A CRIAÇÃO COMO EXPRESSÃO DA GLÓRIA E DA GRAÇA DE DEUS: ECOTEOLOGIA, ECOESPIRITUALIDADE, METODISMO RAIZ E MISSÃO

                                                                                                      Ronan Boechat de Amorim

(pastor metodista e presidente da Associação Horizonte de Esperança – https://ahe.org.br)

É fundamental termos consciência e o conhecimento de que a questão ecológica como parte da Missão da Igreja não se trata de modismo ou uma espécie de oportuno “acréscimo ecológico” à fé, como se as Sagradas Escrituras desconhecessem o assunto e como se a Igreja tivesse descoberto recentemente uma nova preocupação, mas como uma dimensão que já está presente no coração da fé bíblica. Pois só assim a questão ambiental deixa de ser apenas uma pauta social ou política e passa a ser compreendida como uma questão teológica, espiritual, missionária e ética. Cuidar da criação não é acrescentar uma nova tarefa à vida cristã, mas redescobrir uma dimensão da própria fé que, muitas vezes, foi esquecida, seja pelo crescente antropocentrismo que coloca o ser humano como centro da criação, fazendo com que tudo e todos estejam a seu dispor, uso e interesse. Mas vejamos…

1. A CRIAÇÃO

A Bíblia e a história da salvação não começam com a Igreja, nem com Israel, nem sequer com o ser humano. Começam com Deus Trino criando. “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). E, ao contemplar sua obra, Deus repetidamente declara que ela é boa. A criação, portanto, não é um cenário vazio colocado à disposição do ser humano. Ela possui valor diante do próprio Deus. Expressa a sua vontade boa, perfeita e agradável (Rm 12:2). Por meio dele todas as coisas foram feitas, e sem ele nada do que foi feito se fez (João 1:3).

O Salmo 24 afirma: “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam.” A terra não é nossa propriedade absoluta. Ela pertence a Deus. Nós somos habitantes, participantes e cuidadores de uma criação que já tinha dono antes de chegarmos. O Salmo 104 apresenta uma visão ainda mais impressionante: animais, plantas, águas, montanhas, árvores, biomas e seres humanos aparecem integrados em uma grande comunidade de vida, uma teia de vida, um planeta vivo. O Salmo 148 convoca toda a criação — sol, lua, estrelas, animais, árvores, montanhas — a louvar o Senhor. A Criação é testemunha da glória divina: “Os céus proclamam a glória de Deus” (Sl 19.1). A diversidade da vida, a capacidade de regeneração, a interdependência dos ecossistemas, a beleza e a complexidade da criação podem despertar em nós admiração, gratidão, reverência e louvor.

A criação é, nesse sentido, uma dádiva. Não porque tudo nela exista simplesmente para atender às necessidades e caprichos humanos, mas porque a própria vida é fruto da generosidade criadora de Deus. A multiformidade da vida pode nos ensinar algo sobre a multiforme graça de Deus: uma graça que se manifesta em diversidade, abundância, fecundidade e relações que tornam possível a existência. Da vida e da saúde do planeta dependem toda a vida existente e criada por Deus, inclusive a vida da espécie humana.

A propósito, a título de esclarecimento, Criação é a realidade toda que existe e que, na fé cristã, procede de Deus e pertence a Ele: seres humanos, animais, plantas, rios, montanhas, astros e toda a teia da vida. Natureza é um termo mais específico, geralmente usado para designar o mundo não humano e seus processos e seres vivos. Já meio ambiente refere-se ao conjunto das condições, relações e elementos que envolvem e sustentam a vida, incluindo os seres humanos e os espaços que construímos. Assim, enquanto “meio ambiente” destaca o ambiente em que vivemos, “natureza” destaca o mundo natural e “criação” acrescenta a essas realidades uma dimensão teológica e relacional: tudo pertence a Deus e participa de sua obra criadora.

2. DEUS NÃO NOS COLOCOU ACIMA OU À PARTE DA CRIAÇÃO, MAS DENTRO DO SEU JARDIM

Um dos problemas da espiritualidade cristã é a facilidade com que podemos imaginar que existem duas realidades separadas: de um lado, o ser humano; do outro, o meio ambiente. Mas biblicamente, essa separação não existe. Na narrativa de Gênesis 3, a ruptura da relação humana com Deus repercute também sobre a relação com a terra e com a própria vida. O ser humano, desejando ultrapassar os limites estabelecidos pelo Criador, rompe a harmonia da criação. Por isso, também no cuidado com o meio ambiente temos de reconhecer que não somos Deus e que a Criação de fato não nos pertence, embora generosamente esteja à nossa disposição.

Em Gênesis 2.7, o ser humano é formado do pó da terra. O próprio nome “Adão” está relacionado, no texto hebraico, a “adamah”, que significa “solo” ou “terra”. Não somos seres imateriais pré-existentes tipo uma “alma” (tipo os fantasmas de filmes) temporariamente presa/encarcerada em um corpo físico e a um planeta (ao mundo material) como dizia o antigo filósofo grego chamado Platão. Somos criaturas da terra. Somos um corpo vivificado pelo sopro de Deus. Somos criaturas de uma terra afetada pelo pecado, mas que um dia também será redimida e que, segundo Paulo, serão transformados em corpos glorificados. O que exatamente significa essa glorificação permanece, em parte, um mistério, mas uma coisa é clara: a esperança cristã não é a de almas desencarnadas escapando da matéria, e sim a de Deus redimindo e transformando a vida que ele mesmo criou, redimindo toda criação.

A tradição ocidental estabeleceu uma associação significativa entre homo, humus e humilis, evocando a ideia de que o ser humano é aquele que vem da terra e precisa reconhecer humildemente sua condição de criatura.” Daí as situações em que se cobrir com pó e/ou cinza era gesto e sinal de arrependimento, de lembrar de onde viemos…

Nós humanos, respiramos o mesmo ar, bebemos a mesma água, dependemos dos mesmos ciclos naturais e participamos da mesma teia da vida. Por isso, talvez seja necessário substituir a expressão “cuidar do meio ambiente” por uma compreensão mais profunda: cuidar da Criação da qual fazemos parte, em obediência ao propósito e vontade de Deus. Visto que, pela graça de Deus, somos os seres criados por Deus que alcançamos consciência de nossa própria condição e recebemos os dons divinos a serem usados na responsabilidade de cuidar uns dos outros e de toda a criação. Essa consciência e privilégio não nos tornam donos da criação. Pelo contrário: aumenta nossa responsabilidade diante dela e diante do Criador. Quanto maior nossa capacidade de transformar o mundo, maior deve ser nossa responsabilidade pelo modo como o transformamos. A quem mais foi dado, mais será cobrado (Lc 12:48).

3. “DOMINAR” NÃO SIGNIFICA DESTRUIR, MAS NA TEOLOGIA DA CRIAÇÃO É DESFRUTAR E CUIDAR

Gênesis 1.28 utiliza os verbos ‘subjugar’ (kabash) e ‘dominar’ (radah). Esses termos não devem ser lidos isoladamente nem transformados em autorização para a exploração ilimitada da criação. Seu significado precisa ser interpretado à luz do conjunto de Gênesis 1–2, especialmente da responsabilidade de ‘cultivar e guardar’ o jardim em Gênesis 2.15.: “Tomou, pois, o Senhor Deus o homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e guardar”. O ser humano recebe responsabilidade sobre a criação, mas essa responsabilidade não é a de um proprietário que pode fazer o que quiser. É semelhante à responsabilidade de um administrador diante do verdadeiro proprietário. Não há aprovação de Deus para quem é indiferente e omisso diante da prática do mal. Biblicamente o mal significa simplesmente a falta do bem: quem não pratica o bem está espiritualmente praticando o mal. Quem não ama e cuida, espiritualmente está praticando o ódio. O ódio é a ausência do amor!

