A Genuina Cultura do Reino na Terra é a da Corresponsabilidade, da Mutualidade e da Reciprocidade

Ao longo da maior parte da história da humanidade, homens e mulheres viveram sob a influência da cultura patriarcal, um sistema social no qual a autoridade política, econômica, familiar e religiosa concentrou-se predominantemente nas mãos dos homens, enquanto às mulheres foram atribuídos papéis considerados secundários ou subordinados. Esse modelo não surgiu porque as mulheres fossem menos capazes, mas foi sendo construído por fatores econômicos, sociais, políticos e religiosos que, ao longo de milênios, passaram a ser vistos como naturais.

Uma das explicações mais aceitas para a consolidação desse processo está relacionada à Revolução Agrícola. Com a agricultura, a domesticação de animais e a fixação das famílias na terra, surgiram as primeiras moradias permanentes. Enquanto os homens se ocupavam da defesa do território, das guerras e do trabalho agrícola mais pesado, as mulheres, especialmente durante a gestação e os primeiros anos de cuidado com os filhos, permaneceram mais próximas da casa, relativamente protegidas das intempéries e dos perigos externos. O que, em um primeiro momento, representava proteção para a maternidade e para as crianças, foi lentamente transformando-se em confinamento. A casa, que deveria ser um lugar de abrigo, tornou-se também um lugar de limitação; a proteção converteu-se em prisão e a circunstância transformou-se em destino. Pouco a pouco, consolidou-se a ideia de que aquele era “o lugar da mulher”, enquanto os espaços de decisão, da política, da religião e da economia passaram a ser identificados como pertencentes aos homens.

A consolidação da propriedade privada reforçou esse processo. Tornou-se necessário garantir a transmissão das terras e dos bens aos descendentes considerados legítimos, o que levou ao crescente controle da sexualidade feminina, da maternidade e da vida familiar. Aos poucos, costumes, leis e interpretações religiosas passaram a legitimar essa estrutura, restringindo o acesso das mulheres à educação, à autonomia, aos espaços de liderança e ao reconhecimento de suas capacidades. O que havia surgido em determinado contexto histórico passou a ser apresentado como uma ordem natural e imutável.

Entretanto, a busca por justiça não consiste em substituir um sistema de dominação por outro. A superação do patriarcado não significa instaurar um matriarcado, no qual os subjugados de ontem se tornem os dominadores de amanhã. O objetivo é construir uma sociedade em que homens e mulheres, respeitadas suas diferenças, subjetividades e liberdades civis, desfrutem das mesmas oportunidades, dos mesmos direitos e das mesmas responsabilidades. Uma sociedade verdadeiramente justa não é aquela em que um grupo exerce poder sobre outro, mas aquela em que ninguém precise dominar para existir, nem decidir pelo outro para garantir sua própria dignidade. Isso exige reavaliar criticamente muitos dos papéis sociais herdados de uma cultura marcada pela desigualdade e pela exclusão.

Embora as grandes tradições religiosas tenham surgido em sociedades profundamente patriarcais e sido organizadas, em sua maioria, por homens, isso não significa que o patriarcado constitua sua essência. Frequentemente, seus ensinamentos foram interpretados à luz da cultura dominante de cada época. No cristianismo, a pessoa e a mensagem de Jesus representam um divisor de águas. Seu ministério inaugura o Reino de Deus, que rompe com todas as formas de opressão produzidas pelo pecado e convida homens e mulheres a viverem uma nova humanidade reconciliada. Jesus apresenta-se como aquele que veio libertar os cativos, aliviar os que estão sob pesados jugos e restaurar a dignidade dos excluídos. Ao acolher mulheres como discípulas, dialogar publicamente com elas, ensinar-lhes, permitir que participassem de seu ministério e fazê-las as primeiras testemunhas da ressurreição, rompe barreiras sociais e religiosas profundamente arraigadas.

