Publicado em 2023 pela Ubu Editora, A terra dá, a terra quer reúne os ensinamentos do intelectual e líder quilombola Antônio Bispo dos Santos (1959–2023), também conhecido como Nêgo Bispo, em diálogo com as fotografias de Santídio Pereira. Mais do que um livro sobre ecologia ou meio ambiente, a obra propõe uma profunda revisão das formas como a sociedade moderna compreende a natureza, o território, a cultura e a própria existência humana. O texto nasce da experiência de vida de Bispo no Quilombo Saco Curtume, no Piauí, e da tradição oral quilombola, enquanto as imagens de Santídio Pereira ampliam visualmente essa reflexão, estabelecendo um diálogo entre palavra, memória e território.
Os autores
Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo) foi um pensador, lavrador, poeta e liderança quilombola brasileira. Nascido no Quilombo Saco Curtume, no Piauí, tornou-se uma das principais vozes na crítica ao colonialismo e na valorização dos saberes tradicionais. Em vez de se definir como acadêmico, apresentava-se como um “lavrador de palavras”, alguém que cultivava conceitos nascidos da experiência coletiva dos povos quilombolas. Sua produção intelectual influenciou amplamente os debates sobre ecologia, educação, direitos territoriais e epistemologias do Sul.
Santídio Pereira é artista visual, desenhista, gravador e fotógrafo. Sua obra é marcada pelo diálogo com a memória, a ancestralidade, a paisagem e as relações entre seres humanos e natureza. Em A terra dá, a terra quer, suas fotografias não exercem apenas função ilustrativa; elas integram a narrativa e ajudam a expressar visualmente a cosmovisão apresentada por Antônio Bispo.
Ideias principais da obra
O conceito central do livro é a contracolonização. Para Bispo, os povos quilombolas, indígenas e outros povos tradicionais não são apenas vítimas da colonização; eles desenvolveram, ao longo de séculos, formas próprias de resistência que preservaram modos alternativos de viver, produzir conhecimento e se relacionar com a terra. Por isso, o autor prefere falar em contracolonização, entendida como a continuidade desses modos de vida que antecedem e resistem ao projeto colonial.
A partir da Caatinga brasileira, mais especificamente do Quilombo Saco Curtume, no Piauí, Bispo denuncia a cosmofobia – o medo do cosmos que funda o mundo urbano eurocristão monoteísta – e empreende uma guerra das denominações, enfraquecendo as palavras dos colonizadores. Desafiando o debate decolonial, compreendido por ele como a depressão do colonialismo, propõe a contracolonização, um modo de vida ainda não nomeado e que precede a própria colonização. Não se trata de um pensamento binário, mas de um pensamento fronteiriço e “afro-pindorâmico” para compreender o mundo de forma “diversal”, integrado por uma variedade de ecossistemas, idiomas, espécies e reinos. “A terra dá, a terra quer” registra de modo inédito muitos dos saberes transmitidos pela oralidade por esse “lavrador de palavras” acerca do agronegócio, das cidades, das favelas, dos condomínios fechados e da arquitetura. Transitando por muitos mundos, Bispo semeia potentes traduções de questões cruciais para o nosso tempo como ecologia, clima, energia, trabalho, cultivo e alimentação. Diante da mercantilização da vida e dos saberes, este livro compartilha a força ancestral da circularidade começo, meio e começo.
Outro tema importante é a crítica àquilo que denomina cosmofobia: o medo ou o rompimento da sociedade moderna com o cosmos e com a natureza. Segundo Bispo, a lógica colonial transformou a terra em mercadoria, separou os seres humanos dos demais seres vivos e reduziu a diversidade de formas de existência a um modelo único de desenvolvimento econômico. Em contraste, os povos tradicionais compreendem a terra como sujeito de relações, fonte de vida e espaço de reciprocidade.
A própria expressão “A terra dá, a terra quer” sintetiza essa compreensão. A terra oferece alimento, abrigo, água e condições para a vida, mas também exige respeito, cuidado, equilíbrio e reciprocidade. Não se trata de explorar indefinidamente os recursos naturais, mas de participar de um ciclo contínuo de compartilhamento entre seres humanos, animais, plantas, rios e demais elementos do mundo natural.
O livro também critica o agronegócio, o urbanismo moderno, a arquitetura dos condomínios fechados e diversos modelos de desenvolvimento que, segundo o autor, reproduzem a lógica colonial de separação, acumulação e controle. Em oposição, Bispo valoriza práticas comunitárias, a oralidade, os saberes ancestrais e formas de organização social baseadas na cooperação e na diversidade cultural e ecológica.
Contribuição para o debate ambiental
Embora dialogue com temas da ecologia contemporânea — como mudanças climáticas, biodiversidade e sustentabilidade —, a contribuição do livro vai além das abordagens técnicas. Antônio Bispo propõe uma mudança de paradigma: enfrentar a crise ambiental não depende apenas de novas tecnologias ou políticas públicas, mas da transformação da relação entre humanidade e natureza. A preservação da vida exige reconhecer o valor dos conhecimentos produzidos por povos quilombolas, indígenas e outras comunidades tradicionais, cujas formas de convivência com os territórios oferecem alternativas concretas ao modelo dominante de exploração dos recursos naturais.
Síntese
A terra dá, a terra quer é uma obra que articula ecologia, filosofia, política, ancestralidade e crítica ao colonialismo a partir da perspectiva quilombola. Ao defender a contracolonização, Antônio Bispo dos Santos convida o leitor a repensar conceitos como desenvolvimento, progresso, propriedade e sustentabilidade, propondo uma visão em que a terra deixa de ser objeto de exploração para tornar-se parceira na construção da vida. As fotografias de Santídio Pereira reforçam essa perspectiva, fazendo da obra um encontro entre palavra e imagem, memória e território, tradição e futuro.