A terra é de Deus e nós, seres humanos, especialmente nós servos e servas de Deus,  somos responsáveis diante dele pelo modo como tratamos aquilo que lhe pertence. O domínio recebido pelo ser humano precisa ser compreendido à luz do chamado para cultivar e guardar. Na perspectiva bíblica, autoridade não é licença para exploração ilimitada, abuso ou destruição; é responsabilidade diante de Deus. O próprio relato da criação estabelece limites para o domínio humano. Em Gênesis 1, os animais também recebem de Deus sua própria bênção e fecundidade, mostrando que a vida não existe apenas em função do ser humano. E, em Gênesis 2.15, a humanidade é colocada no jardim para o cultivar e o guardar. Por isso, o “domínio” mencionado em Gênesis 1 não deve ser entendido como autorização para explorar a criação sem limites, mas interpretado dentro do conjunto da teologia bíblica da criação: exercer autoridade sobre a terra significa assumir responsabilidade por ela, reconhecendo que toda a criação pertence a Deus. É por isso que exploração, destruição, desperdício e indiferença não podem ser considerados questões meramente econômicas. Quando destruímos aquilo que Deus declarou bom, há também uma dimensão espiritual no que estamos fazendo. Segundo Jesus em João 10:10 quem veio para destruir e matar serve a outro projeto e Senhor, não ao Deus Criador e sustentador da Vida.

4. É AQUI QUE ENTRA A ECOTEOLOGIA, UMA PALAVRA POUCO USADA, MAS DE FÁCIL COMPREENSÃO

Teologia significa, em sentido amplo, pensar a fé. Não é uma tarefa reservada aos teólogos/as profissionais (estudiosos/as bíblicos, pastores/as) profissionais e com formação acadêmica, mas a todo povo de Deus. Todo cristão que pergunta “quem é Deus?”, “o que Deus deseja?” e “como devemos viver?” está fazendo teologia. Por isso, pensar teologicamente a relação entre Deus, humanidade e criação é uma tarefa de todo o povo de Deus.

Assim como a cristologia é a parte da teologia que estuda sobre Jesus Cristo, a Soteriologia sobre a salvação, a Pneumatologia sobre o Espírito Santo,  a ECOTEOLOGIA não é uma teologia separada das demais áreas da fé cristã. Ela atravessa a compreensão de Deus, da criação, do ser humano, do pecado, da salvação, de Cristo, do Espírito Santo, da Igreja e da missão. Ela pergunta: O que a Bíblia diz sobre a criação? Qual é o lugar do ser humano dentro dela? O que significa sermos imagem de Deus? Qual é a relação entre pecado e destruição da criação? O que significa a redenção mencionada em Rm 8 alcançar toda a criação? Como nossa fé deve transformar nossa relação com a terra, a água, os animais, as florestas e os demais seres vivos? A ecoteologia nos ajuda a perceber e entender que a salvação não pode ser pensada como a salvação de seres humanos arrancados de uma criação descartável, sem importância.  A Bíblia apresenta um horizonte muito mais amplo.

O apóstolo Paulo afirma algo extraordinário em Romanos 8: “toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Rm 8.22). A criação geme. E Paulo não diz que devemos simplesmente abandonar essa criação. Ele fala de uma criação que aguarda, que espera: “A ardente expectativa da criação aguarda a manifestação dos filhos de Deus” (Rm 8.19). Há aqui uma imagem profundamente poderosa para uma teologia da criação: a terra geme como uma mulher em dores de parto, esperando o nascimento de uma nova realidade, o Reino de Deus. A criação não é descartada no propósito de Deus. Ela espera a manifestação dos filhos e filhas de Deus para defender e cuidar dela. Ouso dizer que é plano de Deus salvar a Sua Criação: o Éden fará parte da cidade da Nova Jerusalém.

Romanos 8 apresenta, assim, a criação não apenas como cenário passivo da história humana, mas como participante de uma expectativa de libertação e transformação. A redenção de Deus possui uma dimensão que alcança a totalidade da criação.

5. POR QUE ESTAMOS ACELERANDO A DESTRUIÇÃO DA CRIAÇÃO?

Se a criação é boa aos olhos de Deus e se somos parte dela e ela de nós (de nossa vida e existência), precisamos fazer uma pergunta difícil: por que a humanidade está destruindo tão rapidamente as condições que sustentam a própria vida?

É verdade que uma parte da resposta está no crescimento da população mundial. Somos hoje muito mais numerosos do que éramos há algumas décadas, o que significa maior necessidade de alimentos, água, moradia, energia, transporte e outros bens. Mas seria insuficiente e injusto atribuir a crise ambiental simplesmente ao fato de sermos muitos. O problema não está apenas em quantas pessoas existem, mas, sobretudo, no quanto cada pessoa e cada sociedade consomem e em como produzem aquilo que consomem.

O modelo econômico dominante estimulou uma cultura na qual consumir deixou de significar apenas satisfazer necessidades. Consumir passou a ser frequentemente apresentado como sinal de sucesso, felicidade, liberdade e realização pessoal. Produzir mais, vender mais e consumir mais tornou-se uma engrenagem permanente. O lucro, quando desvinculado da responsabilidade social e ecológica, pode transformar a própria criação em simples matéria-prima para a acumulação de riqueza.

É preciso, portanto, distinguir a necessidade de consumo de consumismo. Precisamos consumir alimentos, vestuário, equipamentos, construções etc. para viver; mas o consumismo transforma o consumo em finalidade. Somos estimulados a comprar coisas de que muitas vezes não precisamos, substituí-las antes que deixem de funcionar, desejar continuamente o novo e descartar aquilo que ainda poderia ser utilizado. A publicidade e a própria lógica econômica contribuem para produzir necessidades artificiais e manter permanentemente aquecida a máquina do consumo. Todos precisamos de sapatos, mas ninguém é uma centopeia que precise comprar um par de sapato por dia!

É importante lembrar também que existe uma profunda desigualdade no consumo mundial. Nem todos os habitantes da Terra possuem a mesma responsabilidade pela pressão exercida sobre os recursos naturais. Há países e grupos sociais que consomem muito mais recursos e energia por pessoa do que outros. O chamado Dia da Sobrecarga da Terra ajuda a visualizar essa situação: em termos aproximados, ele indica quando a demanda humana por recursos e serviços ultrapassa aquilo que a Terra consegue regenerar durante aquele ano. Em 2026, a estimativa global corresponde a uma demanda equivalente a aproximadamente 1,73 planeta Terra. Isso significa que, mantido esse padrão, estamos utilizando a natureza mais rapidamente do que os ecossistemas conseguem regenerá-la.

E ainda temos a questão da injustiça ambiental. Enquanto alguns países e uma parcela da humanidade consomem muito mais, países e populações mais pobres frequentemente sofrem de maneira mais intensa as consequências da degradação ambiental. Secas, enchentes, ondas de calor, perda de colheitas, insegurança alimentar e deslocamentos provocados pelas mudanças climáticas atingem de maneira desigual aqueles que menos contribuíram para determinados processos de degradação. A crise ecológica, portanto, não é apenas consequência de sermos muitos. É consequência também de uma determinada maneira de organizar a produção, o consumo e a distribuição da riqueza e dos recursos naturais.

Uma pergunta importante precisa ser feita por cidadãos do mundo inteiro e, em especial, pelas igrejas e pelos cristãos: Será que podemos chamar de progresso um modelo de desenvolvimento que aumenta a riqueza de alguns enquanto destrói florestas e as condições de vida de muitos? É progresso a destruição do meio ambiente que está levando à extinção milhares de seres vivos da fauna e da flora?

A fé cristã é chamada a colocar diante de Deus essas e outras perguntas semelhantes, porque a criação não é um estoque infinito colocado à disposição do mercado. Ela é a casa comum da vida, pertence ao Senhor e nos foi confiada para ser cultivada e guardada.

6. AS CONSEQUÊNCIAS: QUANDO A TEIA DA VIDA COMEÇA A SE ROMPER

Não precisamos voltar a viver como se estivéssemos na Idade da Pedra, sem recursos importantes que garantem a vida, a segurança, o conforto e a qualidade de vida. Mas algo precisa ser feito, pois o consumismo exagerado não termina no momento da compra de um determinado produto. Por trás de cada produto existe uma cadeia de extração, produção, transporte, consumo e descarte. Quanto mais produzimos e consumimos sem respeitar os limites ecológicos, maior é a pressão sobre os sistemas naturais que sustentam a vida. Retiramos cada vez mais minérios, madeira, água, peixes, combustíveis fósseis e outros recursos naturais. Transformamos florestas em áreas agrícolas e urbanas, alteramos rios, degradamos solos, destruímos habitats e ocupamos territórios que antes pertenciam a inúmeras outras espécies.