Sob essa perspectiva, a obra de Cristo pode ser compreendida como a reversão das consequências do pecado descritas em Gênesis 3. Antes da queda, homem e mulher aparecem como corresponsáveis pela criação, ambos criados à imagem e semelhança de Deus e igualmente chamados a cultivar e guardar o jardim. O pecado, porém, não rompe apenas a comunhão com Deus; rompe também a qualidade das relações humanas. A parceria transforma-se em disputa, o serviço em dominação e o cuidado em controle. A afirmação de que “o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16) pode ser entendida não como um mandamento divino, mas como a descrição de uma realidade marcada pelo pecado. O Evangelho anuncia justamente o caminho inverso. Em Cristo, Deus inicia a restauração de seu projeto original, substituindo relações de poder por relações de amor, reciprocidade, serviço e corresponsabilidade. Essa restauração não diz respeito apenas à relação entre homens e mulheres, mas alcança todas as formas de convivência humana, rompendo também com outras estruturas de dominação, como o colonialismo, o racismo e o eurocentrismo.

Eu penso que a história da humanidade pode ser compreendida a partir de alguns grandes acontecimentos que contribuíram para transformar a maneira como homens e mulheres passaram a se relacionar. Não se trata de uma classificação histórica definitiva, mas de uma leitura pessoal sobre marcos que considero especialmente significativos. O primeiro foi a Revolução Agrícola, que consolidou a propriedade privada, fortaleceu as estruturas patriarcais e favoreceu o controle da sexualidade feminina para garantir herdeiros legítimos. O segundo foi a pregação de Jesus, que restaurou a dignidade das mulheres e recolocou homens e mulheres diante de Deus como pessoas igualmente chamadas ao discipulado e ao serviço. O terceiro foi a Reforma Protestante, que, ao afirmar o sacerdócio universal dos crentes, incentivar a alfabetização e estimular a leitura pessoal das Escrituras, fortaleceu a compreensão da dignidade e da responsabilidade de cada indivíduo diante de Deus. O quarto foi a Revolução Industrial, que levou milhões de mulheres ao trabalho remunerado fora do ambiente doméstico, ampliando sua autonomia econômica e sua participação na vida pública. O quinto ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando, diante da mobilização dos homens para os campos de batalha, as mulheres assumiram funções essenciais nas fábricas, nos hospitais, nos escritórios e nos serviços públicos, demonstrando de maneira incontestável sua competência profissional e administrativa. O sexto foi a invenção da pílula anticoncepcional, que ampliou a autonomia feminina sobre sua vida reprodutiva e permitiu que muitas mulheres pudessem planejar sua maternidade e seus projetos de vida. O sétimo, no contexto brasileiro, foi a Constituição Federal de 1988, que consolidou a igualdade jurídica entre homens e mulheres e abriu caminho para importantes avanços legislativos, como a Lei Maria da Penha e outras políticas públicas voltadas à proteção dos direitos das mulheres.

Essas transformações não eliminaram todas as desigualdades, mas revelam que as relações entre homens e mulheres não são determinadas por um destino imutável. Elas são construções históricas e, justamente por isso, podem ser transformadas. Acredito que o pecado produziu muito mais do que atos individuais de injustiça; ele deformou as próprias relações humanas, convertendo diferenças em desigualdades, proteção em controle, autoridade em dominação e diversidade em exclusão. O Reino de Deus anunciado por Jesus aponta na direção oposta. Nele, ninguém é chamado a dominar o outro, mas todos são convidados a servir uns aos outros em amor. Caminhamos para uma sociedade mais justa quando deixamos de medir o valor das pessoas por seu sexo, origem ou posição social e passamos a reconhecer, em cada ser humano, um portador da imagem de Deus, chamado a desenvolver plenamente seus dons para o bem comum e para o cuidado da criação.

O pecado não destruiu apenas a comunhão entre Deus e a humanidade; ele deformou todas as relações: entre homem e mulher, entre os próprios seres humanos, entre a humanidade e a criação e até entre os povos. O Reino anunciado por Jesus é o caminho da restauração dessas relações. O Evangelho aponta para uma cultura da reciprocidade, onde ninguém domina e ninguém é diminuído, mas todos colocam seus dons a serviço do bem comum.

Precisamos superar tanto o patriarcado quanto qualquer modelo de dominação, construindo uma cultura relacional, fundada no encontro, no respeito e na cooperação. O caminho não é substituir uma cultura patriarcal por uma cultura matriarcal, mas construir uma cultura da corresponsabilidade, onde homens e mulheres compartilhem direitos, responsabilidades e decisões. Relações em que todos são reconhecidos como sujeitos, com dignidade e responsabilidade.

Onde há o Espírito do Senhor, aí há liberdade! (2 Coríntios 3:17)

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