo que sabemos, aquilo que ainda não sabemos e aquilo que talvez nunca possamos saber.
Diante do mistério de existir, a contingência não diminui o valor da vida. Ela pode justamente nos lembrar que estar aqui é uma possibilidade que aconteceu. Não sabemos necessariamente por que existimos, mas podemos perguntar para que vivemos. E, para a fé cristã, essa pergunta encontra uma direção no amor, na compaixão, na comunhão, no cuidado com a criação e na responsabilidade pela vida. O barro vivificado pelo sopro de Deus não recebe apenas a possibilidade de existir: recebe também a vocação de cuidar da vida e tornar a vida mais plena para si, para o próximo e para toda a criação.