Ao mesmo tempo, produzimos quantidades crescentes de resíduos. Plásticos, produtos químicos, lixo eletrônico, esgoto e outros rejeitos chegam aos rios, aos mares e aos solos. A queima de carvão e petróleo acrescenta grandes quantidades de gases de efeito estufa à atmosfera, contribuindo para o aquecimento do planeta e para alterações no sistema climático. Os oceanos também são profundamente afetados pelo aquecimento, pela absorção de dióxido de carbono e pela poluição.

Mas talvez uma das consequências mais graves seja aquela que frequentemente percebemos menos: a ruptura da própria teia da vida. O desmatamento e a destruição de habitats provocam a redução das populações de animais e plantas. A exploração excessiva, a poluição, as mudanças climáticas e outras pressões aumentam o risco de extinção de espécies. Quando uma espécie desaparece, não desaparece apenas “mais um animal” ou “mais uma planta”. Desaparece uma parte de uma rede de relações construída ao longo de milhares ou milhões de anos.

A vida funciona em relações. Abelhas e outras espécies polinizam plantas. Florestas regulam água e clima. Manguezais protegem áreas costeiras e servem de berçário para inúmeras espécies. Microrganismos participam da fertilidade do solo. Oceanos influenciam o clima e abrigam uma enorme diversidade de vida. Rios transportam nutrientes e sustentam comunidades humanas e não humanas. Cada elemento participa de processos maiores que não controlamos inteiramente e dos quais dependemos profundamente. Por isso, quando rompemos uma parte da teia, as consequências podem se espalhar para muitas outras. O desmatamento pode contribuir para a perda de biodiversidade, alterar o ciclo da água, degradar o solo e agravar mudanças climáticas. A degradação do solo pode contribuir para a desertificação, enquanto a escassez de água e a redução da produtividade agrícola podem aumentar a insegurança alimentar.

A teia da vida nos lembra que quase nada na criação existe de maneira isolada. O que vemos é apenas uma pequena parte de relações muito maiores que normalmente não percebemos. Uma árvore não é apenas uma árvore: ela participa do ciclo da água, oferece abrigo e alimento, contribui para a fertilidade do solo, influencia o clima e se relaciona com inúmeros outros seres vivos. Um rio não é apenas água correndo entre suas margens: ele sustenta plantas, animais, comunidades, ecossistemas e pessoas. Aprender a contemplar a criação é também aprender a perceber essas relações invisíveis ou pouco percebidas. É passar de um olhar que apenas vê coisas para um olhar que enxerga relações.

E isso tem uma profunda dimensão espiritual. Quando contemplamos uma paisagem, uma árvore, um rio, uma ave ou mesmo um pequeno inseto, podemos aprender a perguntar não apenas “o que é isso?” ou “para que isso serve?”, mas também: “Com o que isso se relaciona?”; “De que depende?”; “O que depende disso?”; “Como Deus sustenta essa vida?”. A contemplação, portanto, pode nos ensinar a perceber que fazemos parte de uma realidade muito maior do que nós mesmos. Contemplar a criação é aprender a enxergar a teia da vida.

E tudo isso, de um jeito ou de outro, nos afeta, tal como afeta e adoece o planeta inteiro. A crise ecológica é também uma crise humana. A fome, a escassez de água, as doenças relacionadas a condições ambientais, as perdas agrícolas, os desastres climáticos, os deslocamentos populacionais e a perda de meios de subsistência atingem pessoas e populações concretas. E, novamente, a injustiça aparece: via de regra, os que possuem menos recursos para se proteger frequentemente são os que possuem menos responsabilidade histórica pelo padrão de consumo que contribuiu para agravar a crise.

É por isso que não podemos falar de cuidado da criação sem falar de justiça e de espiritualidade. Mulheres e homens, cidadãs e cidadãos da Terra e do Reino de Deus, têm de ter fome e sede de justiça (Mateus 5.6), uma justiça que precisa exceder em muito a dos escribas e fariseus (Mateus 5.20), pois o Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Romanos 14.17) e é lugar de justos(as) e pacificadores(as) (Mateus 5.6,9). Os filhos e filhas de Deus têm de se manifestar e agir diante da criação que sofre, pois, “a criação aguarda, com grande expectativa, a manifestação dos filhos de Deus” (Romanos 8.19), e toda a criação “geme e suporta angústias até agora” (Romanos 8.22).

Quando uma floresta é destruída, não perdemos somente árvores. Quando um rio é contaminado, não perdemos somente água. Quando uma espécie desaparece, não perdemos somente um animal ou uma planta. Quando o clima se desequilibra, não perdemos somente alguns graus de temperatura. Perdemos relações. Perdemos possibilidades de vida. Perdemos partes da teia da qual nós mesmos fazemos parte. E talvez seja justamente aqui que Romanos 8 adquira uma força ainda maior. Paulo escreve que “toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Rm 8.22).

A imagem é de uma criação que geme como quem sente dores de parto. Não é apenas uma metáfora sobre sofrimento. É também uma imagem de esperança e transformação. A criação geme porque algo está profundamente errado, mas ela também espera. Espera pela manifestação dos filhos e filhas de Deus. Essa espera coloca diante da Igreja uma responsabilidade: que tipo de filhos e filhas de Deus estamos sendo diante de uma criação que geme?

O comissionamento divino de cuidar da criação, especialmente diante da grave crise ambiental que está batendo às nossas portas e tem nos afetado, nos obriga a redescobrir algo que a Bíblia nunca esqueceu: a vida é uma teia de relações. E cuidar da criação é cuidar dessa teia — inclusive da parte dela que somos nós mesmos. Cuidar do meio ambiente implica também cuidar de pessoas.

7. A ECOESPIRITUALIDADE: A CRIAÇÃO PODE SE TORNAR LUGAR DE ORAÇÃO, CONTEMPLAÇÃO E GRATIDÃO

Se a ecoteologia nos ajuda a pensar bíblica e espiritualmente a nossa relação com a criação, a ecoespiritualidade nos ajuda a vivenciar essa relação. Não basta saber, é preciso dobrar nossos joelhos diante do Senhor, abrir o coração para essa causa e colocar o nosso coração, nossa paixão, energias e serviços por ela e por Ele. Isso implica em aprender novamente a olhar para a criação não apenas com os olhos de quem pergunta: “Quanto posso tirar daqui?” ou “O que eu tenho com isso?”, mas com os olhos de quem pergunta: “O que Deus está me ensinando através disso?” e “Como posso cuidar do mundo que Deus confiou a todos(as) nós e também a cada um(a) de nós?”.

A ecoespiritualidade não transforma a natureza em Deus. Ela reconhece a criação como obra de Deus, lugar de sua ação e testemunho de sua bondade, sem confundir o Criador com aquilo que Ele criou.  Na Bíblia, Jesus afirma que “os olhos são a lâmpada do corpo”(Mateus 6.22-23), ensinando que a maneira como olhamos para o mundo revela e também influencia aquilo que habita em nosso interior. Olhar não é apenas enxergar, mas perceber, interpretar e deixar-se tocar, se afetado, ser alcançado. Por isso, contemplar a natureza com olhos atentos e agradecidos pode nos ajudar a superar um olhar utilitarista, percebendo a criação não apenas como recurso, mas como comunidade da vida da qual também fazemos parte. Um olhar contemplativo pode despertar em nós admiração, gratidão, reverência e responsabilidade pelo cuidado da criação. Ver é perceber com os olhos; enxergar é olhar com atenção, compreender e perceber além daquilo que está diante de nós. contemplar é enxergar com atenção, profundidade e encantamento, permitindo que aquilo que vemos também transforme o nosso olhar. Encantamento, aqui, no sentido de é deixar-se tocar, se emocionar, admirar e maravilhar pela beleza e pela vida da Criação de Deus, reconhecendo nela sua presença e bondade. O próprio Deus Criador fez isso: no sétimo dia da criação cessou o seu trabalho criador e passou a contemplar e a deliciar-se com tudo o que havia criado: “Tudo é muito bom!”.

