O projeto original de Deus – apresentação do capítulo 4 do livro The Epic of Eden: A Christian Entry into the Old Testament, de Sandra Richter

The Epic of Eden: A Christian Entry into the Old Testament, de Sandra L. Richter, publicado originalmente em 2008 pela IVP Academic, tornou-se uma das mais importantes obras introdutórias ao estudo do Antigo Testamento no contexto evangélico contemporâneo. O objetivo da autora é oferecer ao leitor uma estrutura histórica, teológica e literária que permita ler o Antigo Testamento como uma única história da redenção divina. Um dos grandes méritos da obra consiste em enfatizar que a Bíblia deve ser lida dentro de seu contexto histórico e cultural.

No Capítulo 4, intitulado O propósito original de Deus a autora retorna aos capítulos iniciais do livro bíblico de Gênesis para mostrar o projeto original do Criador. Richter ali enfatiza temas como:

  • criação;
  • imagem de Deus;
  • vocação humana;
  • queda;
  • consequências do pecado.

O Éden representa o ideal da comunhão entre Deus, humanidade e criação.

A conexão entre o Capítulo 4 (O propósito original de Deus) de The Epic of Eden e a obra posterior de Sandra Richter sobre ecoteologia — Stewards of Eden: What Scripture Says About the Environment and Why It Matters (2010) — é uma das contribuições mais importantes de sua produção teológica. Na realidade, Stewards of Eden pode ser entendido como um desenvolvimento das implicações ecológicas da teologia da criação apresentada em The Epic of Eden. Enquanto o primeiro livro reconstrói a narrativa bíblica da criação à nova criação, o segundo pergunta: se esse é o propósito original de Deus, como os cristãos devem se relacionar com a terra hoje?

Capítulo 4 – O propósito original de Deus

Este capítulo ocupa uma posição estratégica em The Epic of Eden, pois apresenta o projeto original de Deus para a criação, que servirá de fundamento para toda a história da redenção desenvolvida ao longo da Bíblia. Sandra L. Richter argumenta que os dois primeiros capítulos de Gênesis não são apenas relatos sobre as origens do universo ou da humanidade, mas uma declaração teológica acerca da identidade do Criador, da vocação humana e do propósito da criação.

Segundo a autora, Deus cria um mundo essencialmente bom, ordenado e abundante, no qual cada criatura possui valor próprio porque procede da vontade divina. O ser humano é apresentado como parte dessa criação, compartilhando com todas as criaturas a condição de dependência em relação ao Criador. Embora ocupe uma posição singular por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26-28), essa singularidade não lhe confere autorização para explorar ilimitadamente a Terra. Ao contrário, implica uma responsabilidade maior diante dela.

Richter chama atenção para a linguagem empregada em Gênesis 2.15, onde Deus coloca o ser humano no jardim “para cultivá-lo e guardá-lo”. A autora destaca que os verbos hebraicos ʿābad (“servir”, “cultivar”, “trabalhar”) e šāmar (“guardar”, “proteger”, “preservar”, “vigiar”) expressam uma relação de cuidado e responsabilidade. Em outras passagens do Antigo Testamento, esses mesmos verbos descrevem a missão dos sacerdotes de servir e guardar o santuário. Assim, o jardim do Éden pode ser compreendido como o primeiro espaço sagrado, no qual a humanidade exerce uma função semelhante à de um sacerdote: cuidar da criação confiada por Deus.

Essa interpretação representa uma releitura importante do chamado “mandato cultural” de Gênesis 1.28 (“dominai a terra”). Richter argumenta que, durante muito tempo, esse texto foi interpretado de forma isolada, favorecendo uma compreensão dominadora da relação entre humanidade e natureza. Entretanto, quando lido em conjunto com Gênesis 2.15 e com o restante da narrativa bíblica, torna-se evidente que o domínio humano deve refletir o próprio governo de Deus: um governo caracterizado pelo cuidado, pela justiça, pela proteção da vida e pela promoção da fecundidade da criação. O ser humano recebe autoridade, mas essa autoridade é delegada, limitada e exercida em nome do verdadeiro proprietário da Terra.

