“Civilizar-se” não é um destino”!

No livro A vida não é útil (2020), Ailton Krenak, um dos mais importantes intelectuais indígenas do Brasil, que em 2024 se tornou o primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras, desenvolve uma crítica contundente à concepção moderna de civilização, ao modelo econômico baseado no consumo ilimitado e à forma como o discurso da sustentabilidade, muitas vezes, é apropriado para preservar esse mesmo modelo. Para o autor, a crise ambiental não é apenas um problema técnico ou econômico, mas uma crise de imaginação e, sobretudo, uma crise da relação da humanidade com a Terra e com a própria vida.

Ao afirmar que “civilizar-se” não é um destino, Krenak questiona uma das ideias centrais da modernidade ocidental: a de que existe um único caminho legítimo para a humanidade, identificado com o progresso científico, a industrialização, o crescimento econômico e a urbanização. Durante séculos, esse ideal serviu para justificar a colonização de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais, considerados “atrasados” por não compartilharem os padrões culturais europeus. Para Krenak, esse projeto civilizatório não representa uma evolução universal, mas apenas uma entre muitas formas possíveis de habitar o mundo, e uma forma que produziu profundas desigualdades sociais e uma crise ecológica sem precedentes.

Essa crítica está intimamente ligada ao conceito dos “consumidores do planeta”. Segundo Krenak, a sociedade contemporânea transformou a natureza em um enorme estoque de matérias-primas destinado a alimentar um sistema econômico baseado no crescimento permanente e no consumo incessante. Nesse processo, rios, florestas, montanhas e animais deixam de ser reconhecidos como participantes da comunidade da vida e passam a ser tratados exclusivamente como recursos disponíveis para exploração. O resultado é uma humanidade que se percebe separada da Terra e que reduz seu papel ao de consumidora dos bens naturais, ignorando os limites ecológicos do planeta e as relações de interdependência entre todos os seres vivos.

Essa separação entre humanidade e natureza constitui um dos eixos centrais da reflexão de Krenak. Em sua perspectiva, a modernidade construiu a ilusão de que os seres humanos poderiam existir fora da teia da vida, como observadores ou administradores da natureza. As cosmologias indígenas, ao contrário, compreendem rios, florestas, montanhas, animais e seres humanos como integrantes de uma mesma comunidade de existência. Não há uma natureza exterior à humanidade, pois todos compartilham a mesma condição de pertencimento à Terra.

É nesse contexto que Krenak também problematiza a própria ideia de sustentabilidade. Ele não rejeita o cuidado com o meio ambiente, mas critica o uso superficial e frequentemente mercadológico do conceito. Em muitos casos, afirma o autor, a sustentabilidade tornou-se uma espécie de panaceia, isto é, uma solução apresentada como capaz de resolver a crise ambiental sem modificar profundamente o modelo de desenvolvimento que a produziu. Empresas e governos podem adotar discursos sustentáveis enquanto continuam promovendo mineração predatória, desmatamento, monoculturas extensivas ou padrões elevados de consumo. Assim, a sustentabilidade corre o risco de funcionar apenas como um mecanismo de adaptação da lógica econômica dominante à crise ambiental, sem enfrentar suas causas estruturais.

Em oposição a essa lógica, Krenak propõe uma transformação muito mais profunda: abandonar a ideia de que os seres humanos estão acima ou fora da natureza e recuperar uma compreensão relacional da existência. Partindo da cosmologia do povo Krenak e dialogando com outras cosmologias indígenas, defende que rios, florestas, montanhas e animais não são objetos ou recursos, mas integrantes de uma mesma comunidade de vida. A sobrevivência da humanidade depende, portanto, não de consumir a Terra de maneira “mais eficiente”, mas de reconstruir vínculos de reciprocidade, respeito e pertencimento com ela. Em diferentes momentos de sua obra, sintetiza essa compreensão ao recordar que os seres humanos não estão separados da natureza: eles próprios são natureza.

A principal contribuição de A vida não é útil consiste justamente em deslocar o debate ambiental de uma perspectiva predominantemente técnica para uma reflexão ética, filosófica e espiritual. Em vez de perguntar apenas como tornar o desenvolvimento sustentável, Krenak convida o leitor a questionar o próprio modelo de desenvolvimento e a imaginar formas de existência que não tenham o consumo, o crescimento econômico e a acumulação como finalidade da vida. Nesse sentido, sua reflexão dialoga com autores do pensamento decolonial, apresenta convergências com alguns princípios da ecologia profunda e aproxima-se das perspectivas da ecoespiritualidade, ao defender que a crise ecológica somente poderá ser enfrentada mediante uma mudança radical na forma como a humanidade compreende sua relação com a Terra e com os demais seres vivos.