A tradição cristã sempre reconheceu a oração, a adoração, a leitura das Escrituras, a comunhão e o serviço como práticas que nos aproximam de Deus. Podemos recuperar também uma espiritualidade que aprende a contemplar a criação. Assim cada ser e elemento da criação passam a ser reconhecidos como parte da criação de Deus, participante da grande teia da vida e testemunha da criatividade e da graça de Deus. Uma caminhada pode tornar-se oração. Plantar uma árvore pode tornar-se um ato de esperança. Cuidar de uma nascente pode tornar-se serviço a Deus. Recuperar uma área degradada pode tornar-se um ato de arrependimento. Proteger um animal pode tornar-se uma expressão de misericórdia. Reduzir o desperdício pode tornar-se disciplina espiritual. Compartilhar recursos pode tornar-se prática de amor.

O cuidado da criação não substitui a oração, a adoração, a leitura das Escrituras ou a comunhão. Ele dá concretude a uma fé que se expressa também no modo como tratamos a vida que Deus nos confiou. Nesse sentido, o cuidado da criação pode ser compreendido como uma prática espiritual e uma expressão concreta da graça recebida.

Na tradição wesleyana, como veremos um pouco adiante, isso encontra uma ressonância particularmente forte: a graça de Deus não apenas perdoa; ela transforma a vida e produz amor concreto. Cuidamos dela porque fomos alcançados pelo amor de Deus.

8. CUIDAR DA CRIAÇÃO É TAMBÉM AMAR O PRÓXIMO: PARTE DA MISSÃO DA IGREJA

Quando uma nascente de rio é contaminada, quem sofre primeiro geralmente são os mais vulneráveis. Quando o clima se torna mais extremo, quem possui menos recursos sofre mais. Quando uma floresta é destruída, comunidades inteiras podem perder água, alimento, território e condições de sobrevivência. Quando o ar é poluído, a degradação ambiental transforma-se em sofrimento humano. Claro, todos sofrem, mas os que vivem nas periferias e encostas são os que mais sofrem. Por isso, cuidar da criação e do meio ambiente é também cuidar das pessoas.

A Igreja que proclama “Ame o seu próximo” precisa perguntar: Que tipo de mundo estamos deixando para o nosso próximo? E mais: Como podemos falar do amor de Deus enquanto somos indiferentes à destruição das condições concretas que sustentam a vida? A missão da Igreja não pode limitar-se a conduzir pessoas para dentro do templo. Ela precisa participar da missão de Deus no mundo que Deus ama.

Isso muda e alarga profundamente nossa compreensão de missão. Evangelização, discipulado, oração, adoração, educação, ação social, defesa da vida e cuidado da criação não precisam ser compartimentos isolados. Tudo pode fazer parte da mesma missão: participar daquilo que Deus está fazendo para reconciliar, restaurar e sustentar a vida. A Igreja anuncia o Reino de Deus não apenas com palavras e as bênçãos e promessas para o mundo vindouro, para o pós-morte. Ela também anuncia o Reino quando, no poder do Espírito Santo (Atos 1:8), testemunha quando protege a vida, restaura relações, combate a destruição, promove justiça e cuida da criação. A mensagem cristã passa a ser: Deus ama a vida. Deus ama sua criação. Deus nos chama a participar desse amor.

E então o cuidado ambiental deixa de ser uma atividade periférica da Igreja — algo que fazemos “se houver tempo” — e passa a ser uma consequência natural da vida de fé e de fé na vida.

9. O CUIDADO DA CRIAÇÃO FAZ PARTE DA MISSÃO DA IGREJA METODISTA

É importante perceber que a preocupação com a criação não é algo estranho à tradição metodista nem uma preocupação que a Igreja tenha simplesmente incorporado recentemente por influência dos movimentos ambientais. O cuidado com a criação já está presente nos documentos que orientam oficialmente a missão da Igreja Metodista no Brasil.

Já no século XVIII, John Wesley demonstrou uma sensibilidade para com a criação surpreendentemente avançada para seu tempo. “A grande lição que nosso bendito Senhor inculca aqui… é que Deus está em todas as coisas, e que devemos contemplar o Criador através do espelho de cada criatura; que não devemos usar nem olhar para coisa alguma como separada de Deus… aquele que permeia e vivifica toda a estrutura da criação e é, em verdadeiro sentido, a alma do universo” (tradução livre), ele escreveu no seu texto/sermão Sobre o Sermão do Monte – Parte 3. A ideia de “ver o Criador no espelho de cada criatura” sustenta justamente a noção de que contemplar a Criação pode se tornar uma experiência de reconhecimento da presença, sabedoria, bondade e glória de Deus. E isso ajuda a mostrar que a preocupação ecológica não é algo estranho ou simplesmente importado de movimentos ambientais contemporâneos, mas possui raízes importantes na própria espiritualidade wesleyana.

No sermão A Libertação Geral (The General Deliverance), baseado em Romanos 8:19-22, Wesley afirmava que o amor e a misericórdia de Deus alcançam todas as suas criaturas, incluindo os animais e toda a criação. Para ele, o sofrimento da criação não era indiferente a Deus, e a redenção anunciada em Cristo não se restringia à humanidade, mas apontava para a restauração de toda a criação. Wesley parte da bondade original da criação, passa pela corrupção introduzida pelo pecado humano e chega à esperança de que também os animais e a criação não humana participarão da libertação futura.

A afirmação de Wesley de que “a sua misericórdia está sobre todas as suas obras significa que Deus não é indiferente a nenhuma de suas criaturas: ele cuida, sustenta e deseja o bem de tudo aquilo que criou. Por isso, quando Wesley interpreta Romanos 8 e afirma que a criação será libertada da “escravidão da corrupção” para a “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”, ele apresenta uma esperança de restauração cósmica: a salvação de Deus alcançará também a criação ferida pelo sofrimento, pela corrupção e pela morte. Assim, cuidar da criação e dos seres vivos torna-se também uma expressão da misericórdia que Deus derrama sobre todas as suas obras.

Embora Wesley tenha sido formado em um ambiente anglicano profundamente marcado pela Reforma e por elementos da tradição reformada, sua visão da redenção de toda a criação não deriva diretamente de Calvino, mas nasce do diálogo entre as Escrituras, a tradição cristã, a observação do mundo criado e os debates filosófico-científicos de seu tempo. Ao interpretar Romanos 8 de maneira bastante ousada, Wesley apresenta uma visão na qual a criação não é apenas o cenário da salvação humana, mas participa também da esperança de libertação e restauração. Em A Libertação Geral, essa esperança alcança inclusive os animais, mostrando que, para Wesley, a misericórdia de Deus se estende a todas as suas obras.

Mas há mais: o Plano para a Vida e a Missão da Igreja (PVM), documento fundamental para a compreensão da missão metodista, já afirmava que a Igreja deve apoiar, incentivar e participar de iniciativas em defesa da preservação do meio ambiente. No Plano Nacional Missionário (PNM) para o quinquênio 2017-2021, o cuidado ambiental apareceu como a 5ª ênfase missionária, com a proposta de implementar ações que envolvessem a Igreja no cuidado e preservação do meio ambiente. O documento reconhecia que o meio ambiente e seus recursos naturais estavam ameaçados pela intervenção humana, pelas mudanças climáticas e por fenômenos que provocavam desastres, sofrimento e mortes. Por isso, afirmava que a atuação missionária metodista deveria apoiar, incentivar e participar de iniciativas de cuidado e preservação ambiental.

Mais do que fazer uma declaração genérica, no Plano Nacional Missionário (PNM) vigente, para o quinquênio 2022-2027, estabelece objetivos concretos. Propõe uma pauta de estudos bíblico-teológicos fundamentada na Palavra de Deus e na herança teológica wesleyana, capaz de promover consciência ambiental, responsabilidade social e ações práticas de educação ecológica, defesa e preservação dos ecossistemas. Também determina que a Igreja enfatize que o projeto de Deus não é individualista, mas coletivo, envolvendo toda a criação, e que cada metodista deveria assumir responsabilidade pessoal pela preservação do meio ambiente.

Isso é teologicamente muito significativo. A Igreja Metodista não afirmou em seus documentos aprovados por seu Concílio Geral, seu órgão máximo deliberativo, simplesmente dizendo: “Precisamos preservar o planeta porque existe uma crise ambiental”. Ela estava afirmando que o cuidado da criação pertence à própria compreensão cristã da missão, especialmente a metodista.

