As principais cosmogonias dos povos originários da Rússia

Os povos originários da Rússia pertencem a dezenas de etnias indígenas distribuídas pela Sibéria, Extremo Oriente, região ártica e montanhas dos Urais. Embora sejam culturalmente muito diversos, suas cosmogonias apresentam elementos comuns, como o animismo, o xamanismo, o respeito aos ancestrais e a compreensão de que a natureza é habitada por espíritos. Nelas, a criação do mundo geralmente não é vista como um ato único, mas como um processo de organização do caos primordial, no qual seres divinos, animais e espíritos colaboram para formar a terra, os rios, as florestas e a humanidade.

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1. Cosmogonia Sakha (Yakut)

Os Sakha (Yakut), habitantes da Sibéria oriental, possuem uma das cosmogonias mais elaboradas da Ásia Setentrional. O universo é dividido em três mundos: o Mundo Superior, onde vivem as divindades benevolentes (Aiyy); o Mundo Médio, habitado pelos seres humanos; e o Mundo Inferior, onde residem espíritos associados ao sofrimento e ao caos. Esses mundos são ligados pela Árvore do Mundo, eixo cósmico que simboliza a unidade da criação. O deus criador Ürüng Aar Toyon é frequentemente descrito como a divindade suprema da luz e da ordem.

2. Cosmogonia Buriata

Os Buriatos, da região do Lago Baikal, combinam antigas tradições xamânicas com influências do budismo tibetano. Em sua cosmologia, o universo é composto por vários céus habitados por divindades e espíritos ancestrais. A criação decorre da ação de divindades celestes e da organização progressiva do cosmos. O Lago Baikal é considerado um espaço sagrado, fonte de vida e centro espiritual do mundo buriato.

3. Cosmogonia Evenki

Os Evenki, povo tradicionalmente nômade da taiga siberiana, entendem que todos os elementos da natureza possuem espírito. Florestas, rios, montanhas, renas, ursos e aves participam de uma grande comunidade viva. O xamã atua como mediador entre o mundo humano e o mundo espiritual, restaurando o equilíbrio quando ele é rompido. A caça somente é legítima quando realizada com profundo respeito aos espíritos dos animais.

4. Cosmogonia Nenets

Os Nenets, habitantes da tundra ártica, desenvolvem sua espiritualidade em estreita relação com as renas, das quais depende sua sobrevivência. O universo é habitado por inúmeros espíritos protetores da terra, do gelo, do vento e dos animais. O Criador organiza o cosmos, mas sua continuidade depende do comportamento respeitoso das pessoas para com a natureza.

5. Cosmogonia Khanty e Mansi

Os povos Khanty e Mansi, dos Urais e da Sibéria ocidental, preservam narrativas nas quais a Terra surge de um oceano primordial. Em muitas versões, uma ave mergulha nas águas profundas para trazer um punhado de lama, que cresce até formar os continentes. Essa narrativa do “mergulhador da terra” aparece em diversas culturas do norte da Eurásia e também entre vários povos indígenas da América do Norte.

6. Cosmogonia Chukchi

Os Chukchi, do extremo nordeste da Sibéria, descrevem um universo povoado por espíritos celestes, marinhos e terrestres. Sol, Lua, estrelas, baleias e renas possuem importância espiritual. Os seres humanos sobrevivem graças à reciprocidade com esses seres, e os rituais asseguram a continuidade da vida e da caça.

7. Cosmogonia Nivkh

Os Nivkh, da ilha de Sacalina e da foz do rio Amur, consideram o urso um ser ancestral e sagrado. Um dos rituais mais conhecidos é a Festa do Urso, que simboliza a devolução respeitosa do espírito do animal ao mundo sobrenatural, fortalecendo a aliança entre humanos e natureza.

Elementos comuns

Apesar das diferenças culturais, essas cosmogonias compartilham diversos princípios:

  • o universo é formado por múltiplos níveis espirituais;
  • a natureza é viva e habitada por espíritos;
  • animais são considerados parentes, mestres ou ancestrais;
  • o xamã estabelece a comunicação entre os diferentes mundos;
  • árvores, montanhas, rios e lagos possuem caráter sagrado;
  • a caça exige respeito e reciprocidade para com os espíritos dos animais;
  • o equilíbrio do cosmos depende das relações harmoniosas entre humanos, natureza e mundo espiritual.

Essas tradições têm despertado interesse crescente na antropologia, na história das religiões e na ecologia por revelarem uma compreensão profundamente relacional da existência. Em vez de conceber a natureza como objeto de exploração, apresentam-na como uma comunidade sagrada de vida, na qual seres humanos ocupam apenas um dos muitos lugares da criação. Por isso, vêm sendo frequentemente aproximadas dos debates contemporâneos sobre ecoespiritualidade, ética ambiental e conservação da biodiversidade, especialmente em razão da importância atribuída à reciprocidade, ao respeito pelos animais e à responsabilidade humana diante da Terra.

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