A preocupação ambiental da The United Methodist Church (UMC) não surgiu de forma isolada, mas foi sendo construída ao longo de décadas, acompanhando o desenvolvimento da consciência ecológica mundial e da própria reflexão teológica metodista sobre santidade social, justiça e cuidado da criação. Hoje, a Igreja compreende o Creation Care (Cuidado da Criação) como parte integrante de sua missão evangelizadora, relacionando meio ambiente, justiça climática, pobreza, direitos humanos e discipulado cristão.
Década de 1960 – O despertar da consciência ecológica
A criação da Igreja Metodista Unida, em 1968, coincidiu com o surgimento do moderno movimento ambientalista nos Estados Unidos. Logo em seus primeiros anos, a denominação organizou o General Board of Church and Society, agência responsável por articular a atuação metodista nas questões de justiça social, paz, direitos humanos e, posteriormente, meio ambiente.
Década de 1970 – A criação passa a fazer parte da missão
Após o primeiro Earth Day, em 1970, o tema ambiental ganhou espaço na Igreja. Inspirada também pela repercussão de Silent Spring, de Rachel Carson, a denominação começou a tratar a degradação ambiental como uma questão ética e missionária.
Nessa época surgiram resoluções defendendo:
- responsabilidade cristã pela criação;
- conservação dos recursos naturais;
- combate à poluição;
- educação ambiental nas igrejas.
O cuidado da criação passou a ser entendido como expressão da santidade social defendida por John Wesley.
Décadas de 1980 e 1990 – Ecologia e justiça caminham juntas
Durante essas décadas, a Igreja ampliou sua compreensão, deixando de falar apenas em preservação ambiental para adotar uma linguagem de justiça ambiental.
A degradação da natureza passou a ser relacionada com:
- pobreza;
- fome;
- desigualdade econômica;
- racismo ambiental;
- direitos dos povos indígenas;
- desenvolvimento sustentável.
Essa mudança aproximou a reflexão metodista do conceito contemporâneo de justiça climática, entendendo que os pobres são os que mais sofrem as consequências da degradação ambiental.
2006 – “God’s Renewed Creation”
Um dos marcos mais importantes ocorreu em 2006, quando o Conselho de Bispos publicou o documento God’s Renewed Creation: A Call to Hope and Action.
Esse texto convocou toda a denominação para uma conversão ecológica, afirmando que:
- cuidar da criação é parte do discipulado cristão;
- as mudanças climáticas representam um desafio moral;
- as igrejas devem reduzir seu impacto ambiental;
- a ação ambiental deve estar ligada à justiça social e econômica.
O documento incentivou a criação de Green Teams (Equipes Verdes) nas congregações, programas de educação ambiental e ações de advocacy junto aos governos.
2010–2020 – A justiça climática torna-se prioridade
Na década seguinte, a Igreja aprofundou sua atuação em temas como:
- mudanças climáticas;
- energias renováveis;
- sustentabilidade;
- redução das emissões de carbono;
- proteção das comunidades vulneráveis.
As agências missionárias passaram a incorporar critérios ambientais em projetos de desenvolvimento comunitário e resposta a desastres naturais.
2016 – EarthKeepers
Em 2016, o General Board of Global Ministries criou o programa EarthKeepers, um dos mais importantes ministérios ambientais da denominação.
O programa forma lideranças leigas e pastorais para desenvolver projetos ambientais em suas comunidades. Entre os projetos já realizados estão:
- implantação de energia solar em igrejas;
- restauração de áreas degradadas;
- hortas comunitárias;
- reflorestamento;
- redução de resíduos;
- recuperação de rios;
- programas educativos;
- combate à insegurança alimentar.
Até 2025, centenas de líderes metodistas já haviam sido certificados como EarthKeepers.
2024 – A Comunidade de Toda a Criação
A Conferência Geral de 2024 aprovou importantes atualizações no Livro de Resoluções, criando a seção “Community of All Creation” (Comunidade de Toda a Criação).
As novas resoluções conclamam toda a Igreja a:
- restaurar áreas verdes nas propriedades das igrejas;
- plantar árvores nativas;
- eliminar fertilizantes e pesticidas sintéticos;
- ampliar o uso de energias renováveis;
- reduzir emissões de carbono;
- combater injustiças ambientais;
- apoiar políticas públicas de transição energética;
- integrar o cuidado da criação à liturgia, ao discipulado e à missão.
Principais projetos ambientais da Igreja Metodista Unida dos EUA hoje
Atualmente, o cuidado da criação está distribuído por diversas agências e ministérios da UMC. Entre os principais projetos destacam-se:
- EarthKeepers – formação de líderes para desenvolver projetos ambientais locais.
- Creation Care – plataforma oficial com estudos bíblicos, materiais litúrgicos, campanhas educativas e sugestões de ação para igrejas e famílias.
- Environmental Sustainability (Global Ministries) – incentiva projetos missionários com energias renováveis, agricultura sustentável, acesso à água, reflorestamento e redução das emissões institucionais.
- Environmental Justice (General Board of Church and Society) – atua em defesa da justiça climática, da água limpa, da segurança alimentar, da transição energética e dos direitos das populações mais vulneráveis.
- United Women in Faith – Climate Justice – desenvolve formação, advocacy e projetos voltados especialmente para os impactos das mudanças climáticas sobre mulheres, crianças e comunidades vulneráveis.
- Green Teams – equipes locais que promovem reciclagem, eficiência energética, hortas, compostagem, reflorestamento e educação ambiental nas congregações.
A visão metodista atual
Hoje, a Igreja Metodista Unida afirma que todo o universo pertence a Deus e que o ser humano foi chamado não para dominar a criação de forma predatória, mas para cuidar dela como mordomo fiel. O cuidado da criação é entendido como expressão da santidade pessoal e social característica da tradição wesleyana e integra evangelização, discipulado, justiça econômica, defesa dos vulneráveis e responsabilidade ecológica.
Essa evolução mostra uma mudança significativa: a denominação passou de uma preocupação inicial com a conservação ambiental para uma compreensão mais ampla de ecologia integral, na qual fé cristã, justiça social e justiça climática são inseparáveis. Hoje, para a Igreja Metodista Unida, anunciar o Evangelho também significa colaborar para a cura da criação e para a construção de comunidades humanas e ecológicas mais justas e sustentáveis.
A IGREJA METODISTA NO BRASIL
Em 2026, a Igreja Metodista no Brasil retomou, como tema nacional do ano, o cuidado com a criação, escolhendo o lema “Discípulos e Discípulas nos Caminhos da Missão Cuidam de Toda Criação”. A opção por esse tema não representa uma iniciativa isolada, mas a continuidade da compreensão metodista de que a missão cristã envolve a proclamação do Evangelho, o serviço ao próximo e a responsabilidade pelo mundo criado por Deus. O Colégio Episcopal afirma que o discipulado se concretiza em atitudes de cuidado com as pessoas, com as relações e com toda a criação, fundamentando essa proposta na narrativa bíblica da criação (Gn 1–2), na espiritualidade wesleyana e na missão integral da Igreja. O próprio manual de identidade do tema orienta que o cuidado ambiental seja incorporado à comunicação, à liturgia, à formação cristã e aos projetos missionários das igrejas locais.
Mais do que apresentar um slogan anual, a Igreja disponibilizou materiais pastorais para orientar a implementação do tema nas comunidades. Entre eles está uma revista especial da Escola Dominical, produzida pelo Departamento Nacional de Escola Dominical, em parceria com a Associação Horizonte de Esperança (AHE) com estudos bíblicos para todas as faixas etárias sobre a criação, a crise ambiental e a responsabilidade cristã diante do planeta. O material propõe uma caminhada pedagógica que passa pelo encantamento com a criação, pelo reconhecimento do desencantamento provocado pela degradação ambiental e culmina no reencantamento, expresso na esperança cristã e no compromisso com a restauração da criação. Além das lições, a orientação nacional incentiva cultos temáticos, projetos educativos, campanhas comunitárias, ações de preservação ambiental e iniciativas de cuidado com a Casa Comum, integrando fé, missão e responsabilidade ecológica.
Além desses materiais específicos de 2026, existe também uma tradição de documentos oficiais da Igreja voltados ao tema. No portal institucional estão disponíveis cartas pastorais e documentos do Colégio Episcopal relacionados ao cuidado da criação, incluindo a Carta Pastoral “Cuidam do Meio Ambiente”, que oferece fundamentos bíblicos, teológicos e pastorais para que as igrejas locais desenvolvam ações concretas em defesa da criação. Assim, a Igreja Metodista no Brasil procura integrar a temática ambiental ao seu projeto missionário permanente, entendendo que evangelização, discipulado, justiça social e cuidado da criação são dimensões inseparáveis do testemunho cristão e da missão de Deus no mundo.
A Carta Pastoral Discípulas e Discípulos nos Caminhos da Missão Cuidam do Meio Ambiente, publicada pelo Colégio Episcopal da Igreja Metodista em 2019, constitui um dos mais importantes documentos oficiais da denominação sobre teologia da criação e responsabilidade socioambiental. Elaborada como subsídio para o Tema do Ano e fundamentada no Plano Nacional Missionário e no Plano para a Vida e Missão da Igreja Metodista, a carta apresenta bases bíblicas, teológicas e wesleyanas para compreender o cuidado da criação como parte inseparável da missão da Igreja. O documento percorre a visão bíblica da relação entre Deus, a humanidade e a natureza, recupera aspectos do pensamento de John Wesley sobre a criação, reflete sobre os desafios ecológicos contemporâneos e conclui com orientações práticas para que as igrejas locais desenvolvam ações de educação ambiental, consumo consciente, preservação dos recursos naturais, mobilização comunitária e testemunho cristão em favor da vida. Dessa forma, a Carta Pastoral reafirma que o cuidado com o meio ambiente não é uma preocupação acessória, mas uma expressão concreta da mordomia cristã, do discipulado e do compromisso da Igreja com o Reino de Deus e com a integridade de toda a criação.