Essa perspectiva ganhou uma expressão especialmente forte em 2019, quando a Igreja Metodista adotou como tema nacional: “Discípulas e discípulos nos caminhos da missão cuidam do meio ambiente.” A Carta Pastoral publicada pelo Colégio Episcopal naquele período explicou que o uso sustentável dos recursos naturais e a preservação da fauna e da flora possuem um fundamento bíblico-teológico relacionado à mordomia cristã da criação. O documento também recuperou a tradição wesleyana e apresentou o cuidado ambiental como parte da missão da Igreja.

A própria Igreja Metodista afirmou naquele momento que era necessário denunciar os pecados cometidos contra o meio ambiente e defender a natureza como parte da criação de Deus. A preservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável foram apresentados como responsabilidades missionárias. Portanto, existe uma continuidade muito clara entre aquilo que estamos chamando aqui de ecoteologia e ecoespiritualidade e aquilo que a própria Igreja Metodista já reconheceu oficialmente.

No Plano Nacional Missionário 2023-2027, elaborado a partir das decisões do 21º Concílio Geral, o cuidado ambiental não desapareceu. Pelo contrário, tornou-se a 6ª ênfase missionária, agora formulada de maneira ainda mais abrangente: “Intensificar o cuidado amoroso de toda a criação.” E ao menos no PNM 2023-2027 estava proposto que nesse ano de 2026 o tema nacional da Igreja, lamentavelmente não bem desenvolvido em todos os níveis da administração da igreja, fosse “Discípulos e Discípulas nos caminhos da missão cuidam de toda criação”. Felizmente o Departamento Nacional de Escola Dominical produziu um ótimo material sobre a temática do ano para ser usado por todas as classes de Escola Dominical, das crianças menores e aos adultos, disponibilizando-o gratuitamente no site da Igreja Metodista.

Mas ao menos nos documentos a mudança de linguagem é significativa. O PNM anterior falava em “cuidado e preservação do meio ambiente”. O novo plano fala em “cuidado amoroso de toda a criação”. Essa formulação aproxima-se muito da perspectiva que estamos desenvolvendo neste estudo. Não se trata apenas de preservar uma coisa chamada “meio ambiente”, como se nós estivéssemos fora dela. Trata-se de reconhecer que somos parte da criação e que toda a criação está incluída no horizonte do amor e do propósito de Deus.

O PNM 2023-2027 mantém objetivos concretos: estabelecer, a partir da Bíblia e da herança teológica wesleyana (especialmente os escritos de John Wesley em seus sermões e comentários ao texto bíblico), estudos que promovam consciência ambiental, responsabilidade social e ações práticas; desenvolver educação ecológica e processos de defesa e preservação dos ecossistemas; enfatizar nos documentos da Igreja, nas revistas da Escola Dominical e nos estudos bíblicos que o projeto de Deus é coletivo e envolve toda a criação; conscientizar cada metodista de seu compromisso com o meio ambiente e de sua responsabilidade em ações de preservação; e compreender o cuidado da criação como responsabilidade de toda a comunidade de fé.

Assim, o documento oficial da Igreja Metodista oferece uma base muito importante para aquilo que estamos propondo: a educação ecológica não deve estar apenas nas escolas ou em organizações ambientais; ela também deve estar na Escola Dominical, na pregação, nos estudos bíblicos, nos grupos de discipulado, na formação dos membros e na ação missionária da Igreja. E também na formação dos pastores e pastoras da Igreja, e nos encontros pastorais que regularmente acontecem.

Isso significa que uma igreja local pode perguntar: Como nossa fé influencia nossa maneira de consumir? Como tratamos a água? Como lidamos com o lixo? Como cuidamos das árvores e dos espaços verdes? Como nos relacionamos com os animais? Como enfrentamos a poluição? Como educamos nossas crianças e jovens para uma relação responsável com a criação? Como nossa comunidade pode participar da defesa da vida em seu território?

Essas não são perguntas que deveriam ser estranhas à missão da Igreja. Elas estão de acordo com aquilo que os próprios documentos metodistas já afirmam. Em conexão profunda com a tradição wesleyana, a  Igreja Metodista entende que a missão envolve santidade pessoal e social, e que a graça de Deus produz uma vida transformada. Se a criação é obra de Deus e se somos chamados a amar o próximo, então o cuidado das condições que sustentam a vida não pode ser indiferente à fé.

Por isso, podemos dizer que existe uma sequência coerente: Deus cria → Deus ama sua criação → Deus nos chama a cuidar dela o pecado quebra a harmonia com a criação e o meio ambiente, tal como quebrou a harmonia com Deus e o nosso próximo →  Jesus nos reconcilia com Deus e com o próximo (e com o meio ambiente e a criação!) → o Espírito nos transforma → a Igreja participa da missão de Deus → e essa missão inclui o cuidado da vida e de toda a criação.

A própria estrutura do PNM 2023-2027 reforça essa compreensão:  cuidado da criação aparece ao lado de temas como evangelização, discipulado, comunhão, enfrentamento do racismo, proteção de crianças e adolescentes e revitalização da Igreja. Ou seja, não é apresentado como uma atividade secundária ou opcional, mas como uma das ênfases missionárias nacionais da Igreja Metodista para todos os dias onde quer que haja comunidades metodistas e onde quer que os metodistas individualmente vivam e atuem. A Igreja, afinal, são as pessoas. Onde há um metodista, ali a Igreja Metodista e de Jesus está presente.

E isso nos permite fazer uma afirmação importante: uma Igreja Metodista que cuida da criação não está abandonando ou desviando da sua missão para dedicar-se também meio ambiente. Ela está levando a sério uma dimensão da própria missão que a Igreja Metodista já reconheceu oficialmente. Mais ainda: o desafio agora é passar do documento à prática.

Não basta possuir uma ênfase missionária sobre a criação apenas em documentos. É preciso que ela alcance a pregação, a Escola Dominical, a liturgia, os grupos de discipulado, a educação cristã, a ação social, a administração dos prédios, o uso da água e da energia, o tratamento dos resíduos (lixo), as relações com a comunidade e os projetos missionários. Em outras palavras, o cuidado da criação precisa deixar de ser apenas uma ênfase do Plano Nacional Missionário e tornar-se uma cultura da Igreja.

10. UMA NOVA MANEIRA DE OLHAR PARA A TERRA

Talvez seja essa a grande conversão ecológica que precisamos experimentar: passar de uma visão da terra como mero objeto para uma visão da terra como comunidade de vida, como nossa Casa comum.  Deixar de pensar: que “a natureza existe para nós” e a reconhecer que “nós existimos dentro da criação de Deus” e devemos ter uma relação respeitosa de cuidado, interação e mutualidade com ela: ela nos serve e nós a servimos. Pois não somos donos da terra, somos filhos e filhas de Deus, mas por projeto de Deus, também somos filhos e filhas da terra. Não somos independentes da criação, somos parte dela, e dependemos mais dela do que ela depende de nós. A criação sobrevive sem nós, mas nós não existimos sem ela.

E justamente porque recebemos consciência, inteligência, liberdade e capacidade de decisão, recebemos também uma responsabilidade que os demais seres não podem assumir da mesma maneira. Somos, por assim dizer, a parte consciente da criação chamada a cuidar da própria casa, em grego, “oikos”, traduzida para o português como “eco” de ecologia, de ecoteologia, de ecoespiritualidade.

