Uma pequena cronologia da usurpação e demarcação das terras dos povos indígenas e do que ainda precisa ser feito quanto a isso

As terras indígenas no Brasil são bens da União, inalienáveis e indisponíveis, destinados aos indígenas na forma de posse permanente. A definição legal das terras indígenas foi estabelecida pela Constituição de 1988, e atualmente, as terras somam 117,4 milhões de hectares, representando cerca de 13,8% do território nacional. A administração e demarcação das terras indígenas estão a cargo do Ministério dos Povos Indígenas e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

1. Cronologia da usurpação das terras indígenas no Brasil

Antes de 1500

  • Estima-se que entre 2 e 5 milhões de indígenas habitavam o atual território brasileiro, distribuídos em mais de mil povos e centenas de línguas.
  • Todo o território era ocupado segundo diferentes formas de uso coletivo, mobilidade sazonal e manejo ambiental.

1500–1549 – Início da colonização portuguesa

  • A chegada dos portugueses inaugurou um processo contínuo de ocupação das terras indígenas.
  • O sistema das Capitanias Hereditárias ignorou completamente a ocupação indígena.
  • Começam guerras, escravização e expulsões.

Séculos XVI e XVII

  • Expansão da cana-de-açúcar e das missões religiosas.
  • Bandeirantes capturam milhares de indígenas.
  • Diversas nações desaparecem ou migram para o interior.

Século XVIII

  • Ciclo do ouro e expansão para o Centro-Oeste.
  • Cresce a perda territorial dos povos do Cerrado e da Amazônia.

1755–1758

  • O Diretório dos Índios, criado pelo Marquês de Pombal, extinguiu grande parte da autonomia indígena e incentivou sua assimilação cultural.

Lei de Terras (1850)

Marco decisivo.

A Lei nº 601 declarou que somente poderiam ser adquiridas terras por compra.

Como os povos indígenas ocupavam seus territórios tradicionalmente, mas não possuíam títulos escritos, milhões de hectares passaram a ser apropriados pelo Estado e por particulares.

Esse é considerado um dos maiores mecanismos legais de expropriação territorial indígena.

República Velha (1889–1930)

  • expansão das frentes agrícolas;
  • seringais amazônicos;
  • grandes companhias de colonização.

Milhares de indígenas perderam seus territórios.

1910

Criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) por Cândido Rondon.

Apesar de proteger alguns povos, o SPI também promoveu políticas de integração.

Décadas de 1940–1970

Projetos nacionais de desenvolvimento:

  • Marcha para o Oeste;
  • construção de rodovias;
  • mineração;
  • hidrelétricas.

Muitos povos foram deslocados à força.

1967

Criação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (então Fundação Nacional do Índio).

Constituição de 1988

Grande mudança jurídica.

O artigo 231 reconheceu que:

  • os povos indígenas possuem direitos originários sobre suas terras;
  • esses direitos são anteriores ao próprio Estado brasileiro;
  • cabe à União apenas reconhecer e demarcar essas terras.

A Constituição determinava que todas deveriam ser demarcadas até 1993, prazo que nunca foi cumprido.

2. Como funciona uma demarcação

Em linhas gerais:

  1. estudos antropológicos;
  2. identificação;
  3. delimitação;
  4. declaração pelo Ministério da Justiça;
  5. demarcação física;
  6. homologação presidencial;
  7. registro definitivo.

Cada etapa pode levar décadas.

3. Quantas Terras Indígenas existem?

Os números variam conforme a fase administrativa.

Segundo a Funai e o Ministério dos Povos Indígenas, até o final de 2025 havia aproximadamente:

  • cerca de 780 Terras Indígenas em diferentes fases administrativas;
  • mais de 500 já regularizadas (homologadas e registradas);
  • dezenas em identificação;
  • dezenas aguardando declaração;
  • dezenas aguardando homologação;
  • outras ainda em estudos iniciais.

4. Onde estão localizadas?

A distribuição é bastante desigual.

