Ponto de Partida: A Criação (Gênesis 1.1)

Memórias e Motivação Acadêmica

Quando estava estudando na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista (1970–1973), o tema que me motivou a pesquisar foi a importância do eixo da criação: “No princípio, Deus criou os céus e a terra…” (Gênesis 1.1). Dentro dessa motivação, em pesquisas e diálogos com o meu orientador, decidi escrever a minha dissertação de final de curso à luz do tema: Conceito Bíblico e Teológico de Propriedade.

A década foi marcada por muitas mudanças no cenário nacional e internacional. No contexto nacional, vivia-se a ditadura militar e a luta pelo processo de redemocratização do país. Do mesmo modo, vários países da América Latina experimentaram esse regime de exceção. No contexto mundial, deparávamo-nos com muitos movimentos, por exemplo, a crise do petróleo, geradora da alta da inflação, e o início da chamada globalização, com a integração econômica do comércio internacional. Nessa esteira, surgia também a era da pós-modernidade, com os seus diversos desdobramentos na arte, na política, na religião, no comércio, na ética etc.

Esses cenários ajudaram-me a refletir sobre a questão do conceito de propriedade, tendo como fundamento a Palavra criadora de Deus (Gênesis 1.1).

O Primeiro Eixo: O Senhorio de Deus

Dentro dessa pesquisa, busquei dois eixos fundamentais para compreender melhor o projeto criador de Deus. O primeiro eixo é o senhorio de Deus. A terra é criação de Deus. A Bíblia oferece duas descrições sucessivas dessa gênese, ou seja, antes da criação do ser humano, mas ordenada ao ser humano (homem e mulher). De um lado, Deus separa as águas e os continentes, aos quais chama “terra”, e depois a povoa (Gênesis 1.9-25); de outro lado, a terra é um deserto vazio e estéril (Gênesis 2.4-6), em que Deus irá plantar um jardim para nele colocar o ser humano (Adão e Eva). A declaração do salmista reforça a soberania de Deus e o seu desejo de uma terra habitada pelo Criador: “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam” (Salmo 24.1).

Nessa linha de raciocínio bíblico, Deus tem sobre a terra o direito absoluto. Só Ele dispõe de seus bens (Gênesis 2.16ss), estabelece as leis, faz a terra frutificar (Salmos 65 e 104). Ele é seu Senhor. Com toda a criação, Ele deve ser louvado (Salmo 66.1-4): um louvor que toma forma e linguagem nos lábios do ser humano (Salmo 104).

Observa-se, logo no início do livro de Gênesis, a teologia sacerdotal de que foi Elohim o Criador e Sustentador de todas as coisas, e que tudo dele depende. Dentro dessa perspectiva, todos os bens são propriedades de Deus. A sua posse é uma expressão da graça e da livre preferência de Deus.

O Segundo Eixo: A Mordomia do Ser Humano

O segundo eixo presente refere-se à mordomia do ser humano. A vida humana depende inteiramente das riquezas que a terra esconde e da fertilidade do seu solo. Ela é o quadro providencial de sua vida: os céus pertencem a Deus, mas a terra Ele a deu aos filhos de Adão (Salmo 115.16). Ainda nessa linha de pensamento, o escritor de Eclesiastes faz uma declaração contundente: “Quanto àquele a quem Deus conferiu riquezas e bens e lhe deu poder para deles comer, receber a sua porção e desfrutar do seu trabalho, isto é dom de Deus” (Eclesiastes 5.19).

Contudo, a terra não é somente o quadro de vida do ser humano. Há entre ele e ela uma ligação íntima (Gênesis 2.7; 3.19; Jeremias 18.6). É bom sublinhar que todas as antigas civilizações sentiram essa ligação íntima entre a terra e o homem e a mulher, a ponto de exprimi-la sob a imagem muito realista de terra-mãe ou
terra-mulher. Deus utiliza a experiência que o ser humano vai fazer, dentro da aliança, de suas ligações com a terra, para levá-lo a descobrir o que, por meio dela, Ele quer estabelecer com a pessoa humana.