OS 10 MANDAMENTOS ECOLÓGICOS PARA A IGREJA

Para a instituição, a congregação, as famílias e os/as discípulos/as

I – Amarás a Deus sobre todas as coisas, reconhecendo a Criação como expressão de sua graça e de sua glória e como dom confiado à nossa responsabilidade;

II – Contemplarás a Criação com admiração, reverência e encantamento, reconhecendo na beleza, na diversidade e na abundância da vida os sinais da presença e da glória de Deus;

III – Agradecerás a Deus pelo dom da Criação, reconhecendo que a Terra e todas as formas de vida não existem apenas para nosso benefício, mas possuem valor diante do Criador;

IV – Reconhecerás que toda a vida está interligada, compreendendo que fazemos parte da teia da vida e que a destruição de uma parte da Criação repercute sobre toda a comunidade dos seres vivos, inclusive sobre a vida humana;

V – Cuidarás, defenderás e preservarás a natureza e toda a Criação, não apenas com palavras, mas por meio de teus atos, escolhas, recursos e modo de viver;

VI – Trabalharás pela preservação da atmosfera, das florestas, dos oceanos, dos pampas, do Cerrado, do Pantanal e de todos os biomas, pois tua vida dependerá deles para que tenhas clima adequado, ar puro, chuvas, terra fértil, alimento e biodiversidade;

VII – Não pecarás contra a Criação, contaminando o ar, os rios, os mares e os solos, mas te comprometerás com a redução das emissões de CO₂, a substituição dos combustíveis fósseis e o controle do uso de substâncias tóxicas, como mercúrio e agrotóxicos;

VIII – Não furtarás da Terra seus recursos e sua capacidade de regeneração, explorando-a de modo predatório ou condenando o solo à esterilidade, nem permitirás que o consumismo desenfreado transforme a Criação em simples objeto de exploração;

IX – Não levantarás falso testemunho, dizendo que o lucro e o progresso justificarão crimes contra o meio ambiente ou que a destruição da natureza é um preço inevitável do desenvolvimento, enquanto os mais vulneráveis são os primeiros a sofrer suas consequências;

X – Honrarás a Deus cuidando da vida e promovendo a justiça ecológica, fazendo o que estiver ao alcance de tuas mãos junto de tua família, comunidade, escola, ambiente de trabalho e igreja, e lutando por políticas públicas que protejam a Criação, garantam a sustentabilidade e assegurem condições dignas de vida para todas as pessoas e para toda a comunidade da vida.

Certamente muitos de nós vamos pensar: “Mas… De que adianta eu cuidar da natureza se existem grandes empresas e governos que destroem muito mais?”. É verdade que uma pessoa, uma família ou um pequeno grupo não conseguirá, sozinho, deter o desmatamento, a poluição industrial, a exploração predatória dos recursos ou as emissões em larga escala; porém, isso não torna o nosso cuidado inútil, não significa que nossas atitudes não tenham valor. Cuidar da Criação começa também com aquilo que está ao nosso alcance: quando economizamos água e energia, evitamos desperdícios, cuidamos dos animais, reduzimos o lixo, plantamos uma árvore ou ajudamos a cuidar de um lugar, estamos fazendo a nossa parte. E podemos fazer ainda mais quando nos juntamos a outras pessoas, à nossa família, à Igreja e à comunidade para cobrar mudanças das empresas e dos governos. Olhemos para as histórias bíblicas e veremos que grandes movimentos aconteceram começando por uma ou um pequeno grupo de pessoas que responderam com amor e fidelidade ao chamado e à missão dados por Deus a eles.

Considerando que a Criação é expressão da graça e da glória de Deus, cuidar dela é uma forma de fidelidade, testemunho e resistência: os hábitos pessoais educam, as famílias formam novas consciências, as comunidades criam alternativas e, sobretudo, a Igreja pode unir cuidado cotidiano à denúncia profética, à organização comunitária, à participação cidadã e à defesa de políticas públicas e mudanças estruturais. O desafio cristão, portanto, não é escolher entre mudar hábitos individuais ou enfrentar grandes estruturas, mas fazer as duas coisas, porque a responsabilidade pelo cuidado da Criação é pessoal e coletiva, local e global, espiritual e política. Não precisamos escolher entre cuidar das pequenas coisas e lutar por grandes mudanças: precisamos fazer as duas coisas.

Há uma antiga história sobre um menino que caminhava por uma praia onde milhares de estrelas-do-mar haviam sido lançadas pela maré e estavam morrendo na areia. Ele as recolhia uma a uma e as devolvia ao mar. Alguém lhe perguntou: “Por que você faz isso, se são milhares e não poderá salvar todas?”. O menino pegou mais uma estrela-do-mar, colocou-a de volta na água e respondeu: “Para esta, faz toda a diferença.” Outra história fala de um beija-flor que, diante de um grande incêndio na floresta, carregava em seu pequeno bico algumas gotas de água para tentar apagar o fogo. Ao ser questionado sobre a inutilidade de seu esforço diante de um incêndio tão grande, respondeu: “Estou fazendo a minha parte.” As duas histórias nos lembram que nossa responsabilidade não desaparece porque o problema é maior do que nossas forças. É verdade que uma pessoa, uma família ou uma pequena comunidade não conseguirá, sozinha, enfrentar a destruição causada por grandes empresas, governos e estruturas econômicas. Mas cada vida cuidada importa, cada atitude educa, cada escolha testemunha e cada ação pode se unir à ação de outras pessoas. Por isso, não cuidaremos da Criação porque acreditamos que conseguiremos salvá-la sozinhos, mas porque ela é dom de Deus, expressão de sua graça e de sua glória. Para a vida que está diante de nós, faz toda a diferença; e, junto com outros, faremos a nossa parte para transformar aquilo que, sozinhos, jamais conseguiríamos transformar.

11. E TUDO ISSO APONTA PARA CRISTO

A ecoteologia e a questão ecológica não terminam ou se resumem ao texto bíblico de Gênesis. O mesmo Deus que cria é o Deus que, em Cristo, entra na própria criação. Por isso, uma ecoteologia cristã não pode ficar apenas na contemplação da natureza, na denúncia da crise ambiental ou no discurso da defesa da vida. Ela precisa chegar a Cristo. É em Cristo que a criação, a humanidade, a redenção e a esperança de uma nova criação encontram sua unidade.

João afirma: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). O cristianismo não anuncia um Deus que despreza a matéria ou que considera o mundo criado como algo inferior e descartável, como acontece no platonismo, onde o corpo era uma punição para o que seria para ele algo equivalente a alma. A espiritualidade cristã e bíblica anuncia o Deus que, em Jesus, assume a matéria, entra na história e participa concretamente da vida da criação. Jesus nasce, cresce, respira, come, bebe, caminha, toca pessoas, abraça, trabalha, transpira, sofre, contempla sementes, árvores, aves, vinhas, campos e águas. Seu ministério acontece no mundo concreto da criação. Deus não salva a humanidade retirando-a da criação; em Cristo, Deus entra na criação para reconciliar consigo mesmo todas as coisas.

É justamente aqui que Colossenses 1.15-20 se torna fundamental. Paulo apresenta Cristo como “a imagem do Deus invisível”, aquele por meio de quem “foram criadas todas as coisas”, as que estão nos céus e as que estão na terra, as visíveis e as invisíveis (Cl 1.15-16). Cristo não aparece apenas como alguém que chega depois da criação para resolver o problema do pecado humano. Ele está no centro da própria criação. “Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16). Nele, todas as coisas subsistem (Cl 1.17) e, por meio dele, Deus deseja “reconciliar consigo mesmo todas as coisas” (Cl 1.20). Não apenas algumas coisas. Todas as coisas. Isso nos permite perceber uma sequência fundamental para uma teologia cristã da criação.

A fé cristã nos permite contemplar a história da criação como uma grande obra de Deus: Deus cria, e a criação vem dele, pertence a ele e é sustentada por ele; Cristo entra na criação e vem ao encontro de uma criação que geme sob o peso do pecado e da destruição; Cristo reconcilia todas as coisas, pois a criação encontra nele seu princípio, seu propósito e sua esperança de redenção; o Espírito transforma e sustenta a vida, pois Deus promete: “Envias o teu Espírito, e eles são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104.30); e, finalmente, Deus conduz a criação para sua plenitude, quando toda a criação será reconciliada e encontrará sua plenitude em Deus.

Por isso, cuidar da criação não é apenas acrescentar uma preocupação ambiental à fé cristã. É levar a sério aquilo que Deus fez, aquilo que Cristo assumiu e aquilo que Deus deseja reconciliar. Se todas as coisas foram criadas por meio de Cristo e para Cristo, e se em Cristo Deus deseja reconciliar consigo todas as coisas, não podemos tratar nenhuma parte da criação como se fosse espiritualmente irrelevante. A defesa e proteção das florestas, rios, oceanos, baleias, lobo-guará, etc, a luta pela justiça climática e contra o aquecimento global, bem como a questão do combate ao racismo e à fome devem ser causas urgentes e preciosas para a igreja, para cada cristão.

Por isso, cuidar da criação é mais do que uma preservação cidadã e necessária do meio ambiente. Certamente também é uma maneira concreta de dizer a Deus: “Senhor, aquilo que tu amas, nós também queremos aprender a amar.” E uma maneira concreta de dizer ao mundo: “Onde houver vida ameaçada, ali também está uma dimensão da nossa missão.”

