Conforme a fonte e o ano, as estimativas da desigualdade no mundo variam, mas segundo os levantamentos do Credit Suisse (atualmente continuados pelo UBS) e da Oxfam International, os mais conhecidos e reconhecidos, mostram uma concentração de riqueza muito elevada.
Uma aproximação didática é a seguinte:
– O 1% mais rico possui cerca de 45% da riqueza mundial.
– Os 50% mais pobres possuem apenas cerca de 1% da riqueza mundial.
– Os 49% intermediários ficam com os 54% restantes.
Se transformarmos isso numa espécie de parábola com uma sociedade imaginária que tem um total de 100 pessoas e uma riqueza total de R$ 100, teríamos:
– 1 pessoa (o 1% mais rico): R$ 45.
– 49 pessoas (a classe intermediária): R$ 54, ou cerca de R$ 1,10 para cada uma, em média.
– 50 pessoas (a metade mais pobre da humanidade): R$ 1, ou apenas R$ 0,02 para cada uma, em média.
Ou seja, nessa comparação uma única pessoa do grupo mais rico teria R$ 45, enquanto as outras 50 pessoas mais pobres juntas dividiriam apenas R$ 1.
É importante lembrar que esses números se referem à riqueza (patrimônio líquido: imóveis, investimentos, empresas, poupança, descontadas as dívidas), e não à renda mensal. A desigualdade de renda é grande, mas a desigualdade de riqueza é ainda mais extrema.
A Desigualdade no Brasil
Os números dependem da definição adotada para “super-rico” e “linha da pobreza”, mas as estimativas mais aceitas são as seguintes:
-Super-ricos: se considerarmos o 1% mais rico da população, estamos falando de cerca de 2,1 milhões de brasileiros. Se adotarmos um critério patrimonial (milionários em dólares), esse grupo cai para aproximadamente 0,2% da população, algo entre 400 mil e 500 mil pessoas.
– Abaixo da linha da pobreza: utilizando a linha internacional do Banco Mundial (US$ 6,85 por dia em paridade de poder de compra para países de renda média alta), cerca de 25% a 30% dos brasileiros vivem abaixo dessa linha. Já em extrema pobreza, o percentual fica em torno de 4% a 5%, variando conforme o ano e a metodologia.
Se imaginarmos um Brasil com apenas 100 habitantes, a fotografia seria aproximadamente:
– 1 pessoa estaria entre o 1% mais rico.
– 25 a 30 pessoas viveriam abaixo da linha da pobreza.
– 4 ou 5 pessoas estariam em extrema pobreza.
As demais teriam rendas acima da linha de pobreza, mas distribuídas de forma bastante desigual.
Falemos de renda per capta no Brasil
Primeiro, é importante esclarecer um conceito: renda per capita não é a renda que cada pessoa recebe. Ela é calculada dividindo-se toda a renda do país (ou o PIB, dependendo da medida) pelo número de habitantes.
É uma média, e, como toda média, pode esconder grandes desigualdades. Exemplo disso: Uma pessoa tem 8 laranjas, uma segunda tem 1 laranja e três outras pessoas têm de dividir uma única laranja. No total seriam 10 laranjas para 5 pessoas. Dividindo as 10 laranjas por 5 pessoas, a “renda per capta” (por pessoa) seria 2. Por esse cálculo diríamos que cada pessoa tem 2 laranjas. Aí é como eu disse: a tal renda per capta é uma média, e, como toda média, pode esconder grandes desigualdades.
No Brasil, a renda domiciliar per capita (a média!) mais recente divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística gira em torno de R$ 2.020 por mês (valor médio nacional, sujeito a atualizações anuais).
Entretanto, a distribuição real da renda/recursos é bastante desigual. Dados de pesquisas como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua e do World Inequality Database indicam aproximadamente que:
– Os 10% mais ricos ficam com cerca de 58% da renda total.
– Os 50% mais pobres ficam com cerca de 10% da renda total.
– Os 40% intermediários ficam com os 32% restantes.
Usando a analogia/parábola usada anteriormente de uma sociedade imaginária de 100 pessoas e R$ 100 de renda total, teríamos na realidade o seguinte percentual:
-10 pessoas mais ricas dividiriam R$ 58 (em média, R$ 5,80 por pessoa).
– 40 pessoas da classe intermediária dividiriam R$ 32 (em média, R$ 0,80 por pessoa).
– 50 pessoas mais pobres dividiriam apenas R$ 10 (em média, R$ 0,20 por pessoa).
Se quisermos destacar a concentração no topo, a desigualdade fica ainda mais impressionante. A pessoa mais rica (1% do total) ficaria com aproximadamente R$ 14 a R$ 16 dos R$ 100. Enquanto isso, as 50 pessoas mais pobres juntas dividiriam apenas R$ 10.
Ou seja, nessa ilustração, uma única pessoa entre as mais ricas teria mais renda do que cinquenta pessoas da metade mais pobre somadas. Isso ajuda a visualizar porque o Brasil figura entre os países com maior desigualdade de renda do mundo, apesar de possuir uma economia de grande porte.
Como surgiu a desigualdade abissal entre ricos e pobres no Brasil e no mundo?
No livro História da Riqueza (há diferentes livros com esse título, mas muitos historiadores econômicos convergem em pontos semelhantes), a riqueza dos países do hemisfério norte é explicada como resultado de um processo histórico de séculos, e não de um único fator.
Os principais elementos apontados são:
Colonização e exploração: entre os séculos XVI e XIX, potências europeias extraíram enormes quantidades de ouro, prata, açúcar, algodão e outras matérias-primas da África, Ásia e Américas, muitas vezes utilizando trabalho escravizado.
Acumulação de capital: a riqueza obtida foi reinvestida em bancos, comércio, infraestrutura, universidades, ciência e indústrias na Europa.
Revolução Industrial: países como Reino Unido, França e, posteriormente, Alemanha passaram a vender produtos industrializados de maior valor agregado, enquanto as colônias continuavam exportando matérias-primas.
Instituições políticas e jurídicas: em muitos países do Norte, consolidaram-se sistemas de proteção à propriedade, crédito, educação e inovação, favorecendo o crescimento econômico de longo prazo.
E no Brasil?
A desigualdade brasileira também tem raízes históricas profundas:
– A distribuição de terras começou extremamente concentrada com as capitanias hereditárias e os grandes latifúndios.
– O país recebeu cerca de 40% de todos os africanos escravizados trazidos para as Américas, e a escravidão durou mais de 300 anos. A riqueza produzida concentrou-se em poucos proprietários.
– Após a Abolição da Escravidão no Brasil, milhões de pessoas libertas não receberam terras, indenizações nem acesso amplo à educação ou crédito, perpetuando desigualdades.
– Ao longo do século XX, a industrialização, a urbanização e o crescimento econômico aumentaram a riqueza nacional, mas a distribuição dessa riqueza permaneceu bastante concentrada.
Hoje, economistas entendem que a desigualdade brasileira resulta da combinação entre herança histórica, concentração fundiária, diferenças educacionais, mercado de trabalho, políticas públicas, tributação e dinâmica econômica. Há debate sobre o peso relativo de cada fator, mas existe amplo consenso de que a concentração de riqueza no Brasil tem raízes históricas de longa duração.
OBS: Ilustração feita pelo Chat GPT
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