O Criador, a Criação e as Criaturas – Uma releitura ecoteológica para o encantamento (Gênesis 1, Jó 38, Salmo 104 e Deuteronômio 22)

Conquanto a Ecoteologia tenha, em si, uma perspectiva ecumênica e interdisciplinar, nossa reflexão parte da experiência da fé cristã e se abre para a oikoumene, a totalidade do Mundo de Deus. Nessa perspectiva, o primeiro passo da espiritualidade ecológica não é a denúncia, mas o encantamento. Antes de enxergarmos as feridas da Terra, somos convidados a contemplar sua beleza. Antes de reconhecermos nossa responsabilidade pela degradação ambiental, somos chamados a redescobrir o assombro diante do mistério da vida.

Os relatos bíblicos da criação não foram escritos como tratados científicos sobre a origem do universo. Eles são testemunhos de fé que proclamam uma verdade fundamental: o mundo não é fruto do acaso nem propriedade humana; ele é expressão do amor criador de Deus. Em Gênesis 1, cada criatura surge pela Palavra divina e recebe sua dignidade antes mesmo do aparecimento do ser humano. “E viu Deus que era bom” (Gn 1.4,10,12,18,21,25). A luz, as águas, a terra fértil, as plantas, os astros, os peixes, as aves e os animais terrestres são declarados bons por Deus. Somente depois dessa grande comunidade de vida estar constituída é que o ser humano aparece, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26-27), não como dono da criação, mas como participante dela. Sua vocação é exercer cuidado responsável sobre a Terra (Gn 1.28-31), refletindo o caráter do Criador e não substituindo-o.

Essa percepção desafia uma leitura antropocêntrica que coloca a humanidade no centro absoluto de tudo. O texto bíblico nos mostra que Deus contempla e ama toda a criação. O valor das criaturas não depende de sua utilidade para os seres humanos. As florestas, os rios, os oceanos, os animais e os ecossistemas possuem significado diante do Criador porque existem por sua vontade e são sustentados por seu amor (Gn 1.31).

O livro de Jó aprofunda ainda mais essa compreensão. Quando Deus responde a Jó a partir do redemoinho (Jó 38.1), não oferece explicações sobre o sofrimento humano. Em vez disso, conduz seu olhar para a vastidão da criação: “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?” (Jó 38.4). Deus pergunta sobre os limites do mar (Jó 38.8-11), o nascimento da luz (Jó 38.12-15), os caminhos das estrelas (Jó 38.31-33), a chuva, a neve e os relâmpagos (Jó 38.22-30,34-38), bem como sobre a vida dos animais selvagens (Jó 38.39-41). A mensagem é clara: o universo é muito maior do que as preocupações humanas. Há uma sabedoria presente na criação que ultrapassa nossa capacidade de compreensão.

Essa visão possui enorme relevância para os desafios ecológicos atuais. Vivemos em uma cultura que frequentemente se comporta como se tudo existisse para servir aos interesses humanos. O discurso divino em Jó nos convida à humildade. Somos parte de uma comunidade cósmica muito mais ampla. Não somos o centro do universo, mas uma das criaturas que habitam a Casa Comum de Deus.

O Salmo 104 transforma essa mesma percepção em louvor. O salmista contempla a natureza como um grande templo vivo onde Deus sustenta todas as criaturas. “Tu fazes rebentar fontes no vale” (Sl 104.10), “as aves do céu têm sua habitação” (Sl 104.12), “fazes crescer a erva para os animais” (Sl 104.14). As fontes saciam os animais, as árvores abrigam os pássaros, a lua marca as estações (Sl 104.19), e o mar acolhe inúmeras formas de vida (Sl 104.25-26). Tudo depende do sopro divino: “Envias o teu Espírito, eles são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104.30).

Nesse salmo, a natureza não é cenário passivo. Ela participa ativamente do louvor ao Criador. As montanhas, os rios, os ventos, os animais e os seres humanos integram uma mesma sinfonia cósmica. A espiritualidade que emerge dessa visão não separa adoração e cuidado ambiental. Louvar a Deus implica respeitar aquilo que Deus ama. Cuidar da criação torna-se, portanto, um ato de culto.

Já em Deuteronômio 22 encontramos orientações concretas que revelam a preocupação divina com o bem-estar das criaturas. Entre elas está a recomendação: “Não tomarás a mãe com os filhotes; deixarás ir livremente a mãe” (Dt 22.6-7). À primeira vista, pode parecer uma norma simples. Contudo, ela revela uma ética profunda de limites e respeito. O ser humano pode utilizar os recursos da criação, mas não tem o direito de destruir as condições que tornam a vida possível. A legislação bíblica ensina que a relação com a natureza deve ser marcada pela responsabilidade e pela preservação.

O mesmo capítulo ordena que se ajude o animal perdido do próximo (Dt 22.1-3) e que não se ignore um animal caído pelo caminho (Dt 22.4). Essas orientações revelam que a compaixão deve alcançar não apenas os seres humanos, mas também as demais criaturas. A vida, em todas as suas formas, importa para Deus.

Essa passagem desafia diretamente a lógica predatória que domina grande parte do mundo contemporâneo. Em uma sociedade que frequentemente transforma tudo em mercadoria, a sabedoria bíblica recorda que existem limites éticos para o uso da terra, dos animais e dos recursos naturais. A criação não foi entregue à humanidade para exploração ilimitada, mas para administração cuidadosa.

A leitura conjunta desses textos nos conduz a uma espiritualidade do encantamento. Encantar-se é mais do que admirar a beleza da natureza; é reconhecer nela a presença discreta do Criador. É perceber que cada criatura possui valor próprio diante de Deus. É compreender que a Terra não é um depósito de recursos, mas uma comunidade de vida da qual fazemos parte.

O encantamento também é um ato de resistência. Em um tempo marcado pelo consumismo, pela aceleração e pela degradação ambiental, contemplar a criação torna-se uma forma de recuperar a sensibilidade perdida. Quem se encanta aprende a cuidar. Quem contempla com reverência dificilmente destrói com indiferença.

Por isso, a ecoespiritualidade nos convida a reaprender a olhar. Olhar para as árvores não apenas como madeira potencial, mas como seres vivos que participam da respiração do planeta. Olhar para os rios não apenas como reservatórios de água, mas como fontes de vida. Olhar para os animais não apenas como recursos econômicos, mas como criaturas amadas por Deus. E olhar para nós mesmos não como senhores absolutos da criação, mas como jardineiros chamados a servir e proteger a obra divina (Gn 2.15).

Ao relermos Gênesis 1, Jó 38, Salmo 104 e Deuteronômio 22 pela lente da ecoteologia, descobrimos que a fé bíblica nos conduz a uma profunda conversão do olhar. Somos convidados a reencontrar nossa vocação original: viver em comunhão com o Criador, em solidariedade com as criaturas e em cuidado amoroso para com toda a criação.

Talvez esse seja o primeiro e mais importante passo para a transformação ecológica de nosso tempo: recuperar a capacidade de nos maravilhar diante da beleza do Mundo de Deus. Como declara o salmista: “Ó Senhor, quão numerosas são as tuas obras! Todas as fizeste com sabedoria; a terra está cheia das tuas riquezas” (Sl 104.24). E, diante desse mistério, somos convidados a nos unir ao louvor de toda a criação: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor. Aleluia!” (Sl 104.35).

plugins premium WordPress