A ecoespiritualidade, então, não é uma espiritualidade paralela à vida cristã e nem uma espiritualidade alheia à vida cristã e presente em outras culturas e práticas religiosas não cristãs, como por exemplo, as dos diversos povos originários (indígenas) de toda a América Latina, onde a harmonia e o respeito a criação e ao meio ambiente fazer parte da cultura e da vida do dia a dia.  A famosa e atemporal “Carta do Chefe Seattle”expressa a resposta indígena à proposta do governo dos Estados Unidos de adquirir suas terras: para ele, a terra não era uma mercadoria que pudesse simplesmente ser comprada, pois era sagrada e inseparável da vida, da memória e da identidade de seu povo. A mensagem também advertia que, se os brancos de algum modo acabassem por ocupar aquelas terras, deveriam cuidar delas, respeitar os animais e preservar a natureza para as futuras gerações.

Nós cristãs e cristãos, mais do que quaisquer outros povos e grupos religiosos da terra, devemos aprender a viver a fé dentro da grande comunidade da criação, olhando para a terra e não enxergar apenas recursos, mas dádivas; não apenas matéria, mas vida; não apenas propriedade, mas responsabilidade; não apenas natureza, mas criação fruto da multiforme graça de Deus. Pois só assim poderemos de fato ouvir novamente o gemido de Romanos 8 não como um ruído distante, mas como um chamado de Deus. O Deus vivo que chama seus filhos e suas filhas a se manifestarem — não apenas em palavras, mas em uma vida que cuide, proteja, restaure e celebre aquilo que Deus criou e que lhe pertence.

E mais, a história da salvação não termina apenas com a igreja chegando ao céu. A esperança bíblica aponta para “novos céus e nova terra” (Ap 21.1), para a Nova Jerusalém que desce do céu (Ap 21.2) e para a presença de Deus no meio de seu povo. A Bíblia começa com um jardim, o Éden, e termina com uma cidade-jardim, a nova Jerusalém, onde o rio da água da vida e a árvore da vida aparecem novamente (Ap 22.1-2). A criação não é simplesmente descartada, ela é redimida e renovada. O Deus Trino que promete a nova criação não nos chama à indiferença diante da criação presente.

Por isso, cuidar da criação é mais do que uma preservação cidadã e necessária do meio ambiente. É uma maneira concreta de participar da missão reconciliadora de Deus. É dizer, com nossa vida: “Senhor, aquilo que tu criaste e amas, nós também queremos aprender a amar.” E é anunciar ao mundo: onde houver vida ameaçada, ali também existe uma dimensão e um desafio da missão de Cristo.

12. TAREFAS PARA CASA E PARA ENRIQUECER O NOSSO TESTEMUNHO E SERVIÇO ONDE DEUS NOS LEVANTOU

Por fim, esse texto-cartilha termina com duas propostas. Reúna um grupo, um grupo societário, um ministério, e avalie implementar alguma ação ecológica (abaixo já há algumas sugestões) a partir da sua igreja ou da vizinhança, mas antes, há um  “dever de casa”, a outra tarefa: fazer na ótica da ecoteologia e da ecoespiritualidade desse texto a leitura dos textos bíblicos abaixos elencados pelo pastor metodista Luiz Carlos Ramos para um possível e o necessário encantamento e reencantamento da gente com a criação de Deus, publicados originalmente no texto Ecoteologia: do que estamos falando, afinal?  Ele diz: Um primeiro encantamento pode ocorrer por meio da releitura de determinados textos sagrados amplificados pela lente da ecoteologia. As seguintes passagens, entre outras, merecem uma releitura atenta, honesta, transparente, crítica e desafiadora:

  1. O Criador, a Criação e as criaturas (Gn 1; Jó 38; Sl 104; Dt 22).
  2. O jardim e o jardineiro (Gn 2; Jo 20).
  3. O Dilúvio: preservação da vida humana e da vida selvagem (Gn 6-9).
  4. Legislação socioambiental em tempos de paz e em tempos de guerra: a preservação da flora e da fauna (Dt 20).
  5. A viúva e o órfão: principais vítimas da injustiça socioambiental (Dt 24; Lv 19; Jó 23, 24, 31; Rt).
  6. O descanso sagrado (sabbath semanal): humanos e animais domésticos (Gn 1 e 2; Êx 20).
  7. O Jubileu: descanso da terra, recuperação socioambiental (Êx 23; Lv 25).
  8. Os Salmos: a natureza glorifica sem palavras (celebrar com a Criação) (Sl 8; 19; 96; 148; 150).
  9. O Dia de YHWH (parousia): juízo e misericórdia (Is 13; Mt 21; 24, At 2.20; 1Co 5.5; 1Ts 3.13, 5.2; 2Ts 2.2… Ap 22).
  10. Deus encarnado, se faz corpo (matéria), vem à Terra: contempla as aves, os lírios, o céu avermelhado no poente, a sementes que crescem, os animais domésticos e selváticos (jumento, ovelhas, cabritos, pomba, serpente, pardais…) (Evangelhos sinóticos e João).
  11. Corpo como morada do Sagrado: templo do Espírito Santo (1Co 6).
  12. Novo Mundo de Deus (Reino): onde a vontade de Deus é feita na terra tal qual ela é feita no céu (Mt 6).
  13. A Natureza que geme: expectativa da restauração/redenção (Rm 8).
  14. Deus impede a destruição da natureza: escatologia do 1/3 (Ap 8).
  15. Novos céus e nova Terra (a Nova Jerusalém que desce do céu): a natureza redimida (Ap 21).”

                      OBS: Alguns dos textos acima foram desenvolvidos e publicados no site da Associação Horizonte de Esperança que pode ser acessado na seção colunas – https://ahe.org.br/noticias-e-artigos

SUGESTÕES DE AÇÕES ECOLÓGICAS PARA A IGREJA

Instituição, congregação, famílias e discípulos/as

O cuidado com a Criação fará parte da missão cotidiana da Igreja e não será apenas uma atividade eventual. Inspiradas na compreensão da Criação como expressão da graça e da glória de Deus e nos 10 Mandamentos Ecológicos, estas ações buscarão integrar espiritualidade, formação, cuidado, justiça e participação cidadã.

1. Espiritualidade, contemplação e gratidão pela Criação

  • Promover cultos, celebrações, orações e momentos de gratidão pela Criação.
  • Realizar caminhadas contemplativas, momentos de silêncio, observação da natureza e outras experiências que favoreçam o encantamento e o reencantamento com a vida.
  • Incentivar famílias e discípulos/as a desenvolver práticas pessoais de contemplação e gratidão pela Criação.
  • Utilizar a beleza, a diversidade e a interdependência da vida como caminhos para reconhecer a graça e a glória de Deus.
  • Incorporar a temática da Criação à liturgia, aos cânticos, à oração, à pregação e às celebrações da Igreja.

2. Formação bíblica, teológica e ecoespiritual

  • Promover estudos bíblicos, cursos, encontros e seminários sobre Criação, graça, glória de Deus, ecologia, justiça socioambiental e responsabilidade cristã.
  • Integrar a perspectiva ecológica ao discipulado, à Escola de Líderes, à Escola Dominical e aos demais espaços de formação.
  • Trabalhar com crianças, adolescentes, jovens, adultos e pessoas idosas, respeitando as características de cada faixa etária.
  • Desenvolver projetos como o EcoAção em parceria com a Associação Horizonte de Esperança, trabalhando o encantamento, o desencantamento, a justiça ecológica e o reencantamento com a Criação.
  • Estimular experiências educativas fora dos espaços da Igreja, aproximando as pessoas de parques, jardins, praias, florestas, rios e outros ambientes naturais.
  • Formar lideranças capazes de integrar o cuidado da Criação à missão, à evangelização, à ação social e ao testemunho cristão.

3. Cuidado da água, da energia, do solo e dos espaços

  • Reduzir o desperdício de água, energia, alimentos e materiais nas igrejas e nas famílias.
  • Adotar equipamentos e práticas que promovam eficiência no uso de água e energia.
  • Avaliar a possibilidade de instalação de sistemas de energia solar e outras fontes renováveis.
  • Aproveitar a água da chuva quando houver condições técnicas e sanitárias adequadas.
  • Plantar e cuidar de árvores, jardins, hortas comunitárias e espaços verdes.
  • Promover mutirões de limpeza e cuidado dos espaços da Igreja e do território onde ela está inserida.
  • Proteger o solo, evitando práticas que favoreçam sua degradação, erosão e contaminação.