Outro aspecto enfatizado pela autora é que a queda narrada em Gênesis 3 rompe simultaneamente quatro dimensões fundamentais da existência humana: a relação com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com a criação. A maldição que atinge o solo, a dificuldade do trabalho agrícola, a presença de espinhos e a ruptura da harmonia entre humanidade e natureza revelam que o pecado possui consequências cósmicas, afetando toda a ordem criada. Dessa forma, a redenção desenvolvida ao longo da Bíblia não visa apenas restaurar indivíduos, mas também reconciliar toda a criação com seu Criador.

Essa leitura prepara o caminho para uma compreensão mais ampla da missão de Israel e, posteriormente, da Igreja. Ao longo da história bíblica, Deus continua buscando restaurar o propósito originalmente estabelecido no Éden: uma comunidade humana que viva em comunhão com Ele, pratique a justiça e administre fielmente a criação. O projeto divino culmina na visão da Nova Jerusalém, onde reaparecem elementos do jardim original — o rio da vida, a árvore da vida e a plena comunhão entre Deus e sua criação — indicando que a redenção consiste na restauração da criação, e não em seu abandono.

A relação com o livro Stewards of Eden

As ideias apresentadas neste capítulo são desenvolvidas de maneira específica por Sandra Richter em Stewards of Eden: What Scripture Says About the Environment and Why It Matters. Enquanto The Epic of Eden apresenta a narrativa bíblica da criação como fundamento da história da salvação, Stewards of Eden investiga as implicações éticas dessa narrativa para a crise ambiental contemporânea.

Nesse segundo livro, Richter demonstra que o mandato confiado à humanidade no Éden permanece válido. Ser criado à imagem de Deus significa representar o governo benevolente do Criador sobre a Terra. Por isso, o cuidado ambiental não constitui uma preocupação periférica ou opcional para o cristão, mas uma consequência direta da doutrina da criação. A autora sustenta que a Bíblia apresenta uma ética da mordomia da criação, segundo a qual os recursos naturais pertencem a Deus e foram confiados aos seres humanos para serem administrados com responsabilidade, justiça e generosidade.

Richter amplia essa argumentação examinando diversas leis do Antigo Testamento relacionadas à proteção da terra, ao descanso do solo, ao cuidado com os animais, ao uso equilibrado dos recursos naturais e à defesa dos pobres. Ela mostra que essas legislações expressam uma mesma lógica teológica: a Terra pertence ao Senhor (Sl 24.1), e a humanidade é apenas administradora temporária de seus bens. Assim, exploração predatória, desperdício e destruição dos ecossistemas representam formas de infidelidade ao propósito original de Deus.

Desse modo, pode-se afirmar que Stewards of Eden constitui o desenvolvimento ético e ecológico da teologia da criação apresentada em The Epic of Eden. O primeiro livro organiza a grande narrativa bíblica; o segundo extrai dela suas consequências práticas para a relação entre fé cristã e meio ambiente. Em ambos, Richter sustenta que a história da redenção não diz respeito apenas à salvação da humanidade, mas à restauração de toda a criação, reafirmando que a vocação original do ser humano continua sendo servir, guardar e cultivar a Terra como expressão de fidelidade ao Criador.

Essa conexão é particularmente relevante para a ecoteologia porque Sandra Richter representa uma das primeiras biblistas evangélicas a mostrar, por meio de uma exegese detalhada do Antigo Testamento, que a mordomia da criação não é um tema secundário nem uma adaptação moderna da fé cristã, mas um elemento constitutivo da narrativa bíblica desde Gênesis até Apocalipse. Em sua leitura, a restauração promovida por Cristo não anula a criação: ela a conduz ao cumprimento do propósito para o qual Deus a criou desde o princípio.

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