Se Deus tirou e fez emergir o ser humano da terra, insuflando-lhe nas narinas um hálito de vida, foi para lhe conferir essa terra e fazê-lo mordomo da mesma. Portanto, a Bíblia expressa muito claramente a mordomia (responsabilidade) do ser humano, ou seja, sua condição de usufrutuário dos dons materiais concedidos por Deus. Dessa forma, os títulos de propriedade não são, em si, importantes, mas sim o modo como o ser humano pode usar os bens que lhe foram doados sob sua responsabilidade, isto é, para cuidar.

Implicações Éticas e Ecológicas

Dentro dessas considerações, são dois os eixos importantes e fundamentais: a criação como ato soberano de Deus (Gênesis 1.1) e, consequentemente, a responsabilidade humana no cuidado e no processo permanente de administrar os bens da vida.

Os presentes eixos têm profundos desdobramentos nos modelos econômicos, financeiros, políticos etc., que têm provocado um cenário de desigualdades, injustiça e profundas consequências ecológicas. Quando desenvolvi a pesquisa da dissertação, à luz do tema Conceito Bíblico e Teológico de Propriedade, a prioridade ecológica ainda não estava em pauta da forma como hoje a entendemos.

No entanto, alguns passos já estavam sendo esboçados com a realização da Conferência sobre o Meio Ambiente Humano, ocorrida em Estocolmo, Suécia, de 5 a 11 de junho de 1972. Foi um importante marco histórico do ambientalismo global, considerando-se a pauta da conferência, que influenciou políticas globais
e nacionais, incluindo o Brasil.

Há necessidade de fazer uma hermenêutica a partir do projeto da criação de Deus, buscando referências bíblicas, teológicas, educacionais e metodológicas, a fim de promover uma cultura do cuidado e da corresponsabilidade, bem como apoiar políticas públicas que possam priorizar a questão ambiental. A ecoteologia tem um papel de extrema importância, à luz do compromisso do testemunho de fé e, consequentemente, no espaço de vida de todos nós. Viver uma educação ambiental é um processo de conversão à vida.

Nessa linha de raciocínio, temos que ressaltar que o projeto da criação não é um projeto individualista, centrado na propriedade privada, mas um projeto coletivo e criativo, objetivando compreender as exigências do Deus da vida: cultivar — transformar, criar, etc. — e guardar — preservar, respeitar a vida em sua
totalidade.

O escritor Frei Leonardo Boff escreveu um artigo com os seguintes alertas: “O preço de não escutar a natureza […]. A causa principal deriva do modo como tratamos a natureza. Ela é generosa para conosco, pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação, nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrário, tratamo- la com violência e a depredamos, arrancando tudo o que podemos dela para o nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos”.

No início do ano de 2002, o Colégio Episcopal da Igreja Metodista, em seu compromisso com a docência da Igreja, advertiu: “É preciso garantir o futuro através de um desenvolvimento sustentável. Os crimes ecológicos precisam ser severamente punidos. A integridade da criação, nossa responsabilidade e nosso patrimônio ambiental precisam ser preservados e utilizados de forma a beneficiar nossas populações e garantir sua sobrevivência”.

Conclusão

Por fim, à luz destes ligeiros comentários, fica a seguinte indagação: Até que ponto o nosso modo de ser e fazer teologia passa pelo eixo da criação? Voltar ao eixo hermenêutico da criação é considerar a relevância da vida a partir do propósito do Criador (Gênesis 1.1).

“Ao Senhor pertence a terra e a sua plenitude, o mundo e os que nele habitam”
(Salmo 24.1).

Belo Horizonte, 25 de março de 2026.
Adriel de Souza Maia Bispo Emérito da Igreja Metodista

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA MAIA, Adriel. Conceito Bíblico e
Teológico de Propriedade. Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, São
Bernardo do Campo, Rudge Ramos, SP, 1973.

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