Em A vida não é útil e também em Futuro ancestral (2022), Krenak não defende o isolamento absoluto dos povos indígenas nem uma rejeição indiscriminada da tecnologia ou da modernidade. Sua crítica dirige-se menos aos instrumentos da modernidade do que à lógica civilizatória que os orienta.

Krenak frequentemente lembra que os povos indígenas sempre conviveram com mudanças culturais. Ao longo de cinco séculos, incorporaram ferramentas de metal, motores, telefones celulares, internet, escolas e universidades, sem que isso necessariamente significasse abandonar sua identidade. Para ele, o problema não é utilizar tecnologias, mas permitir que elas imponham uma única maneira de pensar e viver. A assimilação torna-se problemática quando exige que os povos originários abandonem suas línguas, cosmologias, formas de organização social e vínculos com seus territórios.

Esse ponto ajuda a compreender o aparente dilema entre integração e preservação. Na perspectiva de Krenak, integração não deve significar assimilação. A tradição política brasileira, sobretudo entre o século XIX e a Constituição de 1988, frequentemente entendia a “integração” como a incorporação dos indígenas à sociedade nacional, com o desaparecimento gradual de suas diferenças culturais. A Constituição de 1988 rompeu com essa lógica ao reconhecer o direito dos povos indígenas de manter suas organizações sociais, línguas, crenças e tradições, bem como seus direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam.

Para Krenak, portanto, a questão central é quem define os termos da convivência. Se a modernidade exige que todos adotem os mesmos valores — crescimento econômico ilimitado, consumo, competição e exploração da natureza — ela deixa de ser um espaço de convivência plural e torna-se um projeto de homogeneização cultural. Em contrapartida, o autor propõe uma sociedade capaz de reconhecer a legitimidade de diferentes modos de habitar a Terra, permitindo que distintas cosmologias convivam e aprendam umas com as outras.

Essa visão também se reflete em sua compreensão da tecnologia. Krenak não afirma que computadores, celulares ou a medicina moderna sejam, em si, negativos. O que ele questiona é a crença de que a tecnologia, por si só, resolverá problemas produzidos por uma visão de mundo que continua tratando a Terra como um estoque de recursos. Em outras palavras, uma tecnologia orientada pela lógica da exploração tende a ampliar essa exploração; já uma tecnologia subordinada a uma ética do cuidado, da reciprocidade e do respeito aos limites ecológicos pode contribuir para a proteção da vida.

À luz dessas reflexões, é possível observar que diversos povos indígenas vêm incorporando tecnologias contemporâneas para fortalecer, e não substituir, seus modos de vida. Drones são utilizados para monitorar invasões territoriais; sistemas de georreferenciamento auxiliam na proteção das terras indígenas; redes sociais tornam-se instrumentos de denúncia e mobilização; registros audiovisuais contribuem para preservar línguas, memórias e conhecimentos tradicionais. Esses exemplos não aparecem como prescrições nas obras de Krenak, mas ilustram sua compreensão de que a tecnologia pode ser apropriada criticamente, desde que permaneça subordinada aos valores da comunidade e do cuidado com a Terra.

Ao mesmo tempo, diversos intérpretes observam que a crítica de Krenak ao modelo civilizatório possui um caráter deliberadamente filosófico e provocador. Sua intenção não é oferecer um programa técnico de reorganização da economia mundial, mas deslocar o debate para uma questão mais fundamental: quais valores devem orientar nossa presença no planeta? É precisamente essa mudança de perspectiva que torna sua obra uma das contribuições mais originais para o pensamento socioambiental contemporâneo.

Assim, o dilema não precisa ser formulado como uma escolha entre modernidade e tradição. A proposta de Krenak aponta para o reconhecimento da coexistência de múltiplos modos legítimos de viver e de habitar a Terra. O futuro, em sua perspectiva, não depende de abandonar a tecnologia, mas de abandonar a pretensão de que exista apenas uma única forma correta de ser humano. O verdadeiro desafio consiste em reconstruir nossa consciência de pertencimento ao mundo vivo, reconhecendo que a humanidade não está acima da Terra, mas faz parte dela e depende dela para continuar existindo.

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