Quando olhamos para o céu numa noite estrelada, caminhamos por uma trilha cercada de árvores, ouvimos o canto dos pássaros ou sentimos o cheiro da terra molhada depois da chuva, algo dentro de nós se encanta. É como se a própria criação estivesse nos lembrando que o mundo não surgiu por acaso. A Bíblia nos ensina que Deus criou os céus e a terra e viu que tudo era muito bom (Gn 1.31). Cada criatura, das maiores às menores, tem seu lugar e sua importância no grande projeto do amor divino.
Os salmistas compreenderam isso muito bem. Ao contemplarem a natureza, eles não enxergavam apenas paisagens bonitas, mas sinais da presença de Deus. O Salmo 19 afirma que “os céus proclamam a glória de Deus”, enquanto o Salmo 148 convida o sol, a lua, as estrelas, os animais, as árvores e todas as criaturas a louvarem o Criador. A natureza glorifica a Deus sem palavras. Sua simples existência já é um cântico de louvor.
Logo nas primeiras páginas da Bíblia, Deus coloca o ser humano num jardim para cultivá-lo e guardá-lo (Gn 2.15). Isso significa que não fomos criados para destruir a criação, mas para cuidar dela. Somos jardineiros da Casa Comum. Curiosamente, depois da ressurreição, Maria Madalena confunde Jesus com um jardineiro (Jo 20.15). Talvez não seja apenas um detalhe da narrativa. O Cristo ressuscitado continua sendo aquele que cuida da vida, restaura a criação e nos chama a participar dessa missão.
Ao longo da história bíblica, Deus demonstra preocupação não apenas com os seres humanos, mas com todas as formas de vida. Na narrativa do dilúvio (Gn 6–9), a arca não salva apenas Noé e sua família; ela preserva também os animais. A aliança que Deus estabelece após as águas não é feita somente com as pessoas, mas com todos os seres vivos da terra. A vida inteira importa para Deus.
Essa preocupação aparece também nas leis dadas ao povo de Israel. Em tempos de guerra, quando tudo parece justificar a destruição, Deus ordena que as árvores frutíferas sejam preservadas (Dt 20.19-20). Em outras passagens, ordena cuidado com os animais e proteção aos mais vulneráveis da sociedade, especialmente as viúvas, os órfãos e os estrangeiros (Dt 24; Lv 19). A Bíblia ensina que a injustiça social e a destruição ambiental caminham juntas. Quando a natureza sofre, os mais pobres geralmente sofrem primeiro e sofrem mais.
Deus também instituiu o descanso como um direito sagrado. O sábado não era apenas para os seres humanos, mas também para os animais domésticos (Êx 20.8-11). Mais tarde, esse princípio foi ampliado para o ano sabático e para o Jubileu, quando até a terra deveria descansar (Êx 23.10-11; Lv 25.1-12). Essas leis lembram que a criação não existe para ser explorada sem limites. Tudo pertence a Deus, e nós somos apenas administradores temporários de seus dons.
Jesus reforça essa visão ao chamar atenção para os lírios do campo e para as aves do céu (Mt 6.25-34). Ele contemplava a natureza e encontrava nela lições sobre confiança, simplicidade e fé. Seu olhar estava atento às sementes que crescem, às árvores que produzem frutos, aos pássaros que encontram abrigo e aos rebanhos que necessitam de cuidado. Ao observarmos o modo como Jesus se relacionava com a criação, aprendemos que a espiritualidade também passa pela capacidade de contemplar e proteger a vida.
O apóstolo Paulo afirma que toda a criação geme aguardando redenção (Rm 8.19-23). Esse texto nos ajuda a compreender que a crise ambiental não é apenas um problema científico ou político; ela também possui uma dimensão espiritual. A natureza sofre as consequências da ganância, da indiferença e do consumo sem limites. Florestas são destruídas, rios são poluídos, espécies desaparecem e milhões de pessoas enfrentam os efeitos das mudanças climáticas.
Mas a Bíblia não termina com uma visão de destruição. Ela termina com esperança. O livro do Apocalipse fala de novos céus e nova terra (Ap 21.1-5), de um rio de águas vivas e da árvore da vida produzindo frutos para a cura das nações (Ap 22.1-2). O futuro imaginado por Deus não é a fuga do mundo, mas a renovação de toda a criação.
Por isso, cuidar da Casa Comum não é apenas uma tarefa ecológica. É uma forma de adoração. Quando economizamos água, reduzimos o desperdício, plantamos árvores, protegemos os animais, reciclamos materiais ou lutamos por justiça para os mais pobres, estamos participando do projeto de Deus para o mundo.
Grandes coisas fez o Senhor. A criação inteira testemunha essa verdade. E justamente porque reconhecemos a beleza e a bondade de Deus em tudo o que existe, somos chamados a honrá-lo cuidando da Terra, nossa Casa Comum, e de todos os seres criados para o seu louvor. Afinal, amar o Criador também significa amar e proteger aquilo que ele criou.
Mas talvez exista um passo anterior ao cuidado: o reencantamento. Ninguém protege aquilo que não ama, e dificilmente amamos aquilo que não conhecemos ou não contemplamos. Uma das maiores tragédias do nosso tempo é que fomos nos acostumando a viver distantes da criação. A escritora Marina Colasanti, em seu conhecido texto A gente se acostuma, denuncia justamente essa perda da sensibilidade diante da vida. Acostumamo-nos a acordar atrasados, a correr o dia inteiro, a não perceber o nascer do sol, a não olhar para o céu, a não ouvir o canto dos pássaros, a não reparar nas árvores que florescem ao longo do caminho. Acostumamo-nos ao barulho, à pressa e à indiferença. Esse acostumar-se é uma forma de desencantamento.
A ecoespiritualidade nos convida a fazer o caminho inverso. Convida-nos a desacelerar, a reaprender a contemplar, a redescobrir a beleza escondida nas pequenas coisas. É um chamado para voltar a sentir admiração diante de uma flor, de uma borboleta, de um riacho, de uma noite estrelada ou de uma simples árvore oferecendo sombra em um dia quente. O reencantamento nasce quando abrimos novamente os olhos para perceber que a criação continua sendo uma grande revelação do amor de Deus.
Talvez por isso a poesia/música “Paciência” do cantor Nando Reis toque tantas pessoas quando afirma que mesmo diante da vida que não para precisamos de “um pouco mais de calma” e “um pouco mais de alma”. A pressa excessiva nos impede de enxergar a beleza, de ouvir os sons da criação e de perceber a presença de Deus no cotidiano. Quem vive correndo demais quase sempre perde a capacidade de se maravilhar, de aproveitar o dia, os amigos e amigas, a paisagem da caminhada, o sabor da vida. O que levamos da vida e a vida que vivemos.
Reencantar-se com a criação não é fugir da realidade. Ao contrário, é enxergá-la com mais profundidade. É perceber que a Terra não é apenas um conjunto de recursos a serem explorados, mas uma comunidade viva da qual fazemos parte. É compreender que rios, florestas, animais e seres humanos compartilham a mesma Casa Comum. E quando esse encantamento retorna, nasce também o compromisso. Passamos a desejar proteger aquilo que admiramos, restaurar aquilo que foi ferido e lutar para que as futuras gerações também possam contemplar a beleza das obras de Deus. O verdadeiro encantamento conduz ao cuidado; e o cuidado, quando persevera, transforma-se em missão.