4. Consumo responsável e economia circular

  • Combater a cultura do descarte e estimular uma mudança nos hábitos de consumo.
  • Priorizar a redução do consumo, seguida da reutilização, reparação, compartilhamento e reciclagem.
  • Reduzir o uso de produtos descartáveis, especialmente plásticos de uso único.
  • Implantar, quando possível, coleta seletiva e parcerias com cooperativas e catadores.
  • Estimular brechós, feiras de troca, doação, reutilização e compartilhamento de bens.
  • Utilizar o Brechó Metodista e iniciativas semelhantes como instrumentos de economia circular e também de ação missionária e social.
  • Adotar critérios de responsabilidade socioambiental nas compras e contratações da Igreja, priorizando produtos duráveis, reutilizáveis e de menor impacto ambiental.

5. Alimentação, biodiversidade e proteção da vida

  • Reduzir o desperdício de alimentos nas famílias, igrejas e eventos.
  • Incentivar hortas, cultivo de alimentos e valorização de alimentos locais e sazonais.
  • Promover uma relação responsável entre alimentação, água, solo, biodiversidade e justiça social.
  • Respeitar e proteger a fauna e a flora, combatendo abandono, maus-tratos e destruição de habitats.
  • Conhecer, valorizar e defender os biomas brasileiros, com atenção especial aos ecossistemas presentes no território onde a Igreja está inserida.
  • Promover atividades de observação e conhecimento da fauna, da flora e dos demais seres vivos, fortalecendo o encantamento e o respeito pela comunidade da vida.

6. Justiça socioambiental e cuidado com as pessoas vulneráveis

  • Reconhecer que a degradação ambiental atinge de maneira desproporcional as populações mais pobres e vulneráveis.
  • Defender o direito à água, à alimentação adequada, à moradia segura, ao ar limpo, à saúde e a um ambiente ecologicamente equilibrado.
  • Apoiar pessoas e comunidades atingidas por enchentes, deslizamentos, ondas de calor, falta de água, incêndios, insegurança alimentar e outros eventos ambientais extremos.
  • Desenvolver ações de solidariedade e prevenção em territórios sujeitos a riscos ambientais.
  • Identificar situações de injustiça ambiental presentes no território da Igreja e buscar respostas comunitárias.
  • Integrar o cuidado ambiental às ações sociais e missionárias da Igreja.

7. Clima, mobilidade e responsabilidade institucional

  • Promover ações de redução das emissões de gases de efeito estufa e de substituição progressiva dos combustíveis fósseis.
  • Incentivar, quando possível, caminhada, bicicleta, transporte coletivo e caronas solidárias.
  • Reduzir deslocamentos desnecessários e considerar critérios de mobilidade sustentável na organização das atividades da Igreja.
  • Avaliar periodicamente o consumo de água, energia e materiais, bem como a produção de resíduos da instituição.
  • Estabelecer metas ambientais progressivas para a Igreja e acompanhar seus resultados.
  • Preparar a comunidade eclesial para responder a eventos climáticos extremos e situações de emergência ambiental.

8. Missão, participação comunitária e defesa da Criação

  • Estabelecer parcerias com escolas, associações comunitárias, cooperativas, organizações ambientais, universidades e projetos socioambientais.
  • Participar de iniciativas comunitárias de proteção dos rios, praias, florestas, áreas verdes e demais espaços públicos.
  • Apoiar políticas públicas que promovam justiça socioambiental, proteção dos biomas, redução das emissões e sustentabilidade.
  • Incentivar a participação responsável dos/as discípulos/as e das famílias nas decisões que afetam o meio ambiente e a qualidade de vida da comunidade.
  • Dar testemunho profético diante de práticas que transformem a Criação em objeto de exploração, denunciando a destruição ambiental e seus impactos sobre os mais vulneráveis.
  • Fazer do cuidado da Criação parte integrante do planejamento missionário, do orçamento, dos ministérios, dos projetos sociais e da vida cotidiana da Igreja.

9. Compromissos para os diferentes níveis da vida da Igreja

O cuidado da Criação será assumido de maneira integrada:

  • Individualmente por cada pessoa: mudanças de hábitos, contemplação, gratidão, consumo responsável e cuidado cotidiano da vida.
  • Pelas famílias: educação das crianças e adolescentes, economia de água e energia, redução do desperdício, alimentação responsável, reutilização e cuidado com os animais e o ambiente.
  • Pela congregação local: culto, oração, formação, mutirões, hortas, jardins, ações comunitárias e experiências de contemplação da Criação.
  • Pela instituição Igreja: políticas ambientais, gestão responsável dos recursos, compras conscientes, energia renovável, redução de resíduos, planejamento missionário e participação na defesa de políticas públicas.
  • Pela Igreja em sua relação com a sociedade: parcerias, ação social, educação ambiental, justiça socioambiental, defesa da vida e testemunho público em favor da Criação.

COMPROMISSO FUNDAMENTAL

Todas essas ações deverão partir de uma convicção central: não cuidamos da Criação apenas porque precisamos dela para sobreviver. Cuidamos porque ela é criação de Deus, expressão de sua graça e manifestação de sua glória; porque fazemos parte da teia da vida; porque toda a vida possui valor diante do Criador; e porque o cuidado da Terra está inseparavelmente ligado ao amor a Deus, ao próximo e à própria vida.

BÊNÇÃO ECOESPIRITUAL

Que o Deus Criador nos ensine a contemplar, amar e cuidar da Criação, expressão de sua graça e de sua glória.

Que o Filho, Jesus Cristo, nos ensine a viver em comunhão com toda a vida, praticando a justiça, a misericórdia e o cuidado com os mais vulneráveis.

Que o Espírito Santo, fonte e sopro de vida, renove em nós o encantamento pela Criação e nos dê coragem para protegê-la e defendê-la.

E que o Deus Trino nos abençoe, nos guarde, nos capacite, e nos envie como cuidadores e cuidadoras da vida, agindo onde nossas mãos alcançam e orando por onde não somos capazes de alcançar, hoje e sempre. Amém.

                                                       UMA PEQUENA BIBLIOGRAFIA

IGREJA METODISTA – Revista Especial de Escola Dominical – Cuidando da Criação, 2026 –https://www.metodista.org.br/revista-especial-de-escola-dominical-cuidando-da-criacao

IGREJA METODISTA – Apresentação oficial do Tema do Ano de 2026 da Igreja Metodista – Cuidam de Toda Criação – Site Nacional da Igreja Metodista: https://www.metodista.org.br/cuidam-de-toda-criacao-confira-o-tema-do-ano-de-2026-da-igreja-metodista/

IGREJA METODISTA. Plano Nacional de Ação Missionária da Igreja Metodista: quinquênio 2023–2027. https://drive.google.com/file/d/1R7xLwjj2BDnNsNZ_B3q9iMsqNKf2LZ0/view

IGREJA METODISTA. Plano Nacional de Ação Missionária da Igreja Metodista: quinquênio 2017–2021.  https://www.metodista.org.br/content/interfaces/cms/userfiles/files/documentos-oficiais/pnm2017.pdf

IGREJA METODISTA. Departamento Nacional de Trabalho com Crianças. Caderno de Escola Bíblica de Férias 2019: crianças na missão cuidam da criação. [S.l.: s.n.], 2019.

WESLEY, John – A libertação geral (Sermão 60).  https://metodistalivre.org.br/sermoes-de-wesley/sermao-60-a-libertacao-geral

RAMOS, Luiz Carlos – Ecoteologia: do que estamos falando, afinal? . Blog Textos & Texturas – https://www.luizcarlosramos.net/ecoteologia-do-que-estamos-falando-afinal

RUNYON, Theodore. A Nova Criação: a teologia de João Wesley hoje. São Bernardo do Campo-SP: Editeo, 2002. (Cap. 6)

MOLTMANN, Jürgen; BOFF, Leonardo. Há esperança para a criação ameaçada? Petrópolis: Vozes, 2014.

BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é – o que não é. Petrópolis: Editora Vozes, 2016.

BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela Terra. Petrópolis: Editora Vozes, 2024.

ASSOCIAÇÃO HORIZONTE DE ESPERANÇA (AHE) – https://ahe.org.br

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