RegiãoSituação
Amazônia Legalconcentra cerca de 98% da extensão territorial indígena
Nordestemuitas áreas pequenas e muito disputadas
Sulpequenas áreas cercadas por agricultura
Sudestepoucas terras e intensa pressão urbana
Centro-Oestegrandes áreas, especialmente Xingu e Mato Grosso

5. Algumas das maiores Terras Indígenas do Brasil

Terra IndígenaEstado(s)Povos
YanomamiRR/AMYanomami e Ye’kwana
Vale do JavariAMMatsés, Marubo, Kanamari, Mayoruna e diversos povos isolados
Alto Rio NegroAMTukano, Baniwa, Baré, Desana, Tariana e outros
Raposa Serra do SolRRMacuxi, Wapichana, Taurepang, Patamona e Ingarikó
Parque Indígena do XinguMTmais de 15 povos
MenkragnotiPAKayapó
KayapóPAKayapó
ArariboiaMAGuajajara e Awá

6. Quantas terras ainda aguardam demarcação?

Não existe um número absolutamente consensual.

Isso ocorre porque:

  • algumas comunidades aguardam apenas homologação;
  • outras ainda estão em estudo;
  • outras sequer tiveram Grupo Técnico criado.

Os levantamentos mais recentes indicam aproximadamente:

  • cerca de 250 processos administrativos aguardando alguma etapa de regularização na Funai e no Ministério da Justiça;
  • aproximadamente 25 terras já encaminhadas ao Ministério da Justiça aguardando declaração;
  • outras aguardando homologação presidencial ou registro.

7. Principais terras atualmente pendentes

Entre as mais conhecidas encontram-se:

TerraEstadoPovos
Sawré MuybuParáMunduruku
Tupinambá de OlivençaBahiaTupinambá
Barra Velha do Monte PascoalBahiaPataxó
ComexatibáBahiaPataxó
TumbalaláBahiaTumbalalá
Wassu-CocalAlagoasWassu-Cocal
XacriabáMinas GeraisXacriabá
Iguatemipeguá IMato Grosso do SulGuarani-Kaiowá
Ypoi/TriunfoMato Grosso do SulGuarani-Kaiowá
Dourados-Amambaipeguá IMato Grosso do SulGuarani-Kaiowá
Tekoha Jevy/Rio PequenoRio de JaneiroGuarani Mbya
Ka’aguy MirimSão PauloGuarani Mbya
Ka’aguy HovySão PauloGuarani Mbya
PakuritySão PauloGuarani Mbya
Boa Vista Sertão do PromirimSão PauloGuarani Mbya
MaróParáBorari e Arapium
Cobra GrandeParáArapium, Jaraqui e Tapajó
Apiaká do Pontal e IsoladosMato GrossoApiaká e povos isolados

8. Estados com maior número de conflitos fundiários indígenas

Os conflitos pela demarcação concentram-se principalmente em:

  • Mato Grosso do Sul (Guarani-Kaiowá e Ñandeva);
  • Bahia (Pataxó, Tupinambá e Pataxó Hã-hã-hãe);
  • Pará (Munduruku, Kayapó e outros povos amazônicos);
  • Maranhão (Guajajara e Awá);
  • Santa Catarina (Xokleng e Guarani);
  • Rio Grande do Sul (Kaingang e Guarani);
  • São Paulo (Guarani Mbya).

Considerações finais

A história das terras indígenas brasileiras é marcada por um longo processo de expropriação iniciado com a colonização portuguesa e institucionalizado por diferentes políticas estatais, especialmente a Lei de Terras de 1850. A Constituição de 1988 representou uma inflexão ao reconhecer os direitos originários dos povos indígenas sobre seus territórios tradicionais, mas a efetivação desse direito permanece incompleta. Embora centenas de terras tenham sido regularizadas, ainda existem dezenas de processos em diferentes fases administrativas, muitos envolvendo povos como os Guarani-Kaiowá, Munduruku, Pataxó, Tupinambá, Guarani Mbya e diversos povos da Amazônia. A demarcação continua sendo um dos temas centrais da política indigenista brasileira, envolvendo direitos constitucionais, preservação ambiental, segurança jurídica e reconhecimento da diversidade étnica e cultural do